sábado, 17 de fevereiro de 2018

Reciprocidade

Há nuvens sobre sua cabeça. Consegue ver? Eu queria usar uma outra palavra ao invés de nuvem, tipo "há uma áurea sobre sua cabeça", mas acho que não é áurea a palavra. Talvez seja uma parecida. Se souber qual é, me fale. Preciso sabê-la.

Há quanto tempo que não olha o céu? Elas agrupam-se e desfazem-se. Céu azul e tempestade. Todo o tempo. A vida é feita de sorrisos e lamentos.

É preciso lidar com as decepções. É assim que tem que ser. Saber enxergá-las, lembrá-las, senti-las e deixá-las. Após, o sol brilha. Sempre.

Diga a ela que lhe escreva. Com as palavras, letra e trejeitos dela. Com erros e acertos. Com a cumplicidade que só vocês sabem e que ela finge ignorar. Você parece precisar. Diga a ela. É uma questão de respeito, lealdade e, na pior das hipóteses, um ato de amizade.

Consideração e respeito. Quem ainda o tem? Dá pra acreditar?

Não há momento. Nem bons e nem ruins. Há uma sucessão de acontecimentos. E eles acontecem. Somente acontecem. Tipo merda, sabe? Acontece, às vezes. Mas merdas acontecem.

Há que se respeitar a afinidade. Quando surge naturalmente, deve somente ser seguida e respeitada. Não se pode querer ter controle sobre a afinidade. Não há que se falar em melhor momento ou um mau momento para que ela possa ser mantida.

Diga a ela que fale, que lhe escreva.

Você pode não acreditar, mas estou firme em minhas decepções.

Não há tristeza ou depressão que justifique levar a própria voz da consciência à terapia. Os pensamentos estão em ordem e em paz. Sinto falta. Penso. Mas é contornável.

Você sente o cheiro. Sente que há algo no ar. Mas não há nada, além de nuvens. Céu de brigadeiro. E eu nem gosto tanto de doces. Só de estrelas.

Apenas preciso que me deixem seguir e que parem de me roubar. Não suporto treinar muito para ser roubado.

Acho que preciso somente da humanidade por trás de um bilhete de lealdade e afinidade. Isto me basta.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Corvo

Amo os dias chuvosos.

Nos dias de chuva, os rostos amanhecem cerrados e assim permanecem por quase todo o tempo. Os sorrisos escondem-se.

Não há o alarde dos dias de sol, os risos e gracejos excessivos. Não há espaço para gritarias rua afora. Não há espaço para ilusionismos de verão, praia e sol. Menos mimimi. Menos disposição para causar. Menos larápios dispostos a andar por aí. Mais vida doméstica e convivência familiar. Mais lazer saudável. Mais descanso e horas de sono. Corpos a frio buscando sexo quente debaixo das cobertas.

A preocupação principal de todos parece ser só encontrar logo um teto para proteger-se e não se molhar muito. Nesta hora, na imensidão dos guarda-chuvas e dos calçados respingados de lama, todos os humanos parecem humanos. Todos parecem iguais. Todos parecem estar na mesma merda. Pensando e praguejando no azar que deram ao molharem-se na esquina anterior. Nada parece tão importante como livrar-se da chuva. Todos vivendo a mesma sintonia negra.

Dias escuros como o preto de minhas asas. Todos apresentam o mesmo ar fechado que eu guardo em todos os dias. Mais silêncio. Mais pensamentos. As pessoas tornam-se reflexivas em si mesmas. Visitam seus demônios. Pensam mais em suas vidas. Pensam nas merdas que andam fazendo. Sentem culpa. Não há para onde correr. Perdem a liberdade sob o olhar da chuva e o molhar das lágrimas.

Me sinto feliz por sentir que todos estão mais parecidos comigo. Mais mortos. Uma felicidade cretina, canalha, de corvo. É contraditório, mas é na escravidão dos dias de chuva que os homens parecem livres como eu, um pássaro. Ponho-me a observar.

Todos parecem corvos.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Séptico

Das patologias humanas, me importa un carajo!

Gente estranha. Estranhíssima. Esquisita. Tipo 3F.

Taras, obsessões, compulsividades, desejos doentios. Segredos.

Vez ou outra aparecem cabeças cortadas por aí, órgãos dilacerados e corpos violados. Selvagens. Animais. Humanos.

