sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sim City

As rugas e a longa barba branca não escondiam que o tempo havia passado impiedosamente, mas o tempo não importava para ele. Ele possuía todo o tempo do mundo, apesar disso, em algum momento que ele não se lembrava mais quando foi, ele se cansara daquilo tudo e resolveu: terminei. Havia terminado. Estava ali, ao alcance dos seus olhos semi-cerrados e de suas mãos sujas, ainda que limpas.

Aquele momento era todo deles. Artista e criação. A mão esquerda ainda estava suja, mas isso não fazia a menor diferença naquele momento. Era só ele e ela. O adorável cheiro de coisa nova tomava conta do ar. Mas ainda não era o cheiro das fábricas chinesas que vem dentro das embalagens de plástico, até porque os chineses ainda nem existiam. Ele era a única fábrica, a sua própria fábrica. O mesmo vento que sacudia a sua longa barba e os fios compridos de cabelo que cobriam a sua cabeça também espalhava aquele cheiro original pelo ar. Ela estava ali. Diante dos seus olhos.

Foi tudo muito de repente. O suor que ele derramava enquanto criabalhava era a própria seiva da vida. Uma hora ele se deu conta de que não precisava de mais nada. Estava pronto. Simplesmente, pronto. Não havia ninguém com quem compartilhar aquele momento. Era só ele e ela. Ele estava nela e ela era ele de alguma forma. Mas por que mostrar? Por que ter alguém para mostrar? Quem é alguém? Ela existe! Isso bastava para ele. Ela simplesmente existe.

Depois de contemplar o trabalho feito ele resolveu que era hora de deixá-la só. Deixá-la ir (ainda que ficando) e se fazer. Se reconstruir. Laissez faire, laissez passer! Allez le bleus! E assim ele foi-se indo... indo... e acabou fondo...

Para dizer que não foi ingrato, interrompeu seus vagorosos passos e deu uma última olhada para trás, por cima dos ombros. Como aquilo tudo era lindo. Como era boa a sensação de ter feito, de ter acabado. Mas era preciso seguir. Era preciso ir, mesmo que deixando um pedaço de si para trás. Após a última olhadela com o canto mais no canto do olho esquerdo, ele não pôde deixar de balbuciar no canto mais no canto dos lábios:

"And I think to myself, what a wonderful world"

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E se foi.

sábado, 4 de dezembro de 2010

[FILÉ COM FRITAS] Anedota da vida real

[FRITAS]

Beleza é algo relativo, né? Cada um tem o seu próprio padrão. Entretanto, é inegável que há um "padrão médio" criado socialmente por cada cultura. Logo, cada um tem o seu próprio padrão e, na maioria das vezes, ele é muito próximo daquele padrão criado pela coletividade a qual pertencemos. Passado essa reflexão, sigo com a minha anedota da vida real.

Foi há uns 2 meses atrás (eu sei que esse "atrás" é redundante em relação ao "há", mas assim fica mais legal). Era mais um "dia de Tailândia" em plena Primavera. O ar era abafado. E eu, pra variar, tinha que sair da Universidade e me dirigir ao estágio no Centro de Vitória by bus. Peguei um 506. Eu carregava na mochila meu Vade Mecum, meu caderno e algumas utilidades volumosas, ou seja, eu estava que nem uma tartaruga ninja com aquela mochila pesada nas costas. Não é sempre que as pessoas sentadas e sem volume nas mãos topam segurar algo para você, mas nesse dia eu queria tanto que alguém me ajudasse...

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Sem jogo. Percebi logo que a guria que estava sentada à (essa crase é facultativa, né?) minha frente e sem qualquer volume nas mãos não tinha um bom coração e não iria me ajudar com a mochila. Até aí tudo OK, afinal, como eu disse antes, isso não é incomum. Então eis que uns 10 minutos após minha entrada no ônibus entra um cara.

