terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Do Lavoro

Nas últimas semanas me peguei pensando sobre o sentido do trabalho; lembrando da entrevista do jogador de futebol camaronês que chocou o mundo do futebol ao dizer que não gosta de futebol e que ele é somente a sua profissão, o que ele faz para sobreviver. O mundo gritou incrédulo. "Ora pois! Todo menino sempre sonhou em ser jogador de futebol, em viver de sua diversão, e este sujeito vem e aparece dizendo que não gosta de jogar bola, apesar de ser jogador de Copa do Mundo... Como pode?" Quer saber? Certo estava ele.

Sabe, damos um valor demasiado ao trabalho, a ponto de, ao conhecermos alguém, não demorar nem 5 perguntas até soltar o famoso "e você faz o quê? Trabalha em qual área?" - como se o trabalho fosse algo intrínseco ao ser, como se não existisse o "ser" sem o "fazer".

Andei pensando que, no fim das contas, os socialistas estavam certos ao analisarem a história da sociedade sob o viés do trabalho. Tudo é trabalho. Como se sem trabalho você tivesse todas as suas possibilidades como ser humano limitadas ou impossibilitadas.

Mas o que é o trabalho, afinal? Para mim, nada mais do que algo que nos atribui uma função social. Trabalho é produção. Se você não trabalha, você não produz e se você não produz, lhe falta uma função na sociedade e você se torna um ser descartável e sem valor socialmente.

Esta minha visão não muito romântica sobre o que seria o trabalho me fez, nos últimos tempos, ver de um modo muito especial, o que é o meu trabalho. Eu não amo e não sinto tesão pelo Direito. E isto é errado? Geralmente causo espanto aos desavisados quando exponho minha total falta de romantismo pela minha função social produtiva.

E me faz muito bem não sentir tesão pelo meu trabalho. Eu acho, pelo menos. Para mim, como eu disse, trabalho é só uma questão de produção. Minha profissão reflete algo que sou capaz de produzir, com algum nível de qualidade. Para ser bom em algo não é preciso necessariamente amor, mas é preciso sempre algum nível qualificação. Eu me considero bom e dedicado no que faço. Quiçá faça meu trabalho melhor do que muitos apaixonados pelo Direito fariam. 

Sinto que esta minha "frieza" profissional me ajuda a ver o que faço de um modo mais objetivo, como quem limpa um peixe: mete a faca, tira as tripas e guarda o corpo.Chego lá, faço o que preciso fazer e volto embora para casa. Simples assim. O nosso trabalho é o que sabemos produzir e o que assegura nossa subsistência, nada mais do que isso.

Sabe aquele papo de se fazer o que gosta? Deve ser legal também, mas com o tempo deve enjoar, o amor deve ser vulgarizado, virar algo sem glamour como mijar de portas aberta na frente do "amor da sua vida". Imagine amar fotografar. Imaginou? Imagine ter que fotografar gente chata, enjoada, lugares sem graça, festas burocráticas para sobreviver... O tesão resiste? É natural que se vá perdendo o encanto, como para quase tudo na vida.

Não gostar do que se faz torna o trabalho o que ele é: algo que não se confunde com o seu ser. Você não é o que você produz remuneradamente. Não gostar da minha área de formação me tornou mais compreensivo com a chatice do que é o Direito. Me fez parar de buscar paixão onde não é preciso ter paixão. Me fez aceitar que o Direto é chato e parar de ficar me torturando sofrendo por fazer algo que eu queria que fosse legal. Me fez entender que só preciso ser bom no que produzo e meu papel social está feito. O Direito não precisa ser legal, eu só preciso fazer bem feito e voltar para casa, deixando o trabalho lá, no lugar dele. Não preciso andar de mãos dadas com o meu trabalho e apresentá-lo junto com minha apresentação como pessoa. Eu sou eu e ele é ele. Eu aqui e ele lá.

Pensar assim deve parecer bem estranho, mas faz muito bem, ao menos para mim. Chego muito focado no trabalho, compreendendo que o que ele quer de mim é só produção; que eu chegue lá e faça. Então é isto que eu faço. Chego e faço, sem crises existenciais. E depois, volto para casa, sabendo que, fora do trabalho, eu ainda tenho muita vida a viver, tenho toda uma existência, um universo de possibilidades como ser humano; muito além do que produzo socialmente.