É na intimidade da nudez que as almas se comunicam. É na intensidade do beijo que o desejo se revela. É na frieza do sentimento que o coração congela, como o vento da madrugada, que sopra o frio da solidão.

Um jogo. Uma caçada. Ludibriamento. Frustração.

É preciso ser safo. Saber compreender. Saber escapar e ter alguma diversão. Caso contrário, não passará de um depósito de merda, que se renova a cada nova decepção. Um saco de bosta.

Olhos de sereia. Hipnóticos. Fundos como um céu estrelado. Um céu dentro de outro céu. Parece um sonho. Como é lindo o brilho dos seus olhos. A cegueira estrelada esconde o beijo sem nada, fazendo-o parecer apaixonado. Não há nada além de corpos suados, cruzando as mãos em latidos de desejo.

Ao passar, não te resta nada. A sirena se vai. Mas os olhos permanecem. Leva consigo a mente aprisionada na profundidade dos olhos e no rosado dos seios. Ladra. Bonitinha, mas ordinária. Não volta mais. Nem ela e nem a paz.

Corpo febril. Noites ardendo, como malária. Delírios.

Das patologias humanas, eu sou mais um.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Transeunte

Os dias passam e, na minha inocência de menino, ainda acho que hoje é terça-feira, em plena quinta-feira.

Não faz diferença se quinta ou terça. O cronograma não se segue e a vida prossegue. 

Ora às 9h-11h15-12h-19h30-1h ou às 7h15-8h-11h15-12h-19h30-2h. É só escolher. Como um vagão do metrô, cruzando sempre os mesmos trilhos com alguma variação de horário.

Uma vida asséptica, anestésica, vegetal. Sem grandes emoções, reações e paixões. A insensibilidade e a frieza são as maiores provas de decisão quando se quer aparentar força. Uma força desumanizadora, afastadora e isoladora. Uma encrenca que remete às polacas meninas da noite do final do século XIX. Encrenca. Galegas. Há uma praga no ilusionismo dos seios rosados.

Livre como um cachorro errante pela madrugada, vagando entre a o barulho da fome e o silêncio das lembranças. 

O coração de uma mulher é um oceano. Um primeiro beijo de novela, roubado sob a benção dos desvalidos, em meio a um beijo de despedida acompanhado de um inocente "vê se não some". Desmanchou-se no ar. Sumiu para nunca mais.

Nem todos os lábios têm fome. Nem todos os dias têm sorte. E a sorte do dia é que não há mais encanto no Facebook. Uma fuga para não mais ver. Até o mendigo do thirteen sabe em sua loucura que o que os olhos não veem o coração não sente.

Se o bicho pega, o pau canta na rua. Se o ócio traz lembranças, é preciso rasgar-se, morrer de trabalhar. Colocar sem tirar. Um harakiri de exaustão para que o corpo possa engolir a mente e os músculos possam ser mais importantes do que a inteligência.

Soldado sem emoção vai à guerra sem ambição. Luta por obrigação. Mata sem contestação. Morre sem preocupação. Piloto automático.

Passada a frustração, resta a resignação e a vegetação.

Sabe-se lá, oh Deus, o que disso sairá. Talvez a concretização de objetivos sem sentido e a entrega de resultados relevantes. É fácil dar frutos aos outros. Frutos muito bons, inclusive. 

Difícil mesmo é matar a verdadeira fome que habita em nós mesmos. Aquela invisível aos votos de  feliz ano novo.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Vida ou morte!

Os mistérios da morte me fascinam. Talvez ela ainda seja uma das poucas coisas sem respostas concretas neste nosso mundo cada vez mais científico. Ou melhor, o que se sucede após a morte. Ninguém sabe ao certo, com certeza, o que se passa, afinal, ninguém jamais conseguiu submeter à prova empírica a morte e voltar para contar o que descobriu.

Mais uma postagem reflexiva sobre a morte, como tantas que já fiz. O que me traz à morte novamente é um acontecimento ruim, como nas homenagens a Dan Wheldon, Marco Simoncelli e Jules Bianchi; é mais um falecimento surpreendente.