Como eu disse no início, beleza é algo relativo, mas um cara sabe em seu íntimo quando ele não é muito bonito socialmente. Ele sabe que os olhares não retornam quando ele olha. Ele sabe que a entrada dele em um local repleto de pessoas do sexo oposto não causa qualquer furor. Ele sabe que algumas garotas não são para o bico dele, salvo se ele usar de outros artifícios, que não a beleza, para tentar conquistá-las. Enfim, ele sabe disso tudo. Eu pertenço ao time desses caras, apesar de alguns esparsos elogios que recebo, de vez em quando, quanto à minha controvertida beleza (geralmente esses elogios são feitos por mulheres mais velhas).

Eu já percebi que estou no time dos poucos dotados de beleza há muito tempo. Isso não altera o meu dia-a-dia, não causa tristeza ou sei lá o quê. Isso geralmente não cria problemas. É apenas um fato. Estou fora do modelo socialmente construído de beleza em nossa cultura, tal como muitos e muitas por aí. Acontece, tem que ter paciência. A consolação é saber que se eu estivesse na Suécia eu estaria "pegando geral", afinal, dizem que as nórdicas são tão atraídas pelos morenos quanto nós, brasileiros, somos pelas loiras de olhos azuis.

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Pois então. Voltando. Entrou o camarada no meu (que não é meu) ônibus. Ele era de estatura um pouco maior que a minha, mais forte e carregava uma mochila nos ombros. Não sei se pesava, mas ele carregava. Parou em pé ao meu lado. Não em frente à guria sem coração, afinal, eu é quem estava de frente pra ela. Então eis que vejo uma mão se dirigir ao cara e uma voz dizendo:

- Quer que eu segure pra você?

Parei. Olhei de lado e não acreditei. Me deu vontade de fazer que nem o Seu Madruga fazia quando tirava o chapéu e raivosamente pisava em cima dele. Aquela mesma guria que fez pouco caso da minha mochila pesada pediu a mochila do cara (que entrou 10 minutos depois de mim) na maior boa vontade. É impublicável o que eu pensei de imediato. Me limito a dizer que do alto da minha educação, pensei polidamente: "Puta que pariu!" Aí comecei a rir timidamente. Um sorriso amarelo, é verdade, mas não pude conter.

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O rapaz entregou a mochila e eu continuei, em pé, de mochila, em frente à guria, que nem uma tartaruga ninja. Ela só faltou me pedir para sair da frente dela para que ela pudesse pegar a mochila do cara. Retomada a sobriedade, comecei a refletir: "Qual o critério que ela utilizou? Não é possível que tenha sido a beleza! Que merda, hein..." Ou, como diz minha vó de consideração: "É mole ou quer mais?"- hehe - "Puxa, guria. Nóis é feio, mas não precisava esculachar". Outra parte de mim dizia: "Isso é injusto. Se o cara ainda fosse menor e mais fraco do que eu, ainda dava pra dar um desconto. Mas pô! O cara é mais alto e mais forte, ou seja, não precisa de caridade para carregar a mochila! Isso não vai ficar assim não, eu vou atrás dos meus direitos de homem mais fraco!" "Já sei, vou pedir pra ele pegar a minha mochila e carregar nas costas dele, afinal, ele é mais forte. Quem sabe a guria não pede a ele pra poder carregar a minha mochila também?" hehe

Nesse dia me senti o cara mais feio do mundo. Zuera. Na verdade, eu achei a situação muito engraçada, é tanto que eu ri na hora e estou aqui dividindo com vocês.

Desde esse dia, toda vez que entro em um ônibus viro um personagem, se não me engano de Nelson Rodrigues, que só gostava de mulher feia. Não ajudo mais as bonitas. Essas já estão acostumadas com um mundo de facilidades só porque são bonitas. Agora só ajudo as feias. Virou uma questão pessoal, uma questão de honra! (é brincadeira, hein!)

Quer saber? Vou-me embora pra Suécia...