quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Você sabe, não me pergunte

Enrolei para tratar do assunto de hoje, mas não o tiro da cabeça há mais de um ano. Prestes a escrever aqui fui chamado por outro tema recorrente em meus pensamentos abstratos, o pseudointelectualismo (é tudo junto mesmo!), mesmo doido para encher os pseudointelectuais, que com certeza devem zanzar pelo meu blog também, eu resisti e mantive-me no tema que eu acordei hoje pensando em tratar aqui.

Diante disso, hoje farei algo novo, avisarei o próximo tema: o pseudointelectualismo, que creio ser uma das patologias do século XXI. Vamos parar de introdução e vamos aos finalmentes, o tema de hoje; confesso que detesto tratar sobre esse tipo de tema, acho sentimentalista demais, muito existencial, até meio afrescalhado, além disso, eu odeio falar sobre meus sentimentos, mas às vezes eu não resisto e cedo ao pensamento abstrato, cedo pensando em você.

PERDÃO, MAS USAREI ABAIXO A PALAVRA "VOCÊ" MUITAS VEZES E DE MODO REPETITIVO, FOI A MANEIRA MAIS CLARA DE PASSAR A MENSAGEM...

Sabe uma pergunta que odeio? Uma bem assim: Quem é você? Não me refiro à pergunta sobre quem é o palhaço que escreve por detrás do pseudônimo "Don Quasímodo", até porque adoro falar disso com quem não sabe quem sou. Me refiro a essa pergunta com o tom existencial. Sim. Sobre quem eu acho que sou como pessoa. Odeio porque não sou eu quem deve responder, mas você.

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Explico: Você se conhece, não digo que se conhece completamente, até porque para isso você levaria 2 vidas ou mais, dada a complexidade humana. Mas garanto que você se conhece melhor do que ninguém, tem ideia do quê e de quem gosta, do quê e de quem não gosta, de seus defeitos, de suas fraquezas, de suas melhores qualidades, de seus sonhos etc. Mesmo não sabendo com certeza absoluta, ninguém sabe mais disso do que você.

Até aí tudo beleza, você tem juízos sobre si próprio (os mínimos, pelo menos). Mas já reparou que na realidade esses juízos têm pouco ou nenhum valor? Sim. Ninguém olha para você e faz juízos a partir do que você pensa sobre si. Cada um que olha para você e desenvolve ideias próprias sobre quem é você. Para exemplificar: EU me considero um cara tímido (principalmente, com as garotas), mas para alguns amigos a minha imagem é a de um cara bem falante e palhaço, já para outras pessoas eu sou um cara que fala pouco por ser muito sério; outro exemplo, EU me considero uma pessoa que não gosta de se gabar em nada, mas para outras pessoas eu sou soberbo. EU não me considero um cara bonito (nem vem com esse papo de " se você não se achar, ninguém vai te achar"), já para algumas pessoas eu sou bonito (sim, hahaha, incrível não?). Para algumas pessoas, eu sou um gênio, mas EU acredito que não passo de um cara que tenta se dedicar nos estudos, sem nenhuma genialidade, longe disso...

Entendeu a lógica? Você pode pensar o que quiser sobre si, mas isso não influirá no julgamento alheio sobre você. Trocando em miúdos, você não é o que você pensa que é, mas o que os outros dizem que é. Você não EXISTE sozinho, você só EXISTE em sociedade. É necessário que alguém diga que você existe, não basta somente você achar. Já pensou se as pessoas olhassem para você e jurassem que é um fantasma (mesmo você não sendo)? Não ia adiantar, você não ia existir, mesmo que você tivesse certeza que você fosse humano. Então, não adianta vir com esse discurso de que eu não ligo para o que acham de mim, pois é exatamente isso que é você, o que os outros dizem que você é. Por exemplo, ninguém te contrata pelo que você diz que é, mas pela imagem que você passa sobre você ao avaliador, é o julgamento dele que vale, não o seu. Por isso você pode ser muitas coisas para diferentes pessoas (aquele papo de vilão para uns e heroi para outros). Não adianta, você precisa convencer as outras pessoas de que você é de fato aquilo que você pensa que é, se não convencê-las no seu agir cotidiano você corre o risco de ser visto de modo totalmente oposto ao que você acha sobre si, e isso é desconfortável, desanimador, permite aos outros nutrir pré-conceitos sobre você. Se preocupe com a imagem que passa de si, odeio dizer isso, mas esse é você para o mundo...