Ontem, primeiro dia do ano, faleceu de infarto um jovem de 28 anos. Um jovem muito alegre, engraçado e de boa conversa. Fomos contemporâneos do curso de Direito na mesma universidade no final de meu curso e tivemos poucos contatos, a maioria deles em jogos de futsal entre o time do qual eu era goleiro e o "xadrez do mal" dos Canalhas (nome do time dele): o suficiente para viramos amigos de Facebook. Por certo que ele, em sua expansividade, foi quem me adicionou, apesar das poucas palavras trocadas entre a gente nas quadras e nos corredores da Universidade. Apesar da pouca vivência, a certeza de que era um cara gente boa demais e meio bon vivant. Torcedor do mesmo time que eu e morador de uma "quebrada" de Cariacica (certeza de boa amizade, nunca me decepcionam).

Então eis que, na tarde de ontem, vejo que o mais querido dos Canalhas faleceu, na plenitude de seus 28 anos. Muitas mensagens perplexas de amigos próximos a ele. Um infarto aos 28 anos. Uma morte muito precoce, mas tenho certeza de que este canalha aproveitou tudo que a vida lhe ofereceu de diversão em seus poucos anos de vida. Foi feliz e deve ter morrido em paz. Esta fatalidade me lembrou outro colega de universidade, que foi assassinado aos 25 anos de idade por um maluco, enquanto, no desempenho de seu trabalho, tentava entregar uma intimação judicial trabalhista. Outro jovem; um brilhante jovem, aliás. Igualmente muito gente boa. Um menino bom.

Os jovens e os seus sonhos também morrem, quando menos esperamos. A morte é assim, democrática, sendo que viver muito é mera pretensão e presunção à qual nos abraçamos para não fazermos a todo custo tudo o que queremos fazer, à qual nos agarramos para não aproveitarmos a vida como se não houvesse amanhã. Acreditar que temos muito tempo é mera expectativa, mera presunção, na qual acreditamos de modo, até certo ponto, arrogante, diante da imprevisibilidade da morte.

Dois jovens mortos precocemente e me pus a pensar. Se não eles, o morto fosse eu?

Me pus a pensar  em quem largaria os afazeres da corrida vida cotidiana para ir se despedir de mim. Acho que sou muito querido. Se eu falecesse hoje, jovem como sou, talvez muita gente comparecesse para se despedir de mim ou desejaria fazê-lo. E a depender da causa da morte, talvez mais gente ainda comparecesse. 

E será que teria algum sentimento afetivo que iria para o túmulo comigo sem jamais ter sido dito? Será que alguém teria sentimentos afetivos a me dizer e se arrependeria por nunca ter me dito em vida?

Vamos à primeira parte. Algo iria para o túmulo comigo? Depois de muito pensar, concluí que não. Todos os que amo (no sentido mais amplo possível de "amar") sabem disso; seja por meus atos, minhas palavras e, recentemente, pelos meus bilhetes escritos a mão e por meus abraços. Em 2017, enfim, aprendi a abraçar as pessoas com sentimento de verdade, a valorizar os abraços. Poucas coisas podem ser tão gostosas e verdadeiras como um abraço sincero. E os bilhetinhos escritos a mão? Vieram em 2017 para transmitir ainda mais verdade ao que sinto pelas pessoas que considero especiais, para elas sentirem na simplicidade e delicadeza de uma mensagem escrita a mão o quanto os verdadeiros sentimentos são coisas únicas, não substituíveis por mensagens padrões reproduzidas em letras mecanizadas.

E agora a segunda parte. Ah a segunda parte... Não tenho como responder, afinal, se eu morreria sem saber, por certo que eu, hoje, vivo, ainda não sei o que as pessoas escondem sem me dizer. Talvez muita coisa teria deixado de me ser dita em vida porque somos bobos e arrogantes em acreditar que temos tempo nesta vida... Tudo que importa deve ser dito, o quanto antes. Aprendi isto um pouco tarde, mas talvez, ainda cedo, nesta vida. Por anos guardei sentimentos. Perdi tempo. Hoje, tão logo que o posso, tomo coragem e falo. Ando meio cansado de fazer cena, esconder. Se é preciso sofrer, melhor que se sofra logo, enquanto o outro é vivo. Porque depois que ele se for, de nada adiantará os sentimentos guardados e o sofrimento será muito pior, pois será por algo que não se fez e pela incerteza de algo que jamais poderá ser vivido diante da morte do outro.

