segunda-feira, 21 de julho de 2014

Pará

Quer saber?
Vou-me para o Pará.
Não Belém!
Quem sabe Marabá...

Pegar um trem
Aquele de Carajás!
Queria ontem,
Mas vou já!

Estrada de ferro
Coração de aço
Ar de minério
Me dê um abraço

Meia passagem,
Uma ida.
Meia viagem,
Uma vida.

Ôh Sônia, Ôh Sônia
Preciso te encontrar.
Na Amazônia
Ou qualquer lugar.



segunda-feira, 7 de julho de 2014

História na carne

É preciso ter cicatrizes.

Sim. Digo cicatrizes no sentido real da palavra; de marca de rasgado na pele.
Pessoas com cicatrizes sabem o que é viver intensamente o inesperado. Sabem o que é sentir e guardar literalmente na carne um momento vivido.

As cicatrizes ensinam.

Quem tem cicatrizes tem histórias para contar. Histórias de dor, de aventura, de tristeza ou até de loucura.
Quem tem cicatrizes conhece a impotência de ser surpreendido sem estar pronto para (re)agir.
Quem tem cicatrizes sabe o que é ser imperfeito.
Quem tem cicatrizes sabe até onde pode ir um momento de traquinagem, irresponsabilidade (própria ou alheia) ou irracionalidade.
Quem tem cicatrizes conhece consequências.
Quem tem cicatrizes sabe o que é ter que viver com algo indesejado.

As cicatrizes nos lembram que a vida é feita de batalhas. Nos lembram que viver pode ser perigoso e que estamos a todo o tempo expostos a riscos. Elas nos tornam um pouco menos vaidosos fisicamente, com menos pudor; mais flexíveis em aceitar as coisas da vida.

Minha primeira cicatriz de destaque foi adquirida aos 07 anos de idade; após um momento de molecagem na escola. Um corte na face; lembrança de 05 pontos levados. Na época, eu perguntava à minha mãe se quando eu crescesse a marca ia desaparecer da minha pele. De alguma forma, aquele marca que só eu tinha me incomodava, pois me fazia diferente; e tudo o que não se quer aos 07 anos de idade é ser diferente dos amigos.

Fui crescendo a acumulando mais marcas e desencanando dessa neura com as cicatrizes. Fui percebendo que elas são parte da minha história, assim como as 27 estrelas de nossa bandeira nacional. Não há graça em uma vida sem marcas; registros.

Morrer sem cicatrizes, deve ser como morrer sem ter corrido riscos, ou seja, morrer sem ter vivido.
Ou então (isso me veio à cabeça neste exato momento), pode ser um símbolo de vitória; algo como conseguir sair ileso de uma corrida maluca na qual praticamente todos se machucam.

Sinceramente, prefiro a primeira opção.

Prefiro os heróis que saem do campo de batalha com marcas da vitória conquistada, e não aqueles que vencem ilesos. Por quê? Porque pra mim, ter cicatrizes é um símbolo de humanidade, de imperfeição. Adquirir cicatrizes, no meu sentir, é expor a todos sua condição humana, de "gente como a gente", que sofre, luta, e, de algum jeito, vence. Me sinto, de alguma forma, mais à vontade com alguém que, como eu, carrega um rasgado na cara. "É gente de carne", penso eu de maneira meio inconsciente.

De certa forma, agradeço a Deus por ter vivido cada cicatriz que carrego em minha pele. Agradeço pela oportunidade de expor a todos a minha imperfeição, a minha fragilidade como homem.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Amélie

Hoje vi um filme bem novo. Deve ter só mais de uma década que foi lançado... hahaha
Da série coisas que se faz quando se está de férias.

Le fabuleux destin d' Amélie Poulain (O fabuloso destino de Amélie Poulain)

Conhecem? Imagino que quase todo mundo já teve a oportunidade de ver esse filme na última década. Por todos esses anos tive uma curiosidade inexplicável de ver esse filme; um fascínio anormal. Até mesmo algumas músicas da trilha sonora eu já tinha baixado da internet, mesmo sem ver a obra.


A primeira impressão? Uma obra delicada. Extremamente delicada, aliás. Um filme tão delicado quanto sua protagonista. Cada mínimo detalhe, cada personagem, tudo muito bem trabalhado. Por certo, para quem curte filmes mais objetivos, "O fabuloso destino de Amélie Poulain" é um filme chato, arrastado. De fato, é um filme meio paradão. Mas esse paradão é justamente um reflexo do modo de vida dos personagens da obra. 

