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sábado, 11 de abril de 2020

Prazer, este sou eu.

Dormir para quê?! Se não há com que acordar?! Nunca soube ao certo se primeiro vem a interrogação ou a exclamação.

Tenho tentado manter a promessa de não falar de política e não falar dele. A gente adoece, sabe?! Agora eu entendo como que eles ficaram durante 14 anos. Muito ódio acumulado.

Os dias parecem absurdos de tão bizarros. Eu sei quem me denunciaria à GESTAPO e quem me denunciaria aos militares. Quanta gente histérica e precisando desesperadamente de um líder supremo capaz de conduzi-las. Desejei a morte dele. Isto é feio e viola meus valores cristãos. É estranho imaginar que eles dizem ter os mesmos valores que eu. Talvez eles sejam como eu e eu seja como eles.

Eu tenho medo de dormir e acordar numa pior ainda. Acordar com má notícia é péssimo. É como dormir de sapatos; pronto para o pior.

Eu estava tão perto mais uma vez e... Dissipou-se no ar. É algo meio enigmático, como meus textos. Não sei como manter a atenção por mais do que 2 meses. É o prazo de validade do meu efeito sobre as pessoas. Não consigo durar mais do que isto. Lamentável, mas é a verdade.

Talvez o encanto esteja nos balões. Em amarrar-se a eles e atrair olhos de sorrisos e lamentos. É muito esforço para nada. Uma pesca cuja rede volta com pouco além do que sapatos e restos de tampa de privada jogada ao mar.

Dormir pra quê? Amanhã será tão bizarro quanto hoje e posso ter o azar de ter um sonho ainda mais bizarro, como se a realidade já não fosse o suficiente. Talvez, eu ainda trabalhe dormindo, o que é pior ainda, pois se acorda ainda mais cansado do que quando se deitou ou se deixou (obrigado, corretor).

É difícil lidar com o imediatismo, com a falta de planejamento, com o arianismo e com a falta de noções básicas de formação. Para se fazer entender é preciso lançar mão das mesmas armas - muitas vezes, de uma arma mesmo. Se rebaixar, jogar esse jogo insano e imbecil. "(foram) Babacas que pintaram", disse o sérvio no início dos anos 2000. Ele sabia o que dizia. Eu gosto de ouvir aqueles que sabem o que dizem, exceto quando não dizem porque sabem, mas porque querem ser ouvidos.

Neste momento eu quero ser ouvido e não sei o que digo. Faz algum sentido para você? Me tocaste como um cachorro. No sentido de tocar, botar pra fora mesmo. Algum arrependimento? Eu gostaria que houvesse, porque eu realmente não fiz nada para ser tocado assim. Não sou santo, mas também não sou pior do que eles e do que elas.

Sigo errante, me espreguiçando de porta em porta, trocando gracejos por algum afeto e sendo tocado a cada 2 meses. Ao menos restam 5 minutos. Acho que 5 minutos para 5 semanas. Ainda resta algum tempo. Talvez morram pessoas até lá, mas quem se importa, se o comércio puder abrir?

Nada mais a falar. 4 minutos e ainda tenho que escolher o título. Saudades do "qualquernegocioserve@hotmail.com". Sim, já foi o e-mail de um amigo. 3 minutos agora. Perdi 1 contando história. E perdi uns 25 falando nada. Ao menos aqui não dá pra ter expectativas e esperanças frustradas. 2 minutos. É isto. O fim. Um título pra já. Se achar que vale a pena...

O tempo

domingo, 3 de março de 2019

Desonra

Com um longo delay, enfim assisti o filme "O último samurai", o qual inspirou o assunto desta postagem.

Em tempos de relativização, a própria ideia de honra tornou-se fluída. Em alguns momentos parece até que as pessoas não se preocupam em ser honradas.

Como o filme demonstra, a ideia de honra e de vergonha andam diretamente atreladas, surgindo assim a ideia de que nos desonra aquilo que nos envergonha profundamente. O problema é que se sentir profundamente envergonhado é algo muito subjetivo, sendo que nem sempre aquilo que considero uma grande vergonha é também para outra pessoa.

Isto me faz pensar que, no fim das contas, só sabemos o que nos desonra quando paramos para pensarmos com nós mesmos quais são os nossos valores e limites. Ocorre, entretanto, que nos tempos atuais não temos tanto tempo para visitarmos nossa própria consciência, de modo que não raro as pessoas não se sentem desonradas até que venham a vivenciar uma experiência realmente digna de todo o pudor.

Tento fugir dessa ideia, mas é recorrente em meus pensamentos o sentimento de que as pessoas levam vidas completamente afastadas de qualquer honra, dispostas a tudo e muito pouco sujeitas a constrangimento. Isto muda quando falamos dos tribunais, onde muitos se "sentem" extremamente sensíveis e portadores de grande honra quando o assunto é uma potencial indenização por danos morais.

Hoje, as pessoas não parecem ter a necessidade de manter a palavra por honra ou tampouco de assumirem publicamente seus erros.

Enquanto em "O último samurai" um guerreiro é capaz de tirar a própria vida diante de uma profunda desonra, hoje somos capazes de tirar da própria vida qualquer ideia de honra, de modo a facilitar a tomada de decisões.

Penso que ser honrado é saber o limite da sua vergonha, envolve autoconhecimento, autocrítica e paz interior. Saber o que me desonra é libertador e pacificador.

Costumo dizer à minha mãe que se um dia eu cometer um crime, ela não terá a desonra de me ver mentir, pois irei assumir o que eu tiver feito. Minha honra envolve não negar meus erros e assumi-los, envolve não mentir e ter a paz de que não há nada mais a esconder. Esta seria a maneira de eu recuperar minha própria dignidade diante de um mal feito.

Mas esta é a minha medida da honra.

Não é possível impor nossos padrões honrosos a terceiros, esperar que os outros ajam com um padrão ético pessoal similar ao nosso.

Falar de honra às vezes parece papo de gente hipócrita, que não reconhece suas falhas morais e que busca apontar desvios nos outros. Não cabe aos outros medir nossa honra e nem nos atribuir desonra.

O que eu realmente aspiro é que as pessoas de fato tenham alguma honra, algum limite moral e senso crítico sobre si mesmas, de modo que consigam evoluir como pessoas.

No fim das contas, saber o que nos desonra é necessário para guiar algumas de nossas escolhas na vida.

Eu sei o que me desonra e é no sentido contrário disto que eu devo guiar minha vida, para que eu possa viver com mais paz e sem fantasmas.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Sara

Malandro não para, só dá um tempo...

O mundo anda muito chato ultimamente. Aliás, as pessoas andam muito chatas. Histéricas demais, mais precisamente. Um absoluto descontrole. Gritos, rosnados, mordidas, tiros e tudo mais que seja ariano e impulsivo. Um saco.

As pessoas andam muito extremas, armadas com pistolas ou balanças de julgamento nas cinturas. Primeiro atiram e depois julgam.

Perdi um pouco do encanto de escrever, de debater, de ensinar e (porque não) de aprender. Tudo anda muito à flor da pele. 

Voltamos aos tempos em que as pessoas acreditam em ameaça socialista, em necessidade de combater a expansão dos costumes e ideologias que ameaçam a família. Eu realmente ando sem paciência para conversar com essa gente sobre sociedade/política. Não consigo. Simplesmente não consigo.

Comprei uma piscina de plástico e coloquei na varanda do meu apartamento. Não quero saber de mais nada. Só me interessa assistir mesas redondas de futebol e conversar sobre amenidades.

Por menos praia e mais educação. Menos sol e mais inverno. Os tempos de frio ensinam e os dias de calor desatinam. Talvez seja isto: o aquecimento global queimou nossos miolos e elegemos um cara teimoso e retrógrado. Odeio gente teimosa. Na teimosia falta humildade, sobra orgulho e extremismo e escolhas impulsivas. Mas o que é a vida senão uma sucessão de escolhas burras? O problema é quando nós é que precisamos suportar as consequências das escolhas burras do outros e, pior, ter que corrigi-las.

Um freak show.

Estou me tornando, além de velho, um cara chato e azedo. Mas um cara azedo doce, tipo agridoce (aliás, odeio molho agridoce), para o qual as pessoas ainda olham com olhos de carinho e ternura. Esta é a minha salvação, saber que as pessoas ainda gostam de mim e, inclusive, me leem. Inclusive, se eu pessoalmente te falei deste blog é porque gosto muito de você e confio meus sentimentos e pensamentos a você. Não que seja uma honra, mas uma mostra de profundo respeito e consideração por sua pessoa, afinal, não me interessam os holofotes, elogios e etc em torno do que escrevo por aqui. Em tempos de extremismo, ter alguém com quem compartilhar nossos pensamentos, sem medo de tomar um tiro ou ter o coração pesado na balança de Anúbis, é uma honra.