Precisamos falar, confessar e expressar. Enquanto há vida. Enquanto podemos receber o abraço e a resposta dos sentimentos do outro, ainda que seja um sofrido, ainda que libertador, desprezo. Pode ser frustrante na hora, pode ser triste, mas quando fazemos nossa parte, estamos livres com nós mesmos e com o outro, de modo que, eventual arrependimento post mortem não nos perturbará, pois temos a certeza que falamos, expressamos o que sentimos.

Também me pus a pensar sobre o amor de casal. Em parte ainda sob efeito do filme Amantes (Two Lovers). Sabe? Às vezes me pergunto se em algum momento realmente encontramos um amor arrebatador, que nos complete em cada detalhe. Às vezes tenho a sensação de que a maioria de nós acredita que vá aparecer um par ideal em algum momento e, movidos por essa crença, bem como pelo sentimento não "perder tempo" com as "pessoas erradas", vamos descartando ao longo do tempo as oportunidades de viver com outras pessoas aquilo que acreditamos que ainda não seja o verdadeiro amor. E o tempo vai passando... Passando... E somente depois de algum tempo (quando a vida nos permite chegar até lá), meio cansados e desacreditados, nos dispomos a viver um amor que talvez não seja aquele amor arrebatador, com contornos de ideal, que esperávamos. E, só aí, descobrimos que este amor pode ser o verdadeiro amor e que podemos ser muito felizes com quem não acreditávamos ser o par ideal.

Sabe? Às vezes acho que está tudo errado no nosso ideário. Talvez, não se encontre o verdadeiro amor em uma pessoa específica, como algo fulminante, arrebatador. Acredito que o amor verdadeiro pode ser construído ao lado de uma pessoa que não seja a tal pessoa "encantada", mas que esteja disponível em nossa vida e verdadeiramente disposta a construir algo especial ao nosso lado. Amor é sentimento e sentimento se constrói, dia após dia, não surge pronto. Não estou a defender as uniões arranjadas, forçadas ou negociadas, mas a defender que devemos acreditar mais na força dos sentimentos que podem ser construídos ao lado de quem sentimos algum nível de afeto (ainda que não seja um afeto arrebatador) e se dispõe a nos amar da melhor maneira possível.

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O filme Amantes (Two Lovers) deixa um pouco essa sensação. Ao fim da obra, nosso ideário tradicional, nos conduz a pensar que o personagem principal escolheu casar-se com a mulher que não ama intensamente, mas que o ama verdadeiramente, somente para esquecer a tristeza causada pelo "não" daquela que parecia ser o esperado "amor da sua vida". No faz prever que seu futuro casamento será fadado ao fracasso. Mas despindo-se um pouco desta ideia corrente, é possível pensar que, no fim, o personagem principal, ao dizer "sim" a quem talvez não fosse o esperado "amor de sua vida", talvez tenha feito a escolha de quem acredita que amor se constrói e de que a vida pode ser curta demais para ficar-se à espera de uma suposta pessoa ideal. Ele escolheu viver, se dispôs a construir o sentimento de amor ao lado de uma pessoa que o ama verdadeiramente, mesmo após ter sido abandonado pela mulher que acreditou ser o "amor da sua vida".

Esta é a minha interpretação. O filme não mostra o resultado desta escolha, dando margens para múltiplas interpretações sobre o que ela pode ter resultado no futuro. Mas se pensarmos bem, o filme também não mostra quanto tempo o personagem viveu após esta escolha. Percebe? Às vezes pensamos demais só nas escolhas e nos esquecemos do precário tempo que nos resta de vida. Sobre ele nada sabemos.

Talvez, a vida seja isto, nos darmos conta de que, no fim das contas, não somos eternos, podemos morrer na precocidade dos 25 ou 28 anos, sem termos nos dado oportunidades de viver muitas coisas e de construir muitos sentimentos, inclusive o amor. Não há tempo a perder. Nós e as pessoas que nos cercam podem partir sem que nos demos conta, enquanto ainda esperamos por coisas que venham a acontecer em nossas vidas e nas delas, acreditando, por mera presunção, que nós e elas viveremos por muito tempo. Que sejamos capazes de nos dispor e de entender que a vida, no fim das contas, é o ar soprado em nossas narinas por Deus e pode ser breve como uma respirada. Tudo que é vivo morre, às vezes muito cedo.