Me tornei um profissional muito melhor e mais profissional ao separar o amor da produção. Me trouxe maturidade profissional. Esta separação diminui as chances de frustração com nós mesmos, com as escolhas profissionais que fazemos. Eu sempre quis ser professor, mas fico pensando, quantos anos eu conseguiria dar aula sem broxar com a rotina e o desgaste? Se é para ser rotina, que ao menos seja com algo que eu não aspire grande coisa.

Será possível viver muitos anos com este sentimento de resignação? De descrença com o que se faz? É possível ser motivado e resignado ao mesmo tempo? Sim. Desde que não se espere do trabalho mais do que ele seja, desde que se saiba separá-lo do que nós somos de verdade como ser humano. Trabalhar é uma necessidade porque produzir é necessário para sobreviver. E só. Desde os primórdios. Dedicar horas a algum trabalho é uma necessidade, como dedicar horas ao sono. Produza bem e aumente sua chance de sobrevivência. Talvez gostar do que se faz facilite a conquista da qualificação, mas não é o determinante, penso eu. Sem essa de "faça o que amas e não trabalharás mais nem um dia de sua vida". Vai trabalhar sim, amando ou não e com mais chances de se frustrar se quiser manter o amor em meio ao desgaste da vida produtiva.

Que saibamos viver e entender que nossa dignidade não está no que fazemos socialmente, mas no que somos como ser humano.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Gratidão

Esta semana eu me lembrei de um dia muito singular de minha vida; o dia em que quase passei fome. Eram tempos difíceis, eu tinha lá meus 13 anos de idade e, juntamente com minha mãe e um ex-companheiro dela, morava em uma casa alugada. Nesta época, embora o ex-companheiro de minha mãe tivesse emprego, ele quase não ajudava em casa e minha mãe mantinha a casa quase que sozinha, com o dinheiro das unhas que ela fazia até aos domingos.

Mas um dia não deu.

O ex-companheiro da minha mãe, brigado com ela, viajou para trabalhar fora do estado por alguns dias e não deixou nem um puto de um centavo.

Era o último dia da Festa da Penha e eu e minha mãe íamos à missa de encerramento no parque da Prainha. Na hora de sair de casa, minha mãe me disse para beber água antes de sairmos, pois não tínhamos dinheiro para comprar uma garrafinha de água mineral no local da missa, afinal, só tínhamos, sei lá, uns R$ 3,00, e precisávamos comprar pão no dia seguinte.

Naquele dia, eu entendi o que minha mãe, com a delicadeza das mães, quis me dizer simbolicamente. Quis me dizer indiretamente que, diferentemente dos anos anteriores, eu não poderia comer pipoca, cachorro quente ou alguma outra coisa no local da festa, pois a gente não tinha dinheiro e, se nada diferente ocorresse, passaríamos fome nos próximos dias.

Esta lembrança me traz lágrimas nos olhos neste momento.

Talvez este tenha sido o momento mais crítico de minha vida, o momento em que estive mais perto da fome. Mas esta não é uma lembrança só minha. Todos os anos, quando vamos em algum momento à Festa da Penha, mencionamos a lembrança deste dia: do dia que não tínhamos dinheiro para comprar nem água. E estava quente neste dia... Água, só em casa. Lembramos com gratidão, porque no dia seguinte, apareceram clientes como peixes na rede lançada pelos discípulos de Jesus e os R$ 3,00 multiplicaram-se.

Deus e o trabalho de minha mãe nos salvaram da fome. Mas nem todos têm a mesma "sorte". A impotência da fome é desumana, não podemos permitir que alguém ainda viva e morra por algo assim.

Quando fiz Direito, nunca sonhei em ser nada (juiz, promotor, advogado...). Tudo que eu queria era só chegar onde desse para chegar e ter um salário decente. É estranho um jovem estudar para um concorrido vestibular, entrar em uma universidade, sem sonhos profissionais. Enquanto alguns colegas discutiam comissão de formatura, eu não queria nem formar, para não perder minha bolsa estágio de R$ 800,00.