Mas escrever tornou-se subversivo, coisa de ideologia marxista. Então tenho dedicado meus dias a trabalhos braçais, mesas redondas de futebol, pornografia e ao estudo adestrado para concursos. Daqui a pouco, vou capinar um quintal, pela honra do meu querido Brasil. Então não me julgue e não me espere para o próximo texto, porque pode demorar.

Brasil!

sábado, 1 de dezembro de 2018

Ana Marcela

É preciso buscar nas pessoas o que elas têm de melhor. Aliás, não é preciso necessariamente buscar, mas conseguir enxergar.

Não há inverno que dure para sempre e nem pessoas sem qualquer qualidade. Assim como as estações se alternam a cada 4 meses, as pessoas mudam, mas em uma frequência maior. Os quereres de agora não são mais os quereres de anos, meses, dias ou até mesmo de horas atrás. Somos "metamorfoses ambulantes". Estamos mudando a todo o tempo, ainda que com diferentes velocidades.

Por mais corrompidas e viciadas que as pessoas possam aparentar ser ao nosso subjetivo julgamento, todas elas trazem em si qualidades. Saber descobrir, conseguir enxergar e bem utilizar estas qualidades é um grande, porém, delicioso desafio.

Alguém já disse, em algum lugar, que um desafio é um problema que escolhemos ter, ao passo que um problema é um desafio que não escolhemos ter. Decifrar as pessoas deve ser visto como um desafio. Um desafio que se renova na metamorfose dos anos, meses, dias e horas.

Dispor-se as explorar as qualidades do outro é, em alguma medida, um exercício de humildade, de reconhecimento das potencialidades que o outro pode ter.

Em um mundo onde tudo é cada vez mais relativo (para o bem e para o mal), às vezes é preciso relativizar aquilo que vemos como defeito para, só assim, conseguir enxergar qualidades no outro. O preconceito cega e impede que consigamos enxergar o que as pessoas podem ter de bom.

Óbvio que todos nós temos nossa própria régua daquilo que julgamos ser um defeito ou uma qualidade e do quanto algumas características alheias podem nos parecer inaceitáveis/insustentáveis. Mas por mais paradoxal que isto possa parecer, é preciso enxergar além do "dark side of the moon" das pessoas. 

Em uma sociedade cada vez mais individualista e vaidosa, tendemos a buscar primeiro os defeitos alheios do que suas qualidades. Talvez inclinados pelo senso contemporâneo de que o inferno são os outros. Em verdade, somos todos céu e inferno, sol e tempestade. Fechamos os olhos ao que as pessoas têm de brilho e buscamos avidamente pelo o que elas têm de trevas e de menos notável. Talvez por um senso de sobrevivência, de busca por proteger-se do outro, ou então, também pode ser um reflexo de nossa necessidade de, ainda que implicitamente, buscarmos nos afirmarmos como superiores em uma sociedade onde tudo é cada vez mais concorrido e sujeito a likes e dislikes.

Costumo dizer que a história é escrita pelos "vilões" e pelos "malvados" e que os homens "bons" não marcam a história. O que as pessoas apresentam e fazem de ruim parece ter um impacto muito maior sobre nós do que aquilo que elas fazem e são de melhor. As lembranças e a história, assim como o noticiário, tendem a buscar as coisas ruins em detrimento das coisas boas; assim, ficamos sempre com a sensação de que as pessoas e o mundo são mais ruins do que bons. 

Ora, a mesma humanidade que produziu armas de destruição em massa foi a humanidade que encontrou diversas curas para salvar mais vidas do que as armas são capazes de ceifar diariamente. A mesma humanidade produziu Jesus Cristo e Adolf Hitler. Cabe a nós escolher qual lado estaremos mais dispostos a enxergar.

Uma vez, em um rápido papo de viagem de ônibus, perguntei a um colega de trabalho como ele percebeu e decidiu, de certa forma, que a esposa dele era a mulher com quem ele queria construir uma vida a dois e ter filhos. Em resposta, ele me disse, em suma, que todas as pessoas têm muitas qualidades e defeitos e que a esposa dele foi a pessoa com quem ele se relacionou cujos defeitos menos lhe incomodaram e mais eram toleráveis. 

Ou seja, ele escolheu sua esposa, em alguma medida, sopesando o quanto os defeitos dela eram menores do que os de outras pessoas, segundo o padrão estabelecido pela régua pessoal dele. Achei este ponto de vista intrigante. Óbvio que ele avaliou as qualidades dela, mas os defeitos tiveram um papel primordial no processo de escolha. 

Para entender este raciocínio, cheguei à conclusão de que, no fim das contas, ele relativizou os defeitos dela a ponto de eles tornarem-se pouco relevantes e as qualidades se sobressaírem. E aí tudo fez sentido para mim e corroborou minha ideia de que para ver as qualidades não precisamos ignorar os defeitos, mas não deixar que eles ofusquem o que as pessoas podem guardar de melhor.

É preciso escolher um referencial: enxergar com mais interesse o que as pessoas apresentam de melhor ou aquilo que elas apresentam de pior.

O relevante é o ponto de encontro entre tudo aquilo que somos e aquilo que efetivamente interessa às pessoas. Então, se aquilo que interessa ao outro é o que temos de defeitos, o que nos tornará relevante ao outro será aquilo que somos de ruim, e não todo o resto que temos de bom. Daí a importância de percebermos, o quanto antes, qual referencial temos buscado nas pessoas, para que saibamos o que tornamos relevante nas relações humanas e possamos mudar o referencial adotado.

No fim, somos todos imperfeitos e falhos. Somente quando nos damos conta disto é que passamos a dar valor e a respeitar as virtudes alheias.

O mundo é bão e as pessoas também.

sábado, 24 de novembro de 2018

Maria Sofia

Amanhã, na alvorada do dia, vou para meu julgamento racial. Quis o destino que o tribunal fosse no mesmo lugar onde tudo se tornou possível, atrás dos muros do local que mudou minha vida, para sempre.

Mas não é de cor, de raça (no sentido de força criativa) ou de "choro no banho" que venho falar desta vez. 

Venho falar de humildade.

Meu julgamento racial me fez pensar no quanto hoje somos tão bélicos, tão conflitantes e pouco dispostos a aceitar decisões e escolhas sem recorrer. Além do senso crescente de irresponsabilidade que torna ninguém responsável por nada, vivemos uma época em que ninguém aceita nada. E isto, muitas vezes, é fruto de um orgulho fudido que cega as pessoas e faz com que elas não tenham humildade de reconhecer que podem não estar certas.

Isto se reflete em todas as áreas.

Na Era da Informação, todo mundo se sente meio dono da razão e do conhecimento, capaz de, muitas vezes sem embasamento algum, não aceitar as decisões/opiniões daqueles que têm muito mais conhecimento sobre algo do que nós mesmos. Recorre-se até sem saber do quê, muitas vezes.

Não se respeita o conhecimento alheio. Não se aceita a opinião alheia.

Isto, a meu ver, é uma puta falta de humildade. Ser humilde não é tudo aceitar sem questionar, mas reconhecer que não temos todo o conhecimento, que estamos errados e os outros estão certos em diversas ocasiões. Óbvio que temos nossos portos seguros, aqueles assuntos dos quais somos profundo conhecedores. Porém, mesmo esses assuntos, não sabemos tudo. Precisamos estar abertos a ouvir e, principalmente, a aprender.

Quando uma pessoa perde a capacidade de ser humilde, ela perde a capacidade de aprender. E quando se perde a capacidade de aprender, se perde a capacidade de evoluir como ser humano e tornar-se melhor. Não sei se a origem da palavra "humildade" é a mesma da palavra "humano", mas penso que muito perdemos de nossa humanidade quando nos deixamos levar por um orgulho cego, por uma vaidade inconsequente e por um enganoso senso de superioridade. Ninguém perde tanto com o orgulho desmedido como nós mesmos. Ser orgulhoso nos torna fechados ao outro, nos fecha ao conhecimento que não temos, nos fecha ao mundo.

Não digo só sobre respeitar o conhecimento alheio. Digo também sobre respeitar a autonomia do outro em sua vida. Quem somos nós para avaliar o acerto ou o desacerto das decisões que as pessoas fazem em suas vidas? Claro que muitas vezes já passamos pela mesma situação e nos sentimos mais experientes e sabedores do que o outro sobre uma decisão de vida, mas as vidas são tão singulares , diferentes umas das outras, que qualquer avaliação sobre o que o outro escolheu fazer de sua vida deve trazer em si a humildade do reconhecimento de que podemos estar errados.