Vá em paz, canalha! Que sua vida tenha sido plena, enquanto durou.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Justo

Hoje, em meio a um momento de melancolia, me peguei pensando sobre o sentido do que seria justo.

Dizia um professor meu, daqueles arrogantes de bochechas rosadas, que justo são os sutiãs, pois oprimem os grandes e levantam os caídos... Coisa tosca. Até isto a gente tem que ouvir em uma universidade pública... Mas enfim, não é dessa gente que venho lhes dizer.

O que é justo, meu Deus? Assistindo ao noticiário, estava vendo o semi-desfecho da história de um cara de classe média alta que num surto, sob efeito de drogas, agrediu violentamente a faxineira de seu prédio, deixando-a com várias sequelas físicas e psicológicas após mais de 1 ano do fato.

Não pude deixar de pensar no quanto eu sou um cretino quando digo que estou sempre nos lugares certos, mas nas horas erradas. Cara, esta mulher deu um azar do caralho. Sabe?! Encontrou um louco em um momento de loucura e ele praticamente acabou com a vida dela. E a Justiça dos homens, o que disse? Disse que ele continua preso e será levado a Júri Popular. E o que vai acontecer? Ele vai ser punido, penso eu, de modo exemplar com uns bons anos de prisão. Mas e a faxineira espancada até quase a morte? Fazem 2 meses que ela começou a receber um auxílio-doença do INSS, após uns 10 meses tendo que depender de uma filha para sobreviver. Ah, mas ela vai ganhar, após uns bons anos de espera, uma indenização gorda no processo que deu entrada na Justiça Cível. Então está "tudo certo"; cada um terá o que lhe cabe por Justiça...

O que é justo, meu Deus? Por um momento, pensei no que passa na cabeça desta faxineira. Será que foi capaz de perdoá-lo de verdade e só quer mesmo que ele fique preso e lhe indenize? Ou será que ela só teria paz e sentimento de Justiça caso soubesse que ele foi morto?

Veja. A medida do que é justo é muito subjetiva. A Justiça dos homens aplica trocentas leis para tentar reger o mundo de forma que ele aparente ser justo e que as pessoas possam ter paz. Mas, por diversos fatores, é só uma falsa sensação de paz.

Em uma sociedade cada vez mais individualista, justo é o que eu acho ser justo. Cada um quer medir as coisas com sua própria régua de Justiça: "Eu matei porque ele mereceu morrer"; "Eu não vou pagar NADA porque o serviço não está do jeito que eu quero"; "Eu quero terminar com você porque você não é como eu queria que fosse."...

Somos injustos quando queremos fazer a nossa Justiça. 

Às vezes, somos injustos com nós mesmos. Não nos achamos dignos de vivenciar algo, de receber algum reconhecimento/elogio, de amar ou de ser amado por alguém e por aí vai. E esta, talvez, seja uma das maiores injustiças. Porque quando assim agimos, boicotamos a nós mesmos e, algumas vezes, também as pessoas que estão ao nosso redor. Boicotamos as oportunidades que a vida, gratuitamente, nos oferece. E quando dizemos "não" a uma oportunidade, às vezes impedimos que pessoas também possam usufruir desta oportunidade ou dos reflexos dela junto conosco. Quando somos injustos com nós mesmos pensando que estamos sendo justos e exercitando nossa maturidade e senso crítico, às vezes também somos injustos com os outros. 

Me refiro a muitas coisas. Por exemplo: quem nega uma boa proposta de emprego por insegurança, medo de não ser capaz, às vezes nega a si e a sua família uma oportunidade de uma vida melhor; quem nega a oportunidade de viajar com os amigos porque acha que não consegue dar conta de tudo o que tem que fazer até a viagem, nega a si e a eles momentos inesquecíveis juntos; quem nega o amor de uma pessoa por não saber se é capaz de corresponder a tamanho afeto, às vezes nega a si e ao outro a oportunidade de viver um amor que pode ser o "amor de toda a vida"; quem nega a um estranho um pedido de ajuda por medo de ser roubado, às vezes nega ao outro um auxílio no momento mais crítico da vida.