Quando vejo o que conquistei hoje, vejo o quanto fui agraciado por Deus. É verdade que não ganho R$ 10.000,00 por mês, mas ganho um salário que me garante uma vida digna, decente e com conforto. Nunca sonhei ser rico. Sempre sonhei apenas ter alguma segurança financeira, capaz de não me deixar em dúvidas entre comprar uma garrafa de água mineral ou o pão do dia seguinte e capaz de me possibilitar comprar as coisas que realmente preciso sem passar grandes sufocos. E isto Deus me deu e tem me dado.

Quando rezo, geralmente o que mais faço é agradecer e pedir perdão. Não porque eu não tenha coisas a pedir, mas porque eu não consigo começar se não for agradecendo (geralmente pego no sono ainda nesta parte, inclusive).

Mas não agradeço somente os ganhos financeiros. Deus foi muito bom comigo e tem sido! Tenho o mau costume de dizer que chego nos lugares certos, mas nas horas erradas. Uma baita heresia. Sou um agraciado! Seja pela minha saúde, seja pelas oportunidades e conquistas e seja pelas pessoas que Deus sempre colocou em minha vida.

Nunca tive um pai, mas também nunca faltaram pessoas para cuidar de mim, me ajudar de todos os modos que alguém pode ser ajudado. Sempre as pessoas certas e nas horas certas. Sempre. Pessoas que me ofereceram um teto para dormir durante meus estudos; o cobrador que me vigiava quando minha mãe precisava me embarcar sozinho, aos 10 anos de idade, em um ônibus intermunicipal para que eu pudesse estudar; pessoas que me ajudaram a ter uma infância feliz quando minha condição social não me permitia; pessoas que ajudaram a custear os meus estudos; pessoas que me ajudaram a desenvolver-me profissionalmente; e as pessoas que hoje me protegem afetivamente. Muita gente cuidou e ainda cuida de mim. Isto é amor, em sua forma mais pura. Só tenho a agradecer a essas pessoas.

Ainda espero a mulher com quem eu construirei uma família e terei filhos, vivendo a felicidade e o amor. Mas isto acontecerá no tempo certo. Aliás, preciso saber esperar e lidar melhor com esta espera, afinal, o afeto que me cerca, de diferentes maneiras e de diferentes pessoas, já é uma grande graça em minha vida.

Sou um agraciado!

Quando penso racionalmente em meus problemas atuais, vejo o quanto são pequenos. São problemas de "gente branca de olhos azuis". E sempre que me deparo com esta constatação, tomo coragem, perco a ansiedade e me sinto mais forte que o mundo. Nada consegue me irritar, me chatear ou me deixar verdadeiramente preocupado, quando lembro daquele dia que não dava nem para comprar uma garrafa de água mineral. É preciso nunca esquecer, para sempre valorizar o presente.

Não é preciso muito esforço para se considerar um agraciado. Às vezes não damos o devido valor para coisas como ter um teto para abrigar-se, ter um alimento qualquer para matar a fome, ter dinheiro para pagar uma passagem de ônibus, ter saúde, ter água para beber e tomar um banho, ter pessoas que nos querem bem... Precisamos ser mais gratos e não deixar que as dificuldades momentâneas nos tornem incapazes de ver o quanto somos privilegiados e de entender que a vida pode melhorar, apesar dos obstáculos.

Hoje eu estava vendo uma entrevista do Adriano "Imperador", aquele ex-jogador de futebol que desistiu do futebol no auge, que voltou da Europa diretamente para sua comunidade pobre. Ele foi e ainda é muito julgado por isto, como se tivesse feito a escolha mais burra da vida ao optar por andar descalço na "quebrada" onde cresceu, vivendo ao lado de seus familiares e amigos de infância, ao invés de ganhar ainda mais milhões e títulos como jogador de futebol. Ele é um cara que financeiramente pode ter tudo o que quiser, poderia ter ainda mais, mas preferiu não se preocupar com isto em nome de ser feliz na vida. Jogar futebol não o fazia mais feliz. Isto me fez pensar no quanto somos injustos com os "Adrianos" que vemos por aí, por exigir que eles deem às coisas erradas o mesmo peso grande que damos a elas, quando na realidade são os "Adrianos" é que estão dando o peso certo para as coisas que realmente importam na vida. Eles é que estão certos. Eles é que estão felizes, ao passo que nós...