Uma vez, em um debate virtual com um ex-colega de escola, ele escreveu para mim, com o horrendo capslock: "ERRADO! 100% ERRADO!". Deus! Como alguém pode realmente pensar algo assim sobre qualquer coisa acima da terra e abaixo do céu? Como alguém pode ter tanta convicção sobre alguma coisa? Nem sobre nós mesmos somos capazes de ter convicções 100% certas. Quanto mais sobre temas que envolvem divergência de conhecimento.

O mundo precisa de mais humildade. Isto é uma forma de respeito ao outro. Se tudo se sabe, nada faz muito sentido em nossa existência terrena. Deve ser difícil ser Deus. O não saber move, motiva, incentiva. O mundo precisa disto. A humanidade precisa disto.

Uma vez, ao perguntar a profissão de uma pessoa para quem eu prestava meu serviço jurídico, esta pessoa me respondeu um nome de profissão bem estranho, que nem lembro ao certo. Algo do tipo "auxiliar de frios". WTF? Óbvio que perguntei a ele o que um "auxiliar de frios" fazia. Ele ficou emotivo com minha curiosidade, com meu interesse em entender uma profissão tão simples, que consiste em organizar produtos gelados nas prateleiras de supermercados. Tentei explicar para ele que todo conhecimento é válido e que o que ele sabe fazer, eu, com meus 5 anos de universidade, não tenho a menor ideia de como fazer. Tentei explicar para ele que não há hierarquia no saber e que é preciso haver respeito entre os diferentes conhecimentos. Há cerca de um mês eu sequer sabia calibrar um pneu de carro, um conhecimento simples para alguns, mas que eu dependi de um amigo para me acompanhar, me ensinar e eu aprender.

Saberes diferentes não se hierarquizam, mas se complementam e se trocam.

A vida é uma constante troca, inclusive de conhecimento. E isto torna a vida solitária algo incompatível com a essência do que é ser humano.

É preciso humildade para entender que não sabemos tudo, que há coisas que não somos capazes de resolver ou entender sozinhos e que as escolhas/decisões do outro não são passíveis de serem julgadas com certeza de acerto por nossas convicções pessoais.

A vida flui com mais tranquilidade quando se aprende a aceitar que o outro pode deter conhecimentos que não temos. A vida flui com mais tranquilidade quando se aprende que o outro pode ser aquilo que não somos.

Amanhã, aceitarei qualquer julgamento racial, sem recorrer.

sábado, 10 de novembro de 2018

Da vaidade

Tudo é vaidade.

Assim diz a Bíblia em uma de suas passagens.

Tudo é vaidade.

Hoje mais do que nunca.

Tempos de egocentrismo, de culto à própria imagem e ao próprio corpo, maximizado pelas redes sociais. Como escrevi há alguns anos, atualmente temos duas vidas: uma real e uma virtual. E a vida virtual é uma vida expositiva, na qual nos expomos e estamos 24 horas por dia acessíveis para sermos vistos e pesquisados. E isto é tentador.

As redes sociais aguçam nossa vaidade. Aos nos exporem, elas nos dão holofote, nos dão um destaque que a vida real só nos dá, em geral, em momentos de grandes feitos pessoais, em datas comemorativas ou quando fazemos alguma merda daquelas. As redes sociais alimentam nosso senso de importância, criam a sensação de que coisas insossas de nossa vida têm relevância e de que existem pessoas interessadas em saber o que andamos fazendo.

Isto pode ter um lado bom, como ajudar a desarmar a bomba depressiva daquelas pessoas que acham que sua vida não tem qualquer importância. 

Mas esta exposição e interação excessiva tem muitos lados ruins. E é isto que eu, no meu azedismo solitário, quero pontuar.

As pessoas andam cada vez mais vaidosas, interessadas em saber a repercussão que suas postagens nas redes sociais terão. Querem saber quem irá curtir suas fotos, quem irá comentar nelas. As pessoas passaram a gostar da sensação de serem visualizadas, contempladas e objeto de atenção. Todos tornaram-se artistas em alguma medida. 

O artista é um vaidoso por natureza, porque tem necessidade de ter sua arte apreciada, ainda que somente por algumas pessoas. Nem sempre quer reconhecimento ou ser compreendido, mas sempre quer ter sua arte apreciada por alguém.

Quem posta fotografias pessoais em rede social não marca a opção "postagem disponível somente para mim". Marca, na pior das hipóteses, a opção "postagem disponível somente para meus contatos". Quer ser apreciado. Se não tivesse este desejo, não postava ou, na pior das hipóteses, postava e nem olharia depois quem curtiu/comentou/interagiu com a postagem (como quem dá um tiro e sai correndo, sem nem olhar para conferir se alguém viu, foi atingido ou se algo aconteceu - o famoso "foda-se"/"caguei").

Quem posta, sente-se artista, em alguma medida. Posta por vaidade, pelo desejo de ter sua vida acompanhada por alguém (ainda que não se saiba ao certo por quem). Mas vaidade é uma merda, porque reconhecimento e protagonismo viciam. E aí, até aquela xícara fria de café ralo vira foto, postagem e objeto de curtidas e comentários. Faz bem ao ego ter seu dia apreciado por alguém, demonstra importância pessoal. É importante saber que alguém se interessa pelo o que fazemos, mas tudo que é em excesso não faz bem (nem o sexo - talvez).

A vaidade corrompe, como a fama. Perde-se um pouco o senso daquilo que realmente é merecedor de importância e de valorização. Passa-se a dar um peso anormal para o que é fugaz e superficial. A vaidade alimenta nosso egocentrismo, mexe com nossos valores. Em geral, pessoas muito vaidosas não são agradáveis, nem sequer prestam muita atenção no que dizemos, exceto quando é um elogio sobre elas mesmas. As redes sociais alimentam essa "antipatia", fortalecem nossa proximidade com aquelas pessoas que estão sempre curtindo nossas postagens, com nossos "seguidores", por exemplo. Elas alimentam nosso estímulo visual, em detrimento dos demais. Mas a riqueza da convivência humana vai muito além do que está ao alcance dos nossos olhos. Envolve coração, mas coração de verdade, e não corações virtuais de curtidas.

Cada vez mais respeito as pessoas "eremitas", que se desligam de todas as redes sociais expositivas. Eu as entendo e vejo muito sentido na escolha delas. Aliás, estou mais perto de eliminar uma rede social do que de passar a usar uma nova rede. Óbvio que as redes sociais aproximam, nos permitem acompanhar os rumos da vida de pessoas com quem não convivemos mais pessoalmente. Mas as redes sociais também afastam. Em nossa vaidade social passamos a dar valor e importância para coisas superficiais, passamos a, em alguma medida, tornar a convivência humana algo mais visual e menos pessoal, tornamos as pessoas um pouco descartáveis.

Talvez eu seja um bobo solitário, no fim das contas. 

Entendo os "eremitas". Eles não fogem das redes sociais porque fogem do contato humano. Fogem porque não aguentam mais este jogo de vaidade, no qual sua importância pode ser medida e comparada por curtidas e comentários virtuais. A vaidade pode ser escravizante, como a fama. E, para alguns, a melhor maneira de tratar isto é buscando uma vida pacata e longe de qualquer holofote. Respeito muito quem tem esta coragem de assumir que, nos fim das contas, só há uma vida digna de ser vivida: a vida real. 

Afinal, tudo é vaidade.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Notas de carnaval

Estes dias vi na TV um programa de talentos musicais nos quais os jurados só tinham como opções as notas 9.7, 9.8, 9.9 e 10.

Para mim, isto foi o reconhecimento de nossa incapacidade, como sociedade, de lidar construtivamente com a crítica.

Naturalizamos a mediocridade. Nos conformamos com coisas feitas com razoabilidade dando a elas status de coisas feitas com excelência. Talvez por isto ficamos meio surpresos quando encontramos um bom serviço, como se encontrar um profissional que realmente seja bom ou excelente fosse a exceção, ao invés de ser a regra.

Quantos encanadores, mecânicos, eletricistas, montadores de móvel, instaladores de internet, taxistas, professores, médicos etc medíocres encontramos por aí. Parece que eles se multiplicam. E são todos pagos. Gente que presta serviço sem preocupação com qualquer padrão de qualidade. Sabe quando você senta num táxi? Não parece muitas vezes que você está fazendo um favor para ele ao invés de estar pagando pelo serviço dele? É tosco, para não dizer indecente.

E a gente se acostuma com isto, com nossa realidade de serviços mal prestados. E no fim, com essa naturalização, nos tornamos complacentes com a mal feito, nos tornamos mais tolerantes e perdemos um pouco de nosso senso crítico.