Veja. Todas essas negativas são escolhas que fazemos com a sensação de que são justas, afinal, sentir-se inseguro aparenta quase sempre ser um motivo justo para não fazer algo. Mas esta escolha justa, no entanto, acaba, muitas vezes, sendo injusta com nós mesmos e com os outros. Óbvio que existem medos justificáveis e que se confirmam, mas quando damos somente voz aos nossos medos, eles sempre aparentam conduzir à decisão justa, mesmo àquelas que não são.

No fim, a vida é um constante andar dentro de um túnel escuro no qual a única certeza é que há uma luz em seu final. Caminhamos todos, inseguros, em direção a essa luz. No caminho, para ganhar coragem de seguir, nos apegamos a coisas que achamos que trazem segurança para seguir (família,  dinheiro, religião, afeto...). Algumas vezes, enquanto caminhamos, percebemos que algumas dessas coisas não trazem a segurança que esperamos delas e ficamos inseguros em meio às incertezas deste grande túnel escuro. Sentimos medo. Ouvimos outras pessoas gritando de medo e outras dizendo que não adianta seguirmos porque o túnel escuro não tem fim. Desanimamos. Desacreditamos. Sucumbimos às decisões medrosas que parecem ser as mais seguras e justas. Nos isolamos por medo de não saber se estamos pegando na mão de pessoas confiáveis em meio à escuridão. E este isolamento, muitas vezes, nos faz bater cabeça por longo tempo perdidos dentro do túnel. Somos injustos com nós mesmos por não confiarmos nas pessoas e, ao negarmos nossas mãos, muitas vezes deixamos que os outros também fiquem perdidos sozinhos, como nós, tentando chegar ao fim do túnel. E assim, alguns, após longo isolamento, viram bicho, perdem a humanidade, tornam-se frios e insensíveis, perdendo até mesmo a capacidade de ver a luz.

No fim, para quem acredita, só Deus sabe onde está a justiça de nossas decisões. Só Ele sabe o que o grande túnel escuro ainda nos reserva pela frente. Mas somos dotados da capacidade de vencer, de superar cada pequena batalha diária (aquelas que só nós vemos e sabemos quais são). Fomos feitos à imagem e semelhança do Criador, logo, temos força transformadora, somos capazes de transformar e vencer o que nos cerca. Deus, como ser onisciente, sabe que não somos justos como Ele em nossas decisões, pois somos seres falhos. Então, talvez por isso, o que ele realmente espera de nós é que não decidamos guiados pela segurança dos nossos medos, mas que tenhamos coragem: coragem de seguir em meio às incertezas do túnel; coragem de arriscar diante das oportunidades; coragem de ajudar, se propor, viver e amar. Porque quando agimos com coragem, buscamos força, e quando buscamos força, buscamos a Deus e, assim, somos capazes de ser instrumentos de sua Justiça e de sua vontade em nossas vidas e nas das outras pessoas.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Do Lavoro

Nas últimas semanas me peguei pensando sobre o sentido do trabalho; lembrando da entrevista do jogador de futebol camaronês que chocou o mundo do futebol ao dizer que não gosta de futebol e que ele é somente a sua profissão, o que ele faz para sobreviver. O mundo gritou incrédulo. "Ora pois! Todo menino sempre sonhou em ser jogador de futebol, em viver de sua diversão, e este sujeito vem e aparece dizendo que não gosta de jogar bola, apesar de ser jogador de Copa do Mundo... Como pode?" Quer saber? Certo estava ele.

Sabe, damos um valor demasiado ao trabalho, a ponto de, ao conhecermos alguém, não demorar nem 5 perguntas até soltar o famoso "e você faz o quê? Trabalha em qual área?" - como se o trabalho fosse algo intrínseco ao ser, como se não existisse o "ser" sem o "fazer".

Andei pensando que, no fim das contas, os socialistas estavam certos ao analisarem a história da sociedade sob o viés do trabalho. Tudo é trabalho. Como se sem trabalho você tivesse todas as suas possibilidades como ser humano limitadas ou impossibilitadas.

Mas o que é o trabalho, afinal? Para mim, nada mais do que algo que nos atribui uma função social. Trabalho é produção. Se você não trabalha, você não produz e se você não produz, lhe falta uma função na sociedade e você se torna um ser descartável e sem valor socialmente.