Problematizamos demais a vida. No fim, não precisamos de "muita" coisa para sermos agraciados. Precisamos somente de um mínimo existencial que alimente e mantenha nosso corpo e nossa alma saudáveis e vivos com dignidade.

Isto não quer dizer que não devemos lutar por uma vida ainda melhor, mas que, no fim, isto não tem muito sentido se não formos capazes de sermos instrumentos para que aqueles que nos cercam também possam ter uma vida plena daquilo que realmente importa.

Obrigado, Deus!

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Voltemos

O mundo é dos meninos e das meninas.

Dos impúberes e dos púberes; dos pubis que balançam; da impetuosidade que incomoda; da ansiedade que executa; da originalidade que choca; da jovialidade que seduz; da irresponsabilidade que marca; da inconsequência que assusta; da coragem que confronta; da disposição que produz.

Mas os mocinhos e as mocinhas não marcam a história. Ela é escrita pelos cretinos; por aqueles que espancam qualquer esperança de futuro na humanidade; maltratam corações; traem a confiança; desprezam o amor; frustram expectativas; agridem; assediam; e, no fim, cansam todos nós.

As pessoas andam cansadas, sem fé, sem nada. Generalizamos a decepção, aquela que nos rouba qualquer expectativa de fé na mocidade e na verdade dos sentimentos humanos. Cansamos. Perdemos a disposição em lidar com gente. No fim, parecem todos iguais, dispostos a sugarem nossa energia vital até o fim e, após, partir. Viramos concha, daquelas que se fecham em seus próprios problemas que não parecem ter fim.

Mas há um mundo lá fora.

Cheio de gente como a gente: desiludida, mas que ainda acredita; humilhada, mas ainda de pé; devendo, mas planejando viagem e fazendo festa; com 28 dentes, mas que sorri; cheia de tarefas, mas vendo série; apanhando, mas batendo; sofrendo, mas amando; fora de forma, mas sensualizando.

Se todo mundo desiste, os cretinos triunfam. Se todo mundo se cala, os ignorantes falam. Se você se isola, o seu universo (cada um é um universo) deixa de expandir e você atrofia até não mais ter motivo para existir.

Vamos pra cima. O negócio é incomodar, falar, descabelar, estar lá, não se isolar. Vem! Vamos pra dentro deles. Juntos. Se você se esconde, eu entendo que pessoas como você e eu devem se esconder e outros também vão querer se esconder. Não se esconda, não nos escondamos. Silêncio pra quê? Temos mais é que falar mesmo. Meter a boca. Sabemos que não somos cretinos, então, não nos tratemos como os cretinos fazem ou como eles merecem.

Voltemos. Ocupemos. Fazemos. Acontecemos.

No fim, o mundo precisa dos meninos e das meninas. E precisamos todos do mundo.

domingo, 19 de novembro de 2017

Desembaraço

Às vezes falta um nome,
Alguma palavra de definição,
Para aquilo que nos consome
Sem pedir licença ou perdão.

Pobre condição humana,
De seres vulgo racionais.
Perdemos da vida semanas
Por respostas demais.

A desilusão do passado
Contamina o futuro,
Faz um presente fracassado
E impede o amor puro.

O soneto da liberdade
Não exige sarradas com solidão.
Acredite que há verdade,
Pode me dar o seu coração.

Se eu não for merecedor,
Será justo o seu não amar.
Mas se o motivo for dor,
Podemos ao menos tentar.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Goleiro

Dos 9 anos de idade até os 23 anos de idade, o futebol nunca me ofereceu nada além de ser um goleiro; um razoável goleiro, é verdade. Mas poucas coisas me fizeram tão bem ao longo de todos estes anos.

Os goleiros são como os anjos. Voam pelos ares como se tivessem asas e exercem a nobre missão de proteger sem nenhum sentimento de vaidade.

O goleiro é um destemido. Um bravo. Atira-se em bolas violentas e nos pés de adversários sem medo de machucar-se.

Ao goleiro, só interessa proteger a sua meta e garantir a vitória ao seu time. Todo o resto é bobagem. Não lhe preocupam as lesões.

Os goleiros são heróis. Alguns são santos, fazem milagres. Salvam. Garantem a alegria do povo. Evitam derrotas. Pegam pênaltis. Conquistam títulos. Estes momentos, raros na maior parte do tempo, são sublimes. Toca-se o céu com as pontas dos dedos, sem luvas. E um goleiro jamais esquece.