Você já viu a apuração do desfile das escolas de samba? A regra são notas que variam de 9.5 a 10, sendo que 9.5 torna-se uma nota ruim e uma nota igual ou inferior a 9 só é dada numa situação absurdamente ruim, tipo um carro alegórico travado no meio da passarela ou um acidente durante o desfile. Que mundo é este onde 9.5 é nota baixa? Um mundo de bajulamento, de supervalorização, totalmente destoante do mundo crítico e até do mundo escolar, no qual tirar um 8.5 é uma puta nota e tirar 9.5 é um orgasmo.

Vivemos uma sociedade de baixo nível crítico, no qual ouvir uma verdadeira crítica é confundido com perseguição pessoal, com inveja, despeito, recalque etc.

Em uma sociedade acostumada com coisas mal feitas aceitas como suficiente, a crítica soa como um acinte, como falta de sexo. Somos uma sociedade de mimados e mal acostumados com aquilo que não é bem feito. Somos acostumados com a falta de beleza e de graciosidade que resolve razoavelmente.

Um programa de TV no qual a pior nota possível é um 9.7 é um bom exemplo disto, um bom exemplo de como somos injustos com aquilo que é verdadeiramente bom e o aproximamos tanto daquilo que está longe de ser bom. Separamos por 0.3 o sublime do medíocre. Desestimulamos o trabalho bem feito ao valorizarmos tanto aquilo que não é bem feito. Se ser meia boca basta, ir além do razoável se torna uma questão meramente de consciência, de vontade de fazer sempre o melhor, algo muitas vezes mal compreendido e menosprezado.

No fim, razão assiste a Santo Agostinho: "Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem."

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Corvo

Amo os dias chuvosos.

Nos dias de chuva, os rostos amanhecem cerrados e assim permanecem por quase todo o tempo. Os sorrisos escondem-se.

Não há o alarde dos dias de sol, os risos e gracejos excessivos. Não há espaço para gritarias rua afora. Não há espaço para ilusionismos de verão, praia e sol. Menos mimimi. Menos disposição para causar. Menos larápios dispostos a andar por aí. Mais vida doméstica e convivência familiar. Mais lazer saudável. Mais descanso e horas de sono. Corpos a frio buscando sexo quente debaixo das cobertas.

A preocupação principal de todos parece ser só encontrar logo um teto para proteger-se e não se molhar muito. Nesta hora, na imensidão dos guarda-chuvas e dos calçados respingados de lama, todos os humanos parecem humanos. Todos parecem iguais. Todos parecem estar na mesma merda. Pensando e praguejando no azar que deram ao molharem-se na esquina anterior. Nada parece tão importante como livrar-se da chuva. Todos vivendo a mesma sintonia negra.

Dias escuros como o preto de minhas asas. Todos apresentam o mesmo ar fechado que eu guardo em todos os dias. Mais silêncio. Mais pensamentos. As pessoas tornam-se reflexivas em si mesmas. Visitam seus demônios. Pensam mais em suas vidas. Pensam nas merdas que andam fazendo. Sentem culpa. Não há para onde correr. Perdem a liberdade sob o olhar da chuva e o molhar das lágrimas.

Me sinto feliz por sentir que todos estão mais parecidos comigo. Mais mortos. Uma felicidade cretina, canalha, de corvo. É contraditório, mas é na escravidão dos dias de chuva que os homens parecem livres como eu, um pássaro. Ponho-me a observar.

Todos parecem corvos.

sábado, 10 de setembro de 2016

Amarelo

Se não tiver controle, você pode viciar e desperdiçar muito tempo até conseguir voltar.
Se não puder utilizar, você pode fazer escolhas muito precipitadas, erradas e ter condutas absurdas que ninguém terá coragem de apoiar.
Se você souber usar, você pode conseguir se equilibrar e, porque não, se salvar.

É energia. É força. Faz parte do equilíbrio.

Energia vital, que se produz, compartilha, desperdiça, multiplica e elimina.

Somos a usina de nós mesmos.

Vez ou outra acontecem desastres que impõem a necessidade de isolamento. Porém, controlado, condicionado à vida de animal social.

Quando se perde essa socialidade, se perde o sentido. Vira-se bicho abaixo e acima da linha do pecado. Aumenta-se a voltagem, os riscos, entra-se em rota de autodestruição.

Em algum momento, por recomendação médica, conselhos de amigos, pressão da família, amor, fé ou xirilubaiê é possível acionar um modo de segurança, capaz de desarmar a bomba.

Mas nem sempre se encontra ajuda para ativar o modo de segurança e a bomba explode.

Às vezes em silêncio, outras aos tiros, algumas do alto e umas do fundo do mar.

E assim a vida se vai. A energia se dissipa. E ninguém mais sabe com certeza o que acontecerá. Talvez só Deus e os ateus.

Uma estatística silenciosa, antecedida por uma vida tenebrosa e resultante de uma morte indecorosa.

Mulheres, vocês não sabem a força que têm. Ou sabem, mas preferem se fazer rogar.

sábado, 16 de julho de 2016

Nos deixem sonhar

Aos 26 anos, não se é tão jovem quanto se imagina ser e nem tão adulto quanto se parece ser. 

Mas na essência, ainda me imagino jovem como há uns 6 anos. Inclusive, politicamente.

Desde 2010, tenho me alinhado politicamente às ideologias de partidos que comumente são rotulados de "extrema esquerda". Tudo bem, sou canhoto, isso explica em parte minha inclinação para a esquerda. Mas mais do que isso, eu ainda sou jovem.

Quando se é jovem, a cabeça pensa para frente, com os olhos no futuro. E quando um jovem pensa em futuro, ele pensa com liberdade, projetando sonhos, ideais e utopias. Ou ao menos assim deveria sempre ser.

O jovem não pode ter compromisso com a ordem comum das coisas. Não tem patrimônio e privilégios a proteger e, por isso, politicamente, tem liberdade para se aliar com os ideais de partidos que não são conservadores e não estão comprometidos com a manutenção do status atual das coisas. Ser jovem é olhar, com esperanças, para o longo futuro que tem pela frente.

Me arrisco a dizer que uma sociedade que sufoca os sonhos, ideais e utopias de sua juventude não tem futuro. O futuro de longo prazo é construído pela juventude e não pela atual geração adulta, que só consegue ver o futuro até onde a neblina de preocupações deixa ver. O jovem é imprudente, ousado, consegue enxergar além, embora não saiba ao certo distinguir o que seja futuro do que seja fantasia. Mas é assim que deve ser. A juventude precisa sonhar, precisa acreditar em teorias incertas.

E se a "extrema esquerda" tiver errada? Ela terá errado como todos os grandes partidos que se revezam no Poder têm errado. Os erros se sucedem porque os mesmos partidos e ideologias se revezam ao invés de se sucederem. Nunca saberemos se a esquerda está errada se nunca a deixarmos governar. Ah, não me venha com essa de que PT era governo de esquerda, porque no dia que Lula indicou Henrique Meirelles para o Banco Central em seu primeiro mandato, ele deixou bem claro qual era a política econômica do PT.

Quando o jovem defende socialismo, ele não defende o socialismo de Stalin, de Fidel... A atual juventude não viveu esse socialismo. Ela defende o socialismo que acredita ser possível e não o socialismo que não assistiu. Essa é a dificuldade que a geração adulta tem de entender como ainda se pode acreditar em socialismo. Eles não conseguem ver o socialismo além do socialismo que viram acontecer, perderam a capacidade de sonhar, idealizar.

Uma hora, todos nós, paramos um pouco de acreditar nos sonhos e em ideologias. Contudo, não podemos impedir as pessoas, sobretudo os jovens, de continuar sonhando e acreditando.

Talvez em mais alguns anos eu deixe de ser um jovem no coração e me torne um liberal, daqueles que defende a confiança do "mercado", a necessidade de privatizar os serviços essenciais. Porém, nesse dia, se eu esquecer, me lembre de não impedir ninguém mais jovem do que eu de sonhar, mesmo naquilo que pareça sem qualquer sentido.

Nunca me esqueci do dia que eu estava fazendo a mão um fichamento avaliativo sobre um texto de umas 150 páginas e ouvi, sentado na mesa da copa, sem poder parar para ver a TV que estava na sala, o discurso mais inspirador que um jovem da minha idade poderia ouvir. Nesse dia, fiquei com lágrimas nos olhos e continuei meu fichamento com a inspiração de que aquele sofrimento não era mais forte do que meu poder de sonhar.


domingo, 26 de junho de 2016

Vida ou morte

A morte é a fronteira final. Aquela que separa nosso mundo relativamente previsível de um mundo totalmente desconhecido, do qual tudo que se conhece são crenças, incertezas e probabilidades. 

Não saber com certeza o que há do lado de lá talvez explique o medo que todos, de alguma forma, têm de morrer. Apesar de não facilmente assumido, talvez esse seja o maior medo de todos nós, aquele nos faz diariamente adotar medidas que, mesmo sem gostar, se fazem necessárias para a proteção de nossas frágeis vidas. Esse medo é força motriz, nos faz viver com cuidados, desenvolver um senso de autopreservação em meio aos perigos que nos cercam.