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Radical, não? Repito, você é o que falam de você, não o que você acha que é, o que você acha sobre si só interessa a você e, talvez, aos psicólogos, que adoram perguntar: Quem é você (usando termos mais sutis, obviamente)? Eles devem fazer isso para tentar entender você a partir de você, exatamente o caminho contrário desse texto, que tenta mostrar que na prática o "seu achar" não interessa socialmente, mas somente a você. Não nego a necessidade de você ter ideias sobre si mesmo, isso é fundamental para o seu desenvolvimento PESSOAL, mas isso não vale para fins SOCIAIS. Ah, só para constar, eu não gosto muito da maioria dos psicólogos, evito-os, com todo respeito, mas muitos deles não aplicam o que aprenderam, usam de um senso comum barato e querem nos enganar com ele. Só para deixar claro, NÃO ESTOU GENERALIZANDO, a generalização é a mãe de uma centena de burrices, que eu já protagonizei por sinal.

Uma coisa interessante, hoje, as pessoas não sabem responder quem são (apesar disso não ter valor algum para quem pergunta). As pessoas dizem, por exemplo, assim sobre si: "Eu? Ah, eu sou um estudante de 20 anos." Não entendem que é o que elas são como pessoas, não o que fazem da vida, não captam o sentido profundo da pergunta. Ah, só para constar, eu respondi assim no meu perfil do blog, mas fiz isso porque não interessa a você saber quem eu acho que sou, pois você vai ter sua própria noção, independente da minha...

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Diante disso, odeio responder quem sou, a resposta não diz de fato para o ouvinte quem sou, pois a partir de minha opinião ele vai criar sua própria imagem de mim, independente da minha. Eu posso me dizer "X" e você me achar "Y". Não me pergunte quem sou, você sabe, você tem seus próprios juízos sobre mim, na verdade, eu é que quero saber quem sou para você, pois assim posso saber se passo na vivência social aquilo que eu penso sobre mim mesmo.

PS: Cada vez mais eu acho perfeita a definição dada Jesus, quando diz, após ser perguntado sobre quem ele é (se não me engano, no Evangelho de São João): "Eu sou aquele que sou."

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Papai, mete porrada neles!

Olá, senhor leitor persistente. Obrigado por não ter me largado após o último pensamento abstrato, por isso vou tentar te presentear com algo melhor hoje. O tema de hoje é... Não, eu não vou entregar tão fácil assim, vai ter que ler!

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Sábado passado eu fui daqui de Vila Velha para Viana de ônibus: uma das poucas viagens que faz você achar que pagar R$ 2,15 (se bem que eu como vagabundo para a sociedade, ops, estudante, só pago R$ 1, 075 de passagem) não é um assalto, mas um presente, dada a distância que é chegar lá. Tudo ia na mais pura normalidade, um 526 lotado num sábado à tarde. Mas uma gritaria INFERNAL no fundo, eram jovens vindos das praias de Vila Velha de volta para casa, em Cariacica ou Viana. Eles berravam, falavam obscenidades, trocavam socos de brincadeira, falavam besteiras e palavras que remetiam às drogas, como: "fulana só dá bola pro gerente, não gosta de vapor não" ou "fulana, vou comer na sua casa, a larica tá matando". Com todo respeito a você, mas eu tava cagando e andando para isso. Eles são só jovens (tal como eu, apesar de eu parecer ter 60 anos) voltando depois de um dia de praia; o que fazem de suas vidas não me diz respeito e não me interessa.

Estava bem chata aquela viagem em pé ouvindo gracinhas, mas nada que não desse pra suportar com boa vontade e compreensão. Mas o "caldo começou a engrossar" quando começaram a puxar a linha do "sinal" de brincadeira e o ônibus começou a parar para ninguém descer. O cobrador ficou cobrando explicações da turma do fundão. Como resposta ouvi: "Aí fulano, para de puxar a parada, senão vai tomar um 12, vamo respeitar o trabalho do cara". Até então só ouvi comentários soltos de pessoas insatisfeitas com a algazarra, mas nada dirigido diretamente à turma. Eis então que um valentão sai estrategicamente do fundo do ônibus, fica DO MEU LADO e grita: "Ô motorista, para o ônibus no posto da polícia que tem ali na frente e manda prender a galera do fundo!". Eu pensei: "Bosta, porque o cara vem falar isso do meu lado, daqui a pouco sobra pra mim de graça, logo pra mim, que não tô nem aí." Não, o ônibus não parou, a turma parou de puxar a linha, mas continuou falando besteira; o valentão ficou quieto e não deu em nada.