Mas o goleiro também é um coitado. Falha. Sofre. Vai do céu ao inferno em uma fração de segundos. É criticado, desmerecido, acusado, vaiado, xingado. É o vilão. Quando um gol é perdido, é o time quem perdeu um gol e a responsabilidade se dilui. Contudo, quando um goleiro toma um gol, ele é o principal responsável pela meta violado, no sentir dos torcedores.

No fim, o goleiro é só um homem.

Vence, mas sofre. Mais sofre do que recebe louros. Tem consciência da importância do que é e do que faz. Conhece a dureza de seu ofício. Lembra dos rápidos momentos de vitória, sem esquecer da realidade de joelhos ralados, hematomas, dedos entortados e dos ossos quebrados. Ninguém dentro de um campo imagina as angústias e tristezas que habitam o coração silencioso de um goleiro. Los recuerdos dolorosos. As derrotas e os gols que não se pôde evitar. Um voo mal calculado, um salto retardado, um momento de afobamento ou de excesso de confiança: GOL. A bola está dentro da rede. Resta um olhar resignado para trás. 

Não se deixe enganar. Ser goleiro é conviver com a brevidade do sucesso e a certeza do fracasso. Ser goleiro é uma luta constante contra o insucesso. Saber que mesmo que o time vença, somente ele viverá o fracasso de ter sido vencido em um ou mais gols sofridos. Cada gol tomado é um fracasso, ainda que o time vença. Cada gol que não pôde ser evitado, apesar de todo o esforço, é um fracasso. Uma bola a ser buscada no fundo das redes com o silêncio do coração. Mas um goleiro nunca pode deixar de acreditar, mesmo após mais um fracasso.

No fim das contas, nesta vida, todos somos um pouco goleiros. Temos que lidar com mais frequência com os momentos de fracasso e de dor do que com breves momentos de sucesso e glória.

Porém, somente alguns aceitam a responsabilidade que é ser goleiro nesta vida. Ser goleiro é cuidar e proteger, ainda que sem ser notado. É ser o responsável por proteger o amor de alguém, ainda que em silêncio. Ser goleiro é se machucar, se ralar, se quebrar, mas não deixar a vida de alguém se esvaziar. O sucesso desta empreitada traz ao goleiro grande satisfação pessoal, ainda que uma satisfação silenciosa.

Ocorre que, como dito, os goleiros falham e causam tristeza, mágoa ou chateação, ainda que não tenham agido com más intenções.

Ser goleiro também é admitir seus próprios erros.

Me desculpe.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Me deixe sofrer

Viver pode ser muito estranho. Às vezes, ser bom não é o suficiente. Geralmente o mundo nos exige que sejamos excelentes para sermos suficientes, mas em outras ocasiões inexplicáveis, o mundo nos exige que sejamos medianos ou ruins para que possamos dar certo.

Tempos em que se entregar causa insegurança e desconforto. Tempos em que oferecer o coração causa apreensão. Céus! Que mundo é este? O mandamento maior só pode ser o amor. Não é possível ser triste com amor, mas é possível ser feliz sem amor; aliás, que felicidade triste.

Talvez seja a forma com que apresento minha proposta. Uma vez, me disseram que, de tão bela minha proposta, seria muito difícil negá-la sem algum constrangimento. Me sinto grato, mas gratidão não enche o coração. De que valem elogios, sentimentos tão supostamente nobres, se no fim eles são descartados como os amores pobres? Agradeço, mas não entendo.

E é difícil entender. Talvez a oferta intimide e eu pareça perdidamente apaixonado por você. Mas Não! Não estou apaixonado por ninguém neste momento. De verdade! E de tanta insistência, estou a me oferecer a todas as gentes. Afinal, se sou tão bom, preciso ser bom no maior número possível de corações... Acredite! Estou a olhar para todas, infelizmente. Afinal, talvez o seu suficiente esteja em uma escolha mediana ou ruim, exija que você rejeite a escolha excelente.