E quando não se tem medo de morrer?

Se vive com mais liberdade e sem muito senso de preservação de si mesmo. Se vive com desprendimento e com menos medos. Se vive sem senso de humanidade.

Todo animal traz em si como instinto mais agudo o instinto de sobrevivência, não necessariamente por entender o que sentido do que representa a morte. No entanto, quando um homem, deliberadamente, resolve renunciar ao medo da morte, ele consequentemente, torna o seu instinto de sobrevivência um instinto secundário, abaixo de outros como, por exemplo, o instinto de reprodução da espécie.

Um homem sem medo da morte não tem muito amor próprio e é um passageiro vagante por entre plataformas desertas da madrugada, fumando pacientemente um cigarro, enquanto não passa o trem da morte.

Um homem sem medo da morte leva uma vida "mercenária", daquelas que só se justifica enquanto tiver algo a oferecer de bom. Mas não se engane! Quem leva uma vida "mercenária" não quer morrer "de graça", não atravessa sinal verde no centro da cidade. Para essas pessoas a vida é como um jogo, no qual enquanto se tem fichas é preciso continuar jogando até que elas definitivamente se encerrem.  E para elas, o fim das fichas não é um problema. Não ter medo de morrer é não tê-la como uma preocupação e, não necessariamente, querê-la como opção.

O pior inimigo é aquele que não tem medo da morte. É frio.

O pior criminoso é aquele que não tem medo da morte. É capaz de amarrar uma bomba na cintura ou de sair praticando roubos por aí com uma arma na cintura sem qualquer medo de morrer ou peso de consciência por matar inocentes. É por isso que a luta armada contra o terrorismo é quase uma fantasia. Quem não tem medo de morrer, não tem pudor em matar. Como lutar contra quem não tem medo de morrer? Oferecendo o risco de morte?  É uma questão psicológica, mental. A guerra precisa ser psicológica, é preciso penetrar nas mentes, na cultura e na educação. Por isso é tão difícil, sobretudo, em uma realidade cultural e histórica tão permeada por guerras.

Muito tempo atrás, vi uma entrevista na qual um menino do tráfico de uns 10 anos dizia não ter medo de morrer e falava com segurança que, se ele morresse, o tráfico o substituiria por alguém "pior do que ele" ("pior" no sentido de ainda mais cruel). Seria a guerra armada contra o tráfico nas favelas também uma fantasia? Os menores que estão desde cedo convivendo com o crime, em geral, são mais frios do que os adultos, mais dispostos a matar e com menos medo de morrer (têm menos a perder, sendo que perder a vida não é uma preocupação), talvez até pela falta de um amadurecimento que já os tenha permitido entender o que significa a morte.

Oferecer a morte a quem não tem medo de morrer não é a solução. Por isso defendo uma cruzada de educação, de formação cultural e religiosa, bem como de dignidade humana, em resposta ao tráfico. É preciso "sequestrar" as mentes dos jovens que se alistam para o exército do tráfico. É preciso dar sentido a essas vidas, a ponto de se criar um medo em perdê-las - o medo de morrer. Estamos longe de conseguir essa proeza, o que torna ainda mais insana e sem sentido a luta armada contra os suicidas do tráfico e do fundamentalismo religioso/político.

Com quem não teme a morte, a única forma de vencer é preenchendo o mosaico da vida, é despertando na vida tanto sentido que faça a morte parecer uma indesejada visitante.

domingo, 8 de maio de 2016

Vida

Hoje é, oficialmente, dia das mães. Dia de celebração da vida, em seu duplo sentido. Pôr um ser no mundo, seja como pai ou mãe, representa celebrar uma vida que nasce e uma vida que renasce, daí o duplo sentido mencionado por mim.

Ser responsável por uma vida muda o modo de vermos nossas próprias vidas. Não precisa ser pai ou mãe para saber disso; basta, guardadas as devidas proporções, experimentar viver a sensação de ser responsável por cuidar de um ser que depende de você, como um animal de estimação ou uma planta. Aliás, atualmente, cuido de uma planta na varanda de meu quarto, uma planta que me seduz a cada semana com novos ramos verdinhos, que crescem fortes, bonitos, como se em agradecimento aos meus cuidados.

Poucas coisas podem ser tão enriquecedoras em nossas vidas como ter uma vida sob nossa dependência. Cuidar de uma vida valoriza nossa própria existência, nos torna importantes e, de alguma forma, mais preocupados em cuidarmos de nós mesmos.

Mas não se engane! Cuidar de uma vida também representa uma parcela de renúncia de si mesmo, abrir mão de parte de nossa individualidade, abrir mão de tempo (pouco ou muito), de momentos em que se desejava estar a fazer outra coisa, de oportunidades e por aí vai. Cuidar de uma vida dá trabalho, o qual pode ser recompensado ou não, a depender da visão de nós mesmos sobre a vida.

Dentro dessa lógica, escolher ter uma vida para cuidar mostra-se algo cada vez mais controvertido. Não é mistério para ninguém que vivemos em uma sociedade individualista, na qual nossos desejos e metas pessoais se sobrepõem, na maioria das vezes, à vida em sociedade. Nesse sentido, é cada vez mais comum vermos casais que optam por, primeiro, viverem anos "livres" de filhos para curtirem a vida a dois e alcançarem mais facilmente suas metas profissionais para, depois, quando houver tempo, terem filhos. 

Acontece, no entanto, que nem sempre o tempo passa e alcançamos nossas metas pessoais e então, quando ter filhos passa a não influir mais no insucesso pessoal alcançado, se decide tê-los. O problema é que, mais velhos e desgastados pela vida e por suas preocupações, nem sempre estamos no melhor momento de nós mesmos para se dedicar à vida de outro ser, surgindo dificuldades, às vezes, até para reunir condições físicas para brincar com uma criança e gastar energia com ela.

Decidir não ter filhos, cada vez mais, se tornou uma demonstração de individualismo, de garantia de mais de nós mesmos para nós e de menos de nós mesmos para os outros, ainda que nascidos de nós. Os valores propagados pela sociedade contemporânea indicam que a maternidade e a paternidade são obstáculos para nosso crescimento pessoal, de forma que devem ser evitados ou retardados ao máximo; quando na realidade, dentro daquela ótica de dupla celebração da vida, a maternidade/paternidade representa um renascimento de nossas próprias vidas, um recomeço necessário - de onde se extrai que ter com quem se preocupar além de nós mesmos pode, ao invés de um problema, ser o ingrediente necessário para aumentar nossa sede por conquistar o sucesso pessoal, ser o estopim da bomba.

Por sorte, a maioria dos nascimentos (pelo menos no Brasil) não são planejados, embora a lógica diga que isso é péssimo. Ainda bem que os bebês acontecem. A perpetuação do sentimento de humanidade agradece. A vida ainda respira.

domingo, 1 de maio de 2016

Teoria do recato

Tempos de meias palavras; de cumprimento com mão mole; de necessaire, toilette e estrangeirismo desnecessário; de pratos gourmet; de recato.

Tempos de sofisticação forçada, no qual o que aparenta ser sofisticado ganha respeitabilidade. Ter classe e elegância, de modo geral, é algo contrário à nossa natureza animal. Analogicamente, Adão e Eva eram nus até pecarem, tendo optado voluntariamente pela "civilidade" de sempre usar vestes em detrimento da liberdade da vida nua.

O que explica vestir um terno e uma gravata em um dia infernalmente ensolarado e para trabalhar em algo que exija liberdade de movimento dos membros superiores? Civilidade. Aliás, para que servem as gravatas para além de ornamento? O que explica jantar um prato esteticamente bonito em um restaurante de alto padrão e voltar para casa com fome? Civilidade.

Ter classe se tornou um símbolo de evolução humana, como se quem consegue agir com elegância, consegue controlar seus instintos humanos de liberdade, consegue reprimir aquilo que lhe deixaria mais à vontade, fosse alguém mais desenvolvido. Afinal, não se nasce com "garbo e elegância", com classe, com civilidade; se adquire, se aprende.

É pecado ter classe? De forma alguma, mas é anti-natural não se fazer o que se quer somente porque isso pode ser considerado algo "feio", rude e ser utilizado para criar uma má impressão das pessoas acerca de você. A melhor coisa de "ser" é a liberdade de "ser", de forma que se restringir em prol de "parecer" é um aniquilamento de si mesmo.

Para algumas pessoas, no entanto, a elegância e a classe já estão de tal modo intrínseco no "ser" delas que simplificar significa um regresso, uma desevolução, um andar para trás, uma vez que já não sabem viver se não for com sofisticação, se não for com 15 talheres, mas nenhum dedo, para pegar com as mãos a "galinha" que insiste em escorregar do prato.