Aí é que está o grande charme dessa película: os personagens. Seres comuns. Pessoas normais. Mas tão normais que parecem exóticos. É exatamente isso que a apresentação de cada personagem, dizendo o que eles gostam e detestam parece mostrar. Mostra que seres comuns, na sua intimidade, gostam de coisas incomuns, como enfiar a mão bem fundo em um saco de grãos, mas detestam coisas triviais, como que seus dedos enruguem após um banho quente. Pessoas comuns são apresentadas como se fossem excêntricas. É como se a obra quisesse dizer que, de alguma forma, mesmo as pessoas mais "normais" possuem suas "loucuras".

Amélie é uma menina de vida sem graça. Como tantas pessoas que cruzam conosco todos os dias. Uma menina de trajes simples, de beleza simples e de agir comum. Até que um acontecimento incomum, muda todo o seu destino. Na verdade, não é o destino dela que muda ao encontrar uma caixinha escondida em um buraco de seu quarto, mas o jeito dela conduzir a vida e, consequentemente, de construir seu destino. A personagem passa a fazer coisas incomuns. A fugir do óbvio.


Não consegui segurar as risadas com as traquinagens de Amélie com o quitandeiro e, sobretudo, com seu próprio pai. É hilária a história das viagens do anão de jardim!

É interessante notar que ao mudar sua forma de agir no dia a dia, Amélie passa a alterar a vida de todas as pessoas comuns que estão ao seu redor. Ela passa a produzir novidades, boas e ruins, na vida de todos eles. Passa a tira-los do costume. Tira-lhes do conforto, do marasmo. Mas ao mesmo tempo que muda a vida de todos, Amélie segue mantendo-se omissa em relação aos destinos de sua vida. Não se decide sobre sua vida afetiva. É contraditório. Ela rompe a inércia em direção ao rapaz que lhe atrai, mas quando consegue coloca-lo na sua zona de influência, quase deixa, por inércia, escapar a possibilidade de se relacionar com ele. Ela o conquista com suas condutas de ousadia, porém foge do contato, da relação amorosa, quando percebe que o conquistou.


Amélie tem coragem de lançar novas cores sobre a vida de todos, mas não tem coragem de iluminar sua própria vida. É intrigante. Ela é uma menina boba e atrevida ao mesmo tempo. O mundo precisa de mais meninas como Amélie. Na verdade, acho que devem existir muitas, mas elas devem estar escondidas por aí, ainda se escondendo da vida, dos contatos e dos relacionamentos. Aliás, se eu achar uma "Amélie" que fale francês, eu caso com ela sumariamente. Como é doce e agradável ouvir uma mulher falando francês...

E a atriz? Nunca tinha ouvido falar dela antes, contudo, preciso reconhecer que ela é de uma beleza apaixonante. Beleza simples. Em geral não acho bonito mulheres de cabelo curto como o dela, mas consegui abrir uma exceção. Não sei porque, mas eu achei o rosto da atriz muito igual ao da Catherine Zeta-Jones mais nova. Eu sei, elas não se parecem...

      
                                             Catherine                                          Audrey Tautou

Voltando à personagem, Amélie é fabulosa. Aliás, todos os personagens são fabulosos. Pessoas normais, de vida chata e sem graça até o dia que Amélie começa a criar novidade na vida deles. E aí fica a grande mensagem do filme. A vida é cheia de pontos de conforto. De momentos em que escolhemos não se arriscar e se entregar ao comodismo das coisas que se repetem e não nos exigem novas respostas e atitudes. E os anos passam dessa forma repetitiva e só depois vemos o quanto desperdiçamos. Pessoas normais tendem a ser vegetais, a perguntar "tudo bem" sem realmente se importar com a resposta; a dizer que o tempo está quente só para não ter que movimentar uma conversa de verdade.

"O fabuloso destino de Amélie Poulain" é um filme de história delicada. Que nos toca com sutileza se nos dispormos a analisar cada pequeno detalhe da história. Aliás, são muitos os pequenos detalhes que tornam o filme algo que foge ao roteiro comum do que costumam ser as películas românticas.

Amélie nos convida à vida. A nos expormos um pouco mais. A sairmos de dentro da concha e a nos atirar com ousadia para construirmos nossos próprios destinos fabulosos.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Justiça nos dentes

Quando recebi uma mensagem pelo whatsapp no meio da tarde dizendo que Luisito Suárez havia mordido alguém mais uma vez, pensei que fosse brincadeira. Levei um susto ao chegar em casa e ver que de fato era verdade. Não fazia o menor sentido uma mordida naquelas circunstâncias (não que em outras circunstâncias fizesse algum sentido).


Por um momento tive pena. Pena do atleta que há pouco mais de 1 mês estava em uma cadeira de rodas e fora da Copa do Mundo, mas que deu seu máximo para conseguir entrar em campo e ajudar sua seleção no momento que ela mais precisava dele. Ele iria do céu ao inferno. Eu tinha certeza disso. De herói da classificação a vilão.