Uma pena chegar nos lugares certos nas horas erradas. Uma pena se oferecer para as pessoas nas horas erradas. A culpa não é das pessoas, afinal, ninguém é obrigado a estar disponível quando o outro está. Entendo. Resignadamente entendo. Uma hora ei de bamburrar. Mas quem eu encontrar, talvez possa achar estranhamente muito boa a minha oferta e querer recusá-la.

Não quero causar dúvidas! E esta também não é uma forma de pressionar. Mas eu preciso dizer ao mundo que talvez eu seja o "cara excelente" que é proibido de amar. Por favor, entenda o meu lado. É tão estranho ouvir que sou uma pessoa cheia de atributos, MAS que não posso te amar. É de dar um nó na cabeça. É tão estranho ouvir sempre que o problema não está em mim, mas que eu não mereço sofrer. Teria eu nascido para ser um anjo e estou a ser protegido dos sofrimentos humanos? Escrevo porque não sei mais o que fazer.

Aos 20 e poucos anos, o tempo parece eterno. Parece que tudo pode ser feito a qualquer tempo e que tudo pode ser sanado a qualquer momento. Temos a ilusão de que nossos dias são certos, quando a existência de cada um deles não passa de uma firme e convicta presunção.

Tempos estranhos em que em nome de não frustrar, de não fazer sofrer, não nos deixamos amar. Isto é lindo, não deixa de ser uma prova de amor, ainda que de um amor fraterno, que nos impõe o dever de cuidar uns dos outros. Em nome do sentimento de proteção, acreditamos evitar que o amor se torne uma desilusão.

Mas o que é a desilusão, senão uma prova de que dentro de nós bate um coração? Só ama quem sente e só sente quem vive. E viver, também é sofrer. Em tudo Jesus viveu a condição humana, sobretudo no sofrimento. Ser humano também é sofrer. E se eu não puder sofrer, não sou digno de viver.

No momento, não amo ninguém, penso eu. E ninguém quer me deixar amar, por medo do sofrimento que eu possa vir a experimentar. Dizem que não sou digno de sofrer, que tenho muitos dons a proporcionar. Mas se não sou digno de sofrer, não sou digno de viver e nem de amar. Um copo de água e amor não se pode negar a ninguém.

Me deixe sofrer! Me deixe viver! Me deixe tentar amar!

domingo, 24 de setembro de 2017

Manifesto

Quando você disse simplesmente "Venha!", o chamado encontrou um soldado vencido, rendido, entregue e sofrido. Maltratado pelas emoções da vida, pelos jogos e por gente indecisa. Seu chamado encontrou um Ulisses resistente - moralmente resistente -, mas entregue, de fato, desde o primeiro "não". Como resistir a um sentimento tão espontâneo vindo de uma pessoa tão admirável e virtuosa? Como resistir a um chamado que até então ninguém teve coragem de fazer diretamente? Como resistir a um chamado de quem sabe o que propõe, diante de uma vida marcada por ofertas indecisas?

Ah, mas tem os riscos... Sempre tem os riscos. Inúmeros, aliás. Riscos bons e riscos ruins. Riscos certos e riscos incertos. Mas viver é um risco. Tivemos chances de morrer no dia de hoje. E não percebemos. De que valem os riscos, afinal, se não for para nos lembrarmos que não somos eternos e de que a vida é frágil como um sopro? Porém, eles existem. E os que mais temo são os que envolvem terceiros. Não temo por mim. Nunca escondi de ninguém que, ainda que com alguma vergonha/receio, assumo todos os meus atos, de modo honesto. Temo pelos outros, sobretudo pelos niños inocentes. Uma mulher deixa de ter direito a uma vida, deixa de ter direito a se realizar, quando se torna mãe? Não. Mas ela se torna eternamente responsável pelo o que cativas. E isso pesa.

Calma lá! Mas isto é uma radicalização! Focar no risco mais pesado é uma injusta forma de analisar a situação. E que situação! Maravilhosa e fantástica situação, no melhor sentido que essas palavras podem ter. Uma radicalização que vê além da paixão. E é preciso ir e pensar para o que está além da paixão? Ora, essa busca por riscos ofusca o momento, tira parte de sua cor. É preciso vivenciar, experimentar e deixar a vida dizer "qual bicho vai dar". Mas é inevitável! A experiência mostra que quando a vida aproxima dois românticos o "bicho" que dá é quase sempre o mesmo... Porém, a experiência de viver, ainda que por longos anos, nunca evitou que alguém pudesse morrer. Experiência não desvenda tudo. 