Às vezes tenho vontade de falar em público, com pronúncia portuguesa, as palavras estrangeiras que cada vez mais insistimos em utilizar sem necessidade, mas isso soaria estranho. Ainda quero ter coragem de chegar em uma loja que coloca "50% OFF" na vitrine e pedir para ir à "casa de banho" do estabelecimento. Sente como é feio falar "casa de banho" ("banheiro" em português de Portugal) com um brasileiro? Usar uma língua/expressão estrangeira para se comunicar com um povo que não fala aquela língua é algo como dizer que está enxergando as roupas invisíveis do imperador, é uma conduta de quem quer demonstrar classe, elegância, superioridade, sem necessidade.

Veja! Não estou a defender que as pessoas não podem ser elegantes, principalmente se só assim conseguem se sentir bem. Não estou a defender "voto de pobreza" ou que se finja simplicidade. Por outro lado, ninguém é obrigado a preferir champagne ao invés de xixa só porque beber a primeira ao invés da segunda é mais sofisticado. Veja! Não ser sofisticado e não ter classe não é pecado; aliás, me arrisco a dizer, voltando ao exemplo de Adão e Eva, que o pecado está mais na classe do que na falta de classe, afinal, o homem foi feito para a liberdade e, a partir do momento que achou necessário restringir sua liberdade com roupas incompatíveis com a temperatura de onde vive, com vocabulário estrangeiro e etc, boicotou um pouco de si mesmo, de sua divina liberdade.

Interessante que mesmo os mais sofisticados precisam ficar (ainda que parcialmente) nus para realizar suas necessidades básicas como pessoa, inclusive o sexo. Aliás, perder a classe expondo-se ao nu é um encontro com nossa verdadeira natureza, com quem somos a maior parte do tempo e não podemos expor, sendo assim injusta a vergonha que, em geral, sentimos ao expor nossas imperfeições físicas no momento da nudez. Dentro da ótica da civilidade, o sexo é uma deselegância, uma falta de recato, uma perda de autocontrole, de classe - diretamente relacionada com o livre exercício da liberdade humana, aquela que contemos em grande parte do tempo usando roupas, um vocabulário selecionado e com atitudes civilizadas.

Não desconsidero as questões de higiene por trás de alguns hábitos de civilidade. Aliás, civilidade é um mal necessário em muitos momentos, mas parece que cada vez mais a motivação para a civilidade excessiva é o caráter evolutivo, é o demonstrar o quanto somos evoluídos e capazes de aprender hábitos anti-naturais, como andar de salto alto, no caso das mulheres, e usar gravata, no caso dos homens. Quanto mais classe se demonstra, mais superioridade se exterioriza.

De verdade, respeito muito quem tem a inocência de segurar uma coxa de galinha com as mãos, de rir sem razão, de andar mal vestido e encardido, de não falar outra língua sem necessidade e de sair para comer em um restaurante e não voltar com fome para casa após comer pratos esteticamente bonitos.

É nessa inocência, na falta de medo de ser você e fazer o que lhe dá prazer, que mora a liberdade.

domingo, 24 de abril de 2016

Histeria!!!

Tempos de intolerância, nos quais sair às ruas de vermelho pode ser ato de subversão e andar de amarelo é sinal de cidadania.

Baile de favela. Ops. Baile das cores. Vermelho, cor de gente ruim. Amarelo, cor de gente do bem.

Fui trabalhar de vermelho no dia pós-golpe e fui olhado, mais do que quando eu usava vermelho no ano passado. Atualmente, quando me visto de vermelho, me sinto, de certa forma, praticando um ato atentatório, quase um terrorista. Mas me sinto livre e bem comigo mesmo. Sei lá, morenos ficam bem de vermelho.

A democracia não tem cor, ela tem, na realidade, a pluralidade de todas as cores. Mas se vermelho se tornou a cor da democracia, é de vermelho que vou, ainda que não sendo PT ou comunista.

Vivemos tempos de histeria. E não é pelos Beatles.

É preciso gritar histericamente. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

Apontar o dedo para "ladrões", "corruptos", "defensores de bandido". Gritar palavras de ordem. Pedir a volta da ditadura ou da monarquia (juro que até hoje não entendi o que pensam as pessoas que levam bandeiras do Brasil Império para manifestações patriotas. Até se fossem bandeiras portuguesas eu entenderia melhor). Como no livro "1984", quem não participa dos "dois minutos de ódio" deve ser olhado como suspeito.

Tempos loucos em que cores podem significar coisas que não passam pela mente; tempos de caça àqueles que pensam diferente; tempos de violência (intelectual, física, espiritual).

Me considero um pouco profeta por causa deste texto, porém ser profeta não costuma ser algo muito bom, principalmente em tempos de histeria coletiva. Gosto da palavra "histeria", parece exprimir caráter mais doentio do que a palavra "loucura", talvez porque muitos "loucos" não são loucos, mas gente histérica é sempre gente histérica.

A corrupção não nasceu em 2003 e tampouco os petistas do governo federal são mais corruptos do que os vereadores, prefeitos, deputados, governadores, todos ladrões, dos mais variados partidos, que temos aos montes por aí. Aliás, tampouco os petistas do governo federal são mais corruptos do que os tucanos do longínquo governo anterior. Inclusive, você já viu um tucano? Coisa mais covarde do mundo escolher uma ave tão linda, original, de cores tão vibrantes, para representar ideias tão conservadoras.

Não acredito muito em manifestações de rua para cobrar alguma coisa em nível federal, justamente porque tenho a sensação que em Brasília as coisas são decididas influenciadas somente, e digo, único e exclusivamente, por motivos políticos, por benesses possíveis de serem auferidas pelos políticos e seus tão estimados familiares. Se lixam se estamos nas ruas, como fizeram na época das "Diretas Já". Manifestações de rua com fins federais não mudam voto de indecisos e nem geram leis; no máximo, dão voz à quem quer gritar e não quer esperar até as eleições.

Mas manifestações contra problemas locais podem mudar muita coisa, visto, por exemplo, que, quando pressionados por câmaras cheias de gente, os vereadores de várias cidades "ficam com medo" e votam contra seus aumentos salariais que já estavam combinados nos bastidores políticos. Contraditoriamente, no entanto, raramente vamos às ruas contra problemas locais. Vai entender.

Acredito que serve mais à "luta" qualificar gente comum, que veio do povo, para ocupar cargos com poderes decisórios, seja no Judiciário, em escolas, na área médica e por aí vai. É como o golpe de 2016; ele não é feito pelas pessoas de amarelo nas ruas, mas por pessoas de aparência asséptica, cheias de ideologia, com poder para fazer o golpe independente e contrariamente da vontade da maioria. Dentro dessa lógica, por exemplo, as cotas são uma puta estratégia de revolução, de tentativa de mudar o país pelas instituições, criando oportunidade de colocar gente "de cor", que sabe o que é a vida fora do ar condicionado, em cadeiras que hoje, infelizmente, são ocupadas quase que na totalidade por quem não representa os interesses da maioria da população e tem alergia ao povo.

Eu realmente me assusto com a cisma que pessoas histéricas têm com o governo PT, com o MST, com os sindicatos. As pessoas não conhecem como funciona reforma agrária e, mesmo assim, se sentem no direito de dizer que MST é cheio de gente à toa, que tem preguiça de trabalhar e quer terra de graça para vender. No domingo passado, quando Cunha comandava o culto do golpe, encontrei uma vizinha no elevador que me disse que tinham saído vários ônibus do ES rumo à Brasília para acompanhar a votação e que "devia ser tudo gente do MST". Será que patriotas não viajam de ônibus? Deve ser mesmo coisa de esquerda, de gente pobre, esse negócio de viajar de ônibus. Sinceramente, não consigo nem argumentar com gente assim, prefiro ficar mudo e deixá-la pensar que me convenceu, ou não, enquanto torço para descer logo no meu andar.

Tem gente que pede, urgentemente, que "libertem o Brasil"; tem gente que diz que "não podemos deixar o Brasil virar uma Venezuela". Sempre me espanto com essas comparações. Você já foi ou conhece alguém que vive/viveu na Venezuela? O que você conhece da Venezuela além do que relatos? E da Coreia do Norte? Tenho como filosofia de vida que não dá para emitir opinião bem fundamentada sobre lugares e gente que não conhecemos. A Venezuela pode ser uma merda, ou não. Macri, o novo presidente argentino, por exemplo, tá fazendo um monte de reformas liberais, que podem não dar certo, e dizem que o Brasil precisa virar uma Argentina. Oi? Ninguém sabe o resultado das reformas feitas por ele, até porque não houve tempo para resultados seguros, e querem nos comparar à Argentina como modelo. Seja com Venezuela ou com Argentina, não dá. O PT quer implantar uma ditadura de esquerda no Brasil, com as maiores taxas de juros do mundo e permitindo que bancos tenham lucros bilionários? Realmente, se o PT tá querendo fazer isso aqui virar uma ditadura de esquerda usando desses métodos tão capitalistas, merece mesmo ser tirado do poder por incompetência.