Olhando a mordida dada por ele, não achei que foi AQUELA mordida. Italianos são sempre muito dramáticos. Sei lá, achei muito escândalo para pouco dente. Mas por outro lado, foi uma mordida. Um exemplo ruim em uma ocasião para lá de inadequada. Poucas coisas neste planeta têm tanta audiência quanto um jogo de Copa do Mundo. Logo, poucas coisas ganham tanta publicidade quanto algo feito durante uma partida de uma Copa do Mundo.

Um péssimo exemplo. Para as crianças que estão descobrindo a magia do futebol. Um péssimo exemplo no esporte que é capaz de parar guerras. Uma conduta errada no momento mais errado possível. Um mau exemplo visto por milhões de cabeças.

Normal haver uma punição a Luisito. Não se pode deixar impune uma conduta tão fora do mundo do futebol como uma mordida no adversário.

Mas aí começa a festa.


Um monte de gente defendendo Luisito. Como esse senhor da foto, que deu ao mundo o bom exemplo de ser expulso de uma Copa do Mundo por ter sido flagrado no exame antidoping em plena competição.

Sai a punição: quatro meses fora dos gramados e suspensão de nove jogos oficiais pela seleção uruguaia. Pesada? Pela praticamente inexistente lesão ao agredido, por certo a punição se mostra exacerbada. Mas como já disse antes, o ato de Luisito, em uma Copa do Mundo, tem um efeito muito mais nocivo para o futebol como esporte global. Quantas pessoas viram essa cena? Quantas pessoas não irão de alguma forma assimilar essa conduta como algo normal no futebol? Além disso, essa foi nada mais nada menos que a terceira mordida de Suárez contra adversários. Uma pena leve, por certo, não teria muito efeito sobre Luisito.

Mas eis que entra em cena o mundo latino. Digo latino porque não vi a imprensa europeia questionando muito a pena de Suárez. Porém, o mundo latino, viu a punição como quase uma pena de morte. Aí não pude deixar de pensar, como gostamos de ser coniventes com os "pequenos infratores" neste lado do mundo.

"Ah, nem é crime. É só uma contravenção penal."
"Ah, a sociedade aceita. Não dá pra dizer que seja ilegal."
"Ah, é uma mentirinha de leve."

Quem nunca ouviu algo assim por essas bandas? Por que tanta tolerância com as pequenas delinquências? Ah, porque são pequenas, ora! Mas se fosse assim, elas então nem deveriam ser consideradas delinquências. No meu trabalho, tenho a oportunidade de sentir pena de alguns acusados, mas sempre que me pego tendo essa recaída, me pergunto: estou sendo justo com aqueles de quem não senti pena? Em outros termos, ou se sente pena de todo mundo ou não se sente pena de ninguém. É meio radical? Pode ser. Mas dessa forma, se pode ter uma interpretação menos subjetiva das normas.

Eu senti pena de Luisito, como já disse anteriormente. Mas logo depois não pude deixar de considerar que ele errou e mereceu ser punido exemplarmente. Um histórico de três mordidas, sendo uma delas em uma Copa do Mundo, para milhões de telespectadores, não pode passar em branco. Não no mundo europeu. Já nesse nosso mundo onde quem "erra de leve" tem o mesmo tratamento que quem "faz o certo", a punição de Suárez foi um escândalo de cruel. 

Não estou exagerando. A título de exemplo, cito que torcedores do Corinthians mataram um jovem boliviano com um sinalizador durante uma partida de futebol e o time sequer foi desclassificado da competição pela Confederação Sul Americana de Futebol. A "pesada" punição foi ter que fazer alguns jogos em casa sem a presença da torcida e de não poder ter torcedores seus em jogos fora de casa. Na Europa, na época das brigas de torcida, os times  ingleses foram proibidos de jogar a principal competição de futebol daquele continente por cinco anos.

Quer outro exemplo? Neste ano, torcedores de um time peruano imitaram sons de macaco todas as vezes que o jogador Tinga, do Cruzeiro, tocava na bola. Punição ao clube: multa de US$ 12 mil. Sim. Uma multa ridícula para punir atos de racismo! É assim que são as punições na América do Sul. Por isso somos tão simpáticos a Suárez. Achamos tão normal mordidas, socos, xingamentos e empurrões. Levamos a sério aquela frase racista de que "futebol é um esporte de nobres praticado por selvagens".

Ainda temos muito o que aprender com os europeus em alguns aspectos... Acho que Luisito nunca mais vai morder alguém dentro de campo. A pena aplicada, por certo, terá cumprido seu papel punitivo e de prevenção.