Esta minha visão não muito romântica sobre o que seria o trabalho me fez, nos últimos tempos, ver de um modo muito especial, o que é o meu trabalho. Eu não amo e não sinto tesão pelo Direito. E isto é errado? Geralmente causo espanto aos desavisados quando exponho minha total falta de romantismo pela minha função social produtiva.

E me faz muito bem não sentir tesão pelo meu trabalho. Eu acho, pelo menos. Para mim, como eu disse, trabalho é só uma questão de produção. Minha profissão reflete algo que sou capaz de produzir, com algum nível de qualidade. Para ser bom em algo não é preciso necessariamente amor, mas é preciso sempre algum nível qualificação. Eu me considero bom e dedicado no que faço. Quiçá faça meu trabalho melhor do que muitos apaixonados pelo Direito fariam. 

Sinto que esta minha "frieza" profissional me ajuda a ver o que faço de um modo mais objetivo, como quem limpa um peixe: mete a faca, tira as tripas e guarda o corpo.Chego lá, faço o que preciso fazer e volto embora para casa. Simples assim. O nosso trabalho é o que sabemos produzir e o que assegura nossa subsistência, nada mais do que isso.

Sabe aquele papo de se fazer o que gosta? Deve ser legal também, mas com o tempo deve enjoar, o amor deve ser vulgarizado, virar algo sem glamour como mijar de portas aberta na frente do "amor da sua vida". Imagine amar fotografar. Imaginou? Imagine ter que fotografar gente chata, enjoada, lugares sem graça, festas burocráticas para sobreviver... O tesão resiste? É natural que se vá perdendo o encanto, como para quase tudo na vida.

Não gostar do que se faz torna o trabalho o que ele é: algo que não se confunde com o seu ser. Você não é o que você produz remuneradamente. Não gostar da minha área de formação me tornou mais compreensivo com a chatice do que é o Direito. Me fez parar de buscar paixão onde não é preciso ter paixão. Me fez aceitar que o Direto é chato e parar de ficar me torturando sofrendo por fazer algo que eu queria que fosse legal. Me fez entender que só preciso ser bom no que produzo e meu papel social está feito. O Direito não precisa ser legal, eu só preciso fazer bem feito e voltar para casa, deixando o trabalho lá, no lugar dele. Não preciso andar de mãos dadas com o meu trabalho e apresentá-lo junto com minha apresentação como pessoa. Eu sou eu e ele é ele. Eu aqui e ele lá.

Pensar assim deve parecer bem estranho, mas faz muito bem, ao menos para mim. Chego muito focado no trabalho, compreendendo que o que ele quer de mim é só produção; que eu chegue lá e faça. Então é isto que eu faço. Chego e faço, sem crises existenciais. E depois, volto para casa, sabendo que, fora do trabalho, eu ainda tenho muita vida a viver, tenho toda uma existência, um universo de possibilidades como ser humano; muito além do que produzo socialmente.

Me tornei um profissional muito melhor e mais profissional ao separar o amor da produção. Me trouxe maturidade profissional. Esta separação diminui as chances de frustração com nós mesmos, com as escolhas profissionais que fazemos. Eu sempre quis ser professor, mas fico pensando, quantos anos eu conseguiria dar aula sem broxar com a rotina e o desgaste? Se é para ser rotina, que ao menos seja com algo que eu não aspire grande coisa.

Será possível viver muitos anos com este sentimento de resignação? De descrença com o que se faz? É possível ser motivado e resignado ao mesmo tempo? Sim. Desde que não se espere do trabalho mais do que ele seja, desde que se saiba separá-lo do que nós somos de verdade como ser humano. Trabalhar é uma necessidade porque produzir é necessário para sobreviver. E só. Desde os primórdios. Dedicar horas a algum trabalho é uma necessidade, como dedicar horas ao sono. Produza bem e aumente sua chance de sobrevivência. Talvez gostar do que se faz facilite a conquista da qualificação, mas não é o determinante, penso eu. Sem essa de "faça o que amas e não trabalharás mais nem um dia de sua vida". Vai trabalhar sim, amando ou não e com mais chances de se frustrar se quiser manter o amor em meio ao desgaste da vida produtiva.

Que saibamos viver e entender que nossa dignidade não está no que fazemos socialmente, mas no que somos como ser humano.