Em tempos de histeria popular, Hitler fez sabões de judeu e os alemães apoiaram ou estavam tão cegos de histeria que nem perceberam.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Devaneio Rodriguiano

Tomava todos os dias o mesmo ônibus urbano que ela, saindo às 11:30 do terminal rodoviário. Sempre a via na fila de espera. Uma jovem de uns 20 anos, morena clara, de cabelos castanhos com tons de loiro. Estimava que ela tivesse uns 1,70 m de altura. Na linguagem popular masculina, ela era uma cavala, uma gostosa de quadris e coxas voluntariosos, de corpo bem torneado e rosto bem desenhado. Ele tinha o costume de dizer que não casaria com uma mulher que não fosse capaz de conseguir segurar no colo. Aquela cavala talvez ele não conseguiria; não por ser gorda (pelo contrário), e sim pela magreza quase aidética dele e pelo corpo bem distribuído que aquela garota ostentava.

Já fazia cerca de um mês que Alves, jovem servidor público de 23 anos, comia aquela jovem com os olhos na fila de espera e no percurso de meia hora até a capital. Via ela descer todos os dias no mesmo ponto de ônibus - um ponto antes daquele em que ele descia para se dirigir à repartição onde trabalhava. Ficava imaginando para onde ela ia todos os dias, se tinha namorado, o que fazia da vida. A musa tinha um ar de garota meiga, sem aquelas nojentices comuns das garotas urbanas. "Veja só! Ela sequer usava fones de ouvido durante as viagens de ônibus!", pensava Alves.

De tanto vê-la diariamente naquele mesmo itinerário ao centro da capital, tinha a inocência de se sentir íntimo da guria. 

"Cabeça vazia, oficina do diabo", já diziam os antigos. 

Determinado dia, Alves, de caso pensado, resolveu sentar-se do lado daquela coisa linda. Já tinha planejado tudo. Iria deixar o ônibus afastar-se alguns minutos do terminal rodoviário e uns 5 minutos depois puxar assunto com tom de naturalidade. Sabia que, em geral, as jovens bonitas sentem-se inseguras ao serem abordadas por desconhecidos. Porém, inocentemente, acreditava que ela já tivesse em algum momento percebido que pegavam todos os dias o mesmo ônibus e que, por isso, se sentisse mais à vontade para conversar.

Pois bem. Sentou-se ao lado da linda moça e alguns minutos depois, Alves lhe disse em baixo tom de voz:

- Reparei que todos os dias pega esse mesmo ônibus, assim como eu. Você trabalha no centro?

Ela respondeu com um "Hã?", franzindo o rosto como quem não tivesse conseguido ouvir o que foi dito, seja pelo barulho do ônibus ou por não estar esperando ser abordada enquanto olhava pela janela a linda Baía de Vitória.

Alves repetiu a oração, que nesse momento já tinha quase um ar de prece. 

Ele esperava por uma resposta curta, de quem não quer assunto com um desconhecido, ou então, uma resposta em tom doce, convidativo a um prolongamento de conversa. Alves já havia tempos antes abordado uma garota que também pegava sempre esse mesmo ônibus. Naquela ocasião, foi respondido com desdém por uma linda italianinha de cabelos negros, que chegou a descer um ponto  antes do habitual para, talvez, se livrar mais rápido da investida de Alves. Esse episódio chateou profundamente o conquistador, que se sentiu equiparado, de alguma forma, a algum tarado maluco. Nunca mais dirigiu qualquer palavra à italianinha (e a recíproca era verdadeira), embora teimassem em pegar todos os dias o mesmo ônibus. 

"Quem sabe hoje será diferente", pensava esperançosamente o magro jovem de pele morena brasileira, 1,75 m, sem grande charme fora da carteira. 

O que se sucedeu foi algo que jamais passaria pelos planos de Alves, nem se ele ficasse pensando por meses em possíveis desfechos. A linda jovem respondeu à pergunta reiterada:

- Não, não. Estagio no centro. Ainda estou fazendo faculdade.

Ele sequer prestou atenção naquela resposta, dada em tom natural, incapaz de demonstrar interesse ou desdém. O que roubou a atenção do "terror das passageiras" foi outro detalhe: a moça tinha língua presa; muito presa, diga-se de passagem.

Alves ficou petrificado diante dessa inesperada situação. Em seus devaneios jamais imaginara que aquela potranca puro sangue falasse como o Cebolinha da Turma da Mônica. "Puta que pariu! Não é possível!" - praguejava ele mentalmente.

Não conseguia algo balbuciar. Tinha vontade de rir, não pelo problema da moça, mas pela surpresa da situação. Seu rosto, contraditoriamente, reagia com outras contrações. Franziu o rosto com ar de menosprezo. A moça aparentemente não percebeu a razão da estranha careta. Somente depois de um longo delay de uns 10 segundos conseguiu algo dizer. Disse qualquer coisa, fez uma pergunta qualquer, impensada, como que automática:

- Legal. Faz faculdade de quê?
- Direito. - respondeu a guria.

E Alves seguiu fazendo perguntas automáticas, sem cantadas, piadas ou outras observações. Falava como em piloto automático. Não conseguia parar de prestar atenção na língua presa da moça. E esse problema cada vez o incomodava mais. Mais. E mais. Porém ele seguia perguntando coisas, sem que ela perguntasse qualquer coisa sobre ele. Parecia um jogo masoquista, no qual ele forçava a garota a ostentar seu problema vocal e assim ganhava mais momentos de angústia com aquela estranha voz.

O incômodo foi crescendo no jovem conquistador. Isso foi lhe causando suor excessivo na testa. O estômago parecia revirar. Mas Alves seguia a perguntar, perguntar e perguntar. E a jovem respondia tudo com naturalidade, sem demonstrar interesse ou desdém. O moreno jovem foi ficando sem ar, como que prestes a explodir. Se branco fosse, estaria vermelho como semente de pau brasil.

Sem mais resistir, Alves, sem se preocupar em dizer algo que fizesse sentido, apenas disse à moça, em meia voz, a enigmática frase:

- Hoje não! Hoje não!

E de súbito levantou-se e deu sinal para descer no próximo ponto, um ponto antes daquele no qual habitualmente a linda moça descia no centro da cidade.

Quando o ônibus abriu as portas, Alves atirou-se para o lado de fora e pôs-se a vomitar na calçada, na frente daquele mundo de gente que ia e vinha. Vomitava a plenos pulmões, como quem estivesse disposto a cuspir tudo o que entrara mal pelos seus ouvidos e não conseguira absorver.

Estava livre.

A moça provavelmente nada entendera e talvez nem quisesse entender. Mas para Alves fora uma vingança pessoal contra as mulheres passageiras. Sentia-se vitorioso. Isso que importava.

No dia seguinte, no outro, no outro e ainda por meses, voltou a encontrar a cavala e a italianinha na mesma fila de espera e no mesmo ônibus. Mas desde então nunca mais dirigira alguma palavra a uma delas ou a qualquer outra mulher dentro de um ônibus, por mais linda que fosse.

sábado, 11 de julho de 2015

Quem precisa de heróis?

Pretendo ser breve neste retorno forçado.

Sabe uma coisa que me incomoda muito? Heróis. Não os fictícios, dos quadrinhos e desenho animado.

Tenho como uma das máximas de minha vida profissional fazer o que precisa ser feito, aquilo que sou pago para fazer, sem choro nem vela. Mas tem muito gente que não é assim.

Por mais que se diga que não, algumas profissões possuem graus maiores de importância/responsabilidade do que outras. Nessa categoria, sem dúvidas, estão as carreiras de policial e bombeiro. 

Arriscar sua própria vida por outra pessoa, tendo que lutar contra chamas ou tiros, com certeza é um ato de bravura louvável. No entanto, na minha opinião, realizar tal ato profissionalmente, ou seja, sendo remunerado para tal finalidade, não torna ninguém herói. Penso que se você é pago para salvar vidas isso se torna um dever profissional e, dentro daquela máxima que citei anteriormente, se torna um apenas "fazer o que precisa ser feito".

Quem escolhe ser policial ou bombeiro não escolhe (ou não deveria escolher) ser herói, mas somente escolhe um ofício, ainda que de singular importância. 