Este momento pode ser bem curto e ter consequências bem menores do que se pode imaginar. Pode ser só um lance. Uma paixão de primavera. Um afeto de almas que estão se decifrando e de corpos que estão se desejando. E isto não vai me frustrar, ainda que eu venha a me apaixonar. Então por que tanta indagação? Te prometo menos perguntas e mais ação. A resposta que parece mais óbvia a um olhar racional é a de que tudo não passa de uma grande loucura. Mas como diz um verso de uma banda que eu detesto: "Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?"

Deixem ser. Deixem acontecer. Vivam! Melhor lembrar do que se viveu, do que sofrer pelo o que não se experimentou. Quando almas se encontram, elas precisam ter a oportunidade de se comunicar e de se sentir. Depois de se decifrarem, elas descobrem por si mesmas qual o grau de proximidade devem manter entre si. Não façam o mal e tudo será bem. Não se culpem, só assumam as responsabilidades pelo dever-ser.

Criar expectativas na vida é uma puta presunção, uma baita ideia de autoconservação, que precisamos manter para encontrar segurança e motivação. Mas, o que garante o próximo amanhecer? As escolhas ajudam a criar certa ideia de certeza; contudo, uma frágil certeza, desmanchável como fumaça no ar.

Então faça! Disponha-se! Entregue-se! Ame! Pois nunca é tarde e nada é irreversível, exceto a morte.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Segredo

Entre a emoção e a razão
Nem sempre há uma terceira via,
Quando nenhuma resposta é solução,
O acerto torna-se uma utopia.

Separadas pelo Equador,
Uma na outra se mistura.
Como em um baile de cor,
Não há opção que seja pura.

A certeza racional depende de fé,
De uma que seja bem boa!
Capaz de tornar a emoção uma ré,
No meu coração e no da Pessoa.

Mas o céu racional é mal pintado,
Só vai até onde os olhos podem crer.
Pode ser frágil como telhado
Quando o desejo é por você.

O sentimento pinta o céu novamente
Com vibrantes cores vivas.
Traz momentos lindos à mente
E as emoções viram divas.

Mas do fracasso da razão
Não deve nascer o amor,
Talvez um ode à paixão,
Com duração, por favor.

Em coração comprometido
Paixão afeta a normalidade.
Gera ciúme (in)contido
É sinônimo de infidelidade.

A sociedade impõe a dor,
Diz que desejar é uma loucura.
Então se não podemos ter amor,
Deixemos que o sexo seja a cura.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Delírios da pré-meia idade

Uma sensação estranha, mas constante, de que morrerei antes da hora, em plena primavera da vida. Sensação de que preciso ser rápido e cirúrgico nas escolhas e decisões. Sentimento de que não há tempo a perder. Não quero ir aos 100 (talvez nem aos 80), mas não é justo nem chegar aos 50.

Uma agonia de que a ordem natural das coisas será subvertida e de que o filho irá antes do pai. Tão certo quanto isso, só as certezas de que terei só uma filha e de que serei o primeiro presidente inédito (talvez não branco ou solteiro ou capixaba ou com menos de 50 anos ou algum outro distintivo) de alguma coisa. Delírios constantes que não deixam de ir e vir.

Um desbravador por excelência. Um destemido por falta de opção e necessidade. Menos preocupado com sorte ou azar e mais crente nas trocas da vida, com a certeza de que um dia é da caça e o outro é do caçador e de que um dia somos roubados e no outro favorecidos.

Assim segue. A vida sobe como balão. Como o topete do baloeiro e a pipa do vovô. Sem grandes aspirações, organização e planejamento, mas com dedicação e algum grau de disposição.

O que incomoda são as negativas sem sentido; o treinar muito para ser roubado; o ser excelente que não é suficiente; a impossibilidade de manter uma comunicação que não termine com uma mensagem com resposta umas 6 horas depois. Sabe? Tipo gente normal, que manifesta interesse. Complicado. Andam cansando o menino de ouro... Ele anda cansando dessa gente. É impressionante! É tipo Pirituba.

Mil frentes e nenhuma definição. Nada de nada. Isso já começa a incomodar e a cansar.