Que fezes, hein! Eu não falei nada digno até agora, né? Mas espere, vou chegar lá (acredito e espero).

Eu comecei a pensar durante a viagem, que por sinal é bem longa e permite fazer muitas filosofalavagens. Por que alguém clamou pela polícia? Não querendo ser o advogado do diabo, mas o que aqueles jovens fizeram de errado, além de serem mal-educados? O quê? Nem funk ouviam (hehehe). Só falavam besteiras, futilidades. Não ameaçaram ninguém, só falavam alto e coisas que assustam as pessoas comuns. Eles mesmos se policiaram a parar de puxar a cordinha se ameaçando mutuamente de dar 12, e resolveu! Para quê chamar a polícia? Para pegar os jovens pelas orelhas e descer a porrada? Era isso que o povão imaginava e talvez quisesse. Mas te pergunto: o que ia resolver em larga escala? Ah, a viagem ia seguir naquele silêncio habitual dos ônibus e que todos adoram. Mas o que ia mudar para a sociedade? N-A-D-A. Aqueles jovens não seriam educados com uma sessão de porrada da polícia. A polícia seria chamada para conter a falta de educação deles, para manter a ordem, talvez até os enquadrasse em algum artigo por pertubação da ordem pública (não sei se existe um artigo próprio disso, afinal, ainda estou aprendendo direito penal...).

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O que concluí, conforme eu já disse no texto " 'Livre,' mas sem luz para guiar-se", é que aqueles jovens não foram educados para viver em sociedade, respeitar o direito das outras 50 pessoas que pagaram pela passagem e que querem viajar em silêncio. Isso é culpa deles? Só deles não, provável que não tenham sido educados em casa, nem na igreja e muito menos na escola. Onde foram educados para respeitar o próximo? Onde? Aprenderam na lei das ruas, lá não há espaço para aprender essa boiolagem de respeito ao próximo, lá não se pensa, se age. Pra quê pensar em respeito? O negócio é viver, é agir, fazer e acontecer. Correr atrás de dinheiro, de poder, de mulher, de tênis da NIKE... Não há tempo pra pensar em moral. Repito, quem os educou? E quem quer perder tempo os educando? A moral das ruas é viver para você mesmo, dane-se a ignorância da juventude; você reparou que eu me lixei para zorra deles também, certo? Eu também me lixei para a educação deles, mas pelo menos eu não acreditei que a polícia ia educá-los.

Onde quero chegar? A culpa não é só deles, é minha, é sua, é de cada um. Nós não queremos educar ninguém para viver respeitando o próximo. Volta e meia nos deparamos com os ignorantes que nossa sociedade livre está produzindo, que nós estamos deixando ser produzidos, os ignorantes do século XXI, aqueles que não sabem como viver em um grupo que não seja o seu. Incomoda cruzar com eles, né? Sabe o que a gente faz? Vamos chamar o papai Estado e mandar ele sumir com esses mal-educados daqui, mandar ele descer a porrada, matar, esconder, enterrar, exilar, segregar na favela, sumir com eles daqui, não quero sentir que a culpa é minha, não quero assumir que o problema começa dentro da minha casa. Melhor fingir que isso não é problema meu, deixa o Estado educar na porrada! A porrada nos mal-educados tranquiliza a sociedade, dá a falsa sensação que vai educar e corrigir, fazer um papel que não soubemos fazer. Se porrada educasse alguém para a vida em sociedade... Ai ai...

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Só para esclarecer, chamar a polícia talvez fosse cabível no caso, mas seria uma solução provisória e limitada ao universo daquelas pessoas do ônibus, não traria pessoas educadas ao convívio social, apenas amenizaria a algazarra do ônibus, apenas ia ser útil a 50 pessoas, mas à nossa sociedade não. Eu posso ter viajado muito nesse texto, mas ainda acho que só precisamos educar melhor nossas crianças, para depois não ter que "apanhar" delas e querer chamar o papai Estado para descer o porrete nelas, enquanto, na verdade, tivemos um momento para educá-las, tivemos a nossa hora e deixamos escapar, por quê? Porque não queríamos educá-las...