No entanto, vivemos hoje (ou talvez sempre vivemos) uma era de capitães "Nascimento", na qual colocar uma arma na cintura se tornou sinônimo de licença para ser herói. Muitos policiais, infelizmente, pensam que quando vestem uma farda vestem na verdade uma roupa de super-herói e devem usar a arma que carregam consigo contra vilões. É uma imagem até romântica, pois os policiais, muitas vezes, sentem que podem salvar a sociedade apenas na base do tiro, prendendo "malfeitores que não são dignos de viver em liberdade".


Acontece que o crime é um fenômeno social cuja origem vai além do mero desejo individual de roubar, matar, estuprar... Apenas prender ou matar o máximo possível de pessoas que cometem crimes não resolve o problema da criminalidade, uma vez que esse problema passa pela pobreza, pela falta de acesso a serviços públicos e desemboca no desejo individual de delinquir. Assim, punir quem comete um crime é como atirar na ponta de um iceberg achando que destruí-la será capaz de eliminar o gigantesco bloco de gelo que está embaixo d'água.

A sociedade, em geral, espera heroísmo dos policiais, dentro daquela visão romântica de eliminação de vilões; por isso, ela se frustra toda vez que sente que os vilões estão vencendo. E os policiais, muitas vezes, compram essa história e acreditam nela. Talvez por causa disso sejam recorrentes na classe policial os sentimentos de que os policiais não são reconhecidos e de que os meios de comunicação sempre querem apenas denegrir a corporação perante a sociedade.

Vejo diariamente policiais e simpatizantes reclamando nas redes sociais que erros policiais são expostos à exaustão na imprensa e que ela não mostra os casos nos quais policiais fizeram partos de gestantes, salvaram animais, velhinhas indefesas e etc. Ora, meus caros, ser policial é salvar vidas e não querer louros por isso. É salvar vidas em vielas escuras e não se importar se alguém viu, noticiou etc. Por quê? Porque esse é seu trabalho. Lembra daquela máxima de fazer o que é pago a você para fazer? Pois é... Infelizmente é assim que funciona no mundo profissional dos seres humanos não heróis.

Sem querer ser desagradável, a imprensa é filha da puta com todo mundo, seja com o médico exemplar, mas que por um descuido deixou um paciente morrer ou com um policial espetacular, mas que matou por equívoco um inocente. É duro, eu sei, porém salvar criancinha, animais, velhinhas não dá nem a terça parte da audiência gerada por tragédias, erros humanos e por aí vai. Não é perseguição com a classe policial, pode acreditar.

Por isso eu realmente não entendo essa obsessão que a classe policial tem de querer ser tratada pela sociedade com heroísmo. A morte de um policial não o torna herói e não justifica uma reportagem jornalística em homenagem.

O que se deve perseguir é uma maior valorização salarial da carreira, o oferecimento de melhores condições de trabalho pelo Estado, mais treinamento e etc, haja vista que essa classe profissional se submete a riscos maiores do que praticamente todas as outras. Mas sério, exigir tratamento de herói pela sociedade e pela imprensa, com todo respeito que nutro pela profissão, é algo que não vejo o menor sentido.

Como disse, ninguém escolhe ser herói. As pessoas escolhem profissões.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Mamilos são polêmicos

A Copa do Mundo me fez adquirir um novo comportamento: não consigo assistir os jogos sofríveis do Campeonato Brasileiro sem fazer alguma outra coisa simultaneamente. Neste momento,  enquanto passo os olhos em mais uma derrota do meu time no campeonato brasileiro, escrevo o rascunho da postagem a mão em uma folha de papel.

Tenho muita coisa pra escrever aqui no blog, mas este macaco de camisetas que vos escreve está de mudança para outra cidade em alguns dias em razão da nomeação em um concurso público e por isso está com a cabeça a mil.

Mas então.

O tema desta postagem está meio velho, mas preciso expor minha opinião sobre ele.

Há cerca de um mês, uma garota gaúcha se tornou assunto nacional ao ser flagrada chamando de "macaco", aos gritos, o goleiro Aranha, do time do Santos, durante a vitória desse time por 3x0 sobre a equipe Grêmio, em Porto Alegre/RS.

Esse fato foi amplamente noticiado pela imprensa brasileira, gerando indignação nacional. Resultado: a tal gaúcha foi demitida de seu emprego; teve a casa incendiada por um lunático; está respondendo a inquérito policial; e se tornou alvo de toda sorte de críticas.


Onde quero chegar. Cara, essa gente toda não sabe o que é a atmosfera de um campo de futebol. Não! Não tô dizendo que a gaúcha não praticou um ato de ofensa e tampouco estou apoiando a conduta dela. Mas não consigo ver no ato dela a mesma carga de reprovabilidade que os meios de comunicação deram.

Eu, indivíduo pardo de pai negro, apoiador das cotas raciais e favorável a toda forma de inclusão social da população negra, achei tudo um grande escândalo e espetáculo exagerado.

Quem, como eu, vai ao estádio, ainda que nos estádios amadores do Espírito Santo, sabe que durante uma partida de futebol vive-se tudo muito intensamente (além da racionalidade). Pessoas pacatas são capazes de xingar a mãe do juiz e dos atletas durante todo o jogo, de mandar todos ou alguns dos que estão em campo se foderem (até os jogadores do próprio time). Em resumo, nada é racional em um campo de futebol. Aliás, os próprios jogadores se xingam durante os jogos, tudo para desestabilizar psicologicamente o oponente. As ofensas fazem parte do futebol de maneira tão natural quanto o fato de a bola ser redonda.

Ao pé da letra, xingar o juiz de "filho da puta" é crime, assim como também é chamar um jogador do time adversário de "viado" etc. Mas por que ninguém se revolta com os autores dessas ofensas? É tudo crime, minha gente! Assim como chamar um atleta de "macaco". Só muda o delito, mas são todas condutas criminosas.


GOOOOOOL DO MEU TIME! VAMOS, PORRA! EMPATAMOS O JOGO!

Voltando...

É muita hipocrisia esse povo todo de uma hora para outra achar inaceitável a conduta da gaúcha, mas no domingo essa mesma gente ir no estádio e chamar os jogadores do time adversário de "viados". Ué? "Macaco" não pode, mas chamar de "viado" pode? O peso das ofensas são diferentes?

Onde quero chegar. Pra mim, torcedor é tudo "doente" dentro de um estádio. Alguns mais, outros menos, mas todos "doentes".

GOOOOOOOL DE NOVO! VIRAMOS, CARALHO!

Voltando...

Se a torcida perde o controle racional durante o jogo, quem tem que ser punido pelos excessos é o time. Não UM torcedor individualmente. No caso concreto, o Grêmio foi eliminado da competição por causa do comportamento de sua torcedora e outros ao redor dela. Perfeito! Uma decisão padrão Europa e sem precedentes por aqui, onde tudo acaba em multas ridículas para os times de futebol. Punições ao clubes reprimem os torcedores de fazerem merda.

O torcedor é um "doente" que geralmente ama seu time acima de quase tudo. Por isso, ofende e se excede dentro do estádio. O torcedor prefere não fazer merda e vigiar os outros para também não fazerem se souber que seu time pode ser punido por suas condutas. Já punir UM torcedor individualmente pode até fazer o torcedor punido mudar suas condutas, mas tem efeito quase que nenhum sobre os demais.

Pra mim, foi lamentável a crucificação da gaúcha "doente" pelo Grêmio como se ela fosse uma racista nazista, digna de toda punição. Pra mim, ela errou, cometeu um crime, mas não fez algo que justificasse o tratamento que recebeu de nossa sociedade, que, diga-se de passagem, não é nem um pouco racista em suas práticas cotidianas...

Rotular de racista quem xinga em um campo de futebol, pra mim, é um excesso, haja vista as insanidades que os torcedores gritam sem pensar no calor de partidas de futebol. Veja se isso não é um depoimento de uma pessoa "doente" por um clube:


Ela fala mais do Grêmio, sua paixão, do que efetivamente do que fez. Pra mim, ela é "doente" pelo Grêmio, de fato, e não propriamente uma racista.

E digo mais. É preciso sensibilidade para saber diferenciar a conduta de quem ofende um adversário no calor do jogo daquela conduta de quem, de maneira premeditada, leva uma banana e faixas racistas para um campo de futebol, por exemplo. Pra mim, não dá pra colocar tudo no mesmo balaio.

Porém, infelizmente, nossa sociedade gosta de ser hipócrita, de dar peso igual para coisas diferentes; de achar mais reprovável a conduta individual da gaúcha branca em um campo de futebol do que as condutas de policiais que diariamente discriminam a população negra em suas abordagens de "suspeitos" e dos governantes que fecham os olhos para políticas de inclusão dos negros.

Quem dera se os problemas raciais de nosso país se resumissem a ofensas individuais proferidas por torcedores dentro de estádios de futebol.

A propósito, sabe o jogo que eu tava assistindo enquanto escrevia? Ganhamos daquele time de merda!