Há de chegar. Em algum momento há de chegar. Mas tá foda.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Hoje vai ter que ser

Dois meses sem escrever?! Tempo pra carai...

Sei lá, talvez este macaco de camiseta que vos escreve esteja vivendo uma fase introspectiva enquanto aguarda mais um episódio de O.J. Simpson - Made in America terminar de baixar.

Ando desesperançoso com a política. Não vejo soluções democráticas nem em um médio prazo. Nossa população precisa urgentemente de acesso à educação. Não apenas escolar, mas educação cidadã. Aos 27 anos, não vejo qualquer futuro para nossa política e ando sem forças até de criticá-la. Há um futuro medonho pela frente. Tento não pensar nisso, mas é foda. É difícil ter que, aos 27 anos, fazer um exame de futurologia para daqui a 30 anos. O que acontece quando o jovem perde a esperança de um mundo melhor?

O amor? Há pouco superei a incredulidade com meu affair que durou menos que um verão. Aprendi muito, é verdade, mas também fiquei bem confuso por um bom tempo. Luto contra o pensamento de que os loucos são os outros, pois sempre que essa parece ser a conclusão, parece que nós somos os verdadeiros loucos. Mas tem horas que não há outra explicação mesmo. E também tem dias que a gente tem que ir pro arrebento; dias que a gente tem que fazer ser, com raça, com maracatu atômico; dias de "hoje vai ter que ser"; dias que não podem ser dias de "de novo não". Foi uma grande loucura de 2 bilhões de dólares, uma loucura buscada e, atualmente, superada. Estou aí de novo, às voltas com uma balzaquiana que vive a indecisão amorosa da realização profissional e a pressão da proximidade do badalar do relógio social. Eu a quero e ela quer (ao que parece), isso deveria ser sempre o suficiente, porém quase nunca é.

Andei lendo sociologia essa semana. O lema positivista era "Ordem, Progresso e Amor". Já falei de "Ordem" e de "Amor". Faltam os progressos.

Ó paí ó! É progresso para mais de metro. Uma série de pseudoproblemas mascarando o espetáculo do crescimento. Perdendo tempo com problemas de gente rica e branca de olhos azuis. Não tenho que me preocupar se haverá dinheiro para comprar comida e pagar o aluguel. Em outros tempos isso era o suficiente; ao menos parecia.

Baixou. Tô vivo! Daqui a pouco passa e a energia se renova.

domingo, 15 de janeiro de 2017

A volta dos que não foram

Acharam que era o fim? Aí sim foram surpreendidos novamente! Estamos aqui de volta

Somos o maior amigo e o maior inimigo de nós mesmos. Conhecemos segredos de nós mesmos que nem o terceiro mais próximo, mais íntimo, é capaz de saber. Diante disso, creio que sabemos de antemão boa parte daquilo que nos desestabiliza, nos tira a paz e o norte, e, por esse motivo, também sabemos de antemão o que precisamos fazer para não deixar que isso possa ocorrer. Estamos em luta constante contra nossos impulsos que sabemos que nos fazem mal, mas ainda assim, conscientemente, nos deixamos sucumbir, aceitamos o preço e os riscos de deixar a besta de nós mesmos sair.


Guiados por nossos impulsos ruins, nos afastamos da margem, pisamos em terrenos incertos e quando nos damos conta estamos em mar aberto, com a água acima do nível de segurança. Nessa hora percebemos o quanto nos afastamos daquilo que sabemos em nosso íntimo ser o que nos traz paz e segurança e percebemos o quanto fizemos mal a nós mesmos e aos outros.

É comum ouvir frases do tipo "desde o início eu sabia que isso não ia dar certo", "se eu tivesse seguido minha consciência eu não teria feito isso". Somos videntes de nós mesmos, capazes de salvarmos a nós mesmos de muitas coisas e de nos levarmos ao lugar certo pelo caminho mais previsível e seguro.

Mas também somos os inimigos de nós mesmos. E é difícil controlar nossa vontade incontrolável de seguir nossos impulsos, por mais claramente idiotas que possam parecer a uma análise com um pingo de racionalidade.

Às vezes perdemos dias, semanas, meses, anos, dando cabeçadas e, quando enfim percebemos, perdemos uma parte considerável de nossas vidas, daquelas que não cabe mais reembolso.