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sábado, 26 de junho de 2021

Triste

 Escrevo aqui, primeiro, porque ninguém mais lê blogs, então, o que aqui estiver, pouco ou nunca será lido. Blog tornou-se "cringe". Segundamente, se é que essa palavra existe, escrevo porque hoje estou triste e este é o único sentimento que eu realmente não gosto de compartilhar.

Constatei, hoje ainda, que estou cada vez mais calvo. Isto nunca me incomodou verdadeiramente, mas confesso que me assusta em alguma medida observar o quanto meus cabelos estão simplesmente parando de crescer na parte frontal de minha cabeça. Muito rapidamente. Talvez aos 35 eu não terei mais cabelo algum na metade da frente da cabeça. Confesso que essa velocidade me assusta, mais do que o ritmo de derretimento das geleiras e o aquecimento global. Eu espero que até os 35 eu encontre alguém que realmente não se importe de amar um cara calvo.

Por falar nisso, eu acho que sou orgulhoso em alguma medida. Sexo é bom, mas isso não significa que eu deva instalar o Tinder para transar com as pessoas. Por outro lado, eu me considero realmente um cara legal. Talvez isto seja um referencial errado. Mas eu me acho legal (ou acredito demais em quem diz isso sobre mim). E por me achar um cara verdadeiramente legal, eu sou orgulhoso o suficiente para não correr atrás de quem eu acho que possa ter me esnobado. E isso é muito louco, porque eu sou um cara cada vez mais calvo e que, de vez em quando, também precisa transar.

Talvez, mais forte em mim do que o desejo sexual seja o senso de orgulho pessoal, de não me sujeitar a qualquer farelo de afeto por alguns momentos de divertimento. Mas reiterando, eu sou um cara calvo. O que eu penso que sou? O calvo príncipe William? Afinal, o que eu quero nessa vida?

Hoje, descobri que uma pessoa se prostitui. Isso me deixou bem triste. Talvez seja o motivo da minha tristeza de hoje. Eu realmente não consigo julgar. Aliás, nem cabe a mim qualquer tipo de julgamento nesse sentido. Mas eu me sinto triste em pensar que alguém se prostitui por necessidade. É um sentimento de que todos falhamos e não fomos capazes de evitar algo assim. Eu sinto nojo e meu estômago chega revira só de pensar em alguém tendo que se prostituir. Eu tinha vontade de dar tudo que tenho na minha conta pra essa pessoa. Talvez, se eu fosse só na vida, eu faria isso. Prevejo que serei um velho muito solidário, se sozinho eu for.

Nessas horas, eu penso que eu realmente tenho um coração bom. Eu me revolto com coisas que eu deveria me revoltar, me entristeço com coisas que eu deveria me entristecer, mas eu estou preocupantemente calvo. E isso, não é suficiente para resolver meus problemas. Eu realmente nutri algum afeto por todas as pessoas que me disseram que eu seria um cara legal, mas que elas não estavam em um bom momento na vida para se envolver com ninguém. Eu não julgo mais a verdade dessa justificativa, porque não cabe a mim julgar onde mora a verdade no que as pessoas dizem para a gente com ar de verdade. Me resta querer acreditar em todas as pessoas. Eu sempre acredito no que me dizem. E, por isso, eu só fiquei com a parte que me interessa dessas justificativas, qual seja, aquela que diz que eu sou um cara legal. E assim, vocês criaram um monstro, porque nunca me disseram que o problema seria eu ser calvo, magro, pau grande, morar com a mãe, ter paladar infantil, ser muito doce e outros defeitos do tipo. Vocês me enganaram, pois falaram apenas que eu era um cara legal. Deixaram a mim a tarefa de descobrir todo o resto. Triste.

E assim, vamos. Tentando ser menos calvo, menos magro, menos pau grande, menos apegado com a mãe, menos paladar infantil e tentando exercitar um temperamento mais rude e grosseiro. No fim, tudo parece um grande jogo, cujo único sentido seja trabalhar e deixar-se ficar calvo quando a vida quiser deixar. Se tiver como evitar que alguém se prostitua na vida, o faça. Ninguém merece vender o corpo para sobreviver. A mim, resta crescer. Jogar, viver, deixar viver e, porque não, deixar morrer. 

Me desculpem, seus cringes. Hoje eu tô triste. Não tenho outro motivo para escrever. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Lamento urbano

Ela não aprecia o que eu escrevo;
É de uma indiferença comovente.
Talvez, algum juízo de valor;
Quem sabe uma reprovação.

Eu me decifro nas palavras
E me complico nelas também.
Com as mesmas que escrevo
Eu ouço o que não digo.

Há uma profunda contradição
Em escrever o que não diz
E em dizer o que não escreve.
Afinal, para que escreves?

Escrevo pela companhia,
Pelo soco na solidão,
Pela consciência perdida
E em busca de perdão
Ou paixão.

De onde escrevo já não há luz,
Além da terça-feira que invade
Com cobranças
De um dia da semana infeliz.

Tenho pena das terças;
Nunca serão como as sextas.
Tenho pena dos meus sentimentos;
Nunca serão mais que momentos.

Não rimo mais,
Só lamento.
Não acredito mais,
Só invento.

Há coragem na resignação,
Aprendizado na frustração.
Sem afeto na paixão,
Só lamento no coração.

domingo, 12 de janeiro de 2020

Domingo

Há um escrito que foi ocultado, como nos tempos do cheiro de carne humana na brasa. A heresia nele contida foi a revelação do amor - palavra/sentimento proibido por quem não se quer deixar amar. Por respeito, fez-se apócrifo o sentimento verdadeiro.

Segue quente. Muito quente. É verão e aquela besteirada toda. Que passe o quanto antes, o sertão vire mar e isto aqui se torne uma Inglaterra de frio - como o seu coração.

É ano novo. Mas seguimos perdendo tempo. Quando acordar, já serão 22h e os braços já serão outros. Será tarde, mas as escolhas terão seus resultados. Tarde da noite, resta dormir e tentar esquecer algumas escolhas e as oportunidades perdidas por indecisão. E tentar sonhar com algo que não se viveu e que, talvez, jamais será vivido.

A vontade, como dito no apócrifo, é abraçar-lhe, beijar-lhe a testa (e que testa) e dizer que está tudo bem e que nada lhe deixarei acontecer. Isto soa bonito, puro, meio parnasiano, uma coisa rural. Mas não é o suficiente. E o que há de errado nisso? Nada. Ninguém é obrigado a ser recíproco. E quando se percebe esta verdade imutável, não se sofre e não se aprisiona.

Aliás, Belo Horizonte é uma merda. Não que tenha a ver com este texto, mas sempre que possível, é necessário que se diga, para que não haja dúvidas: Belo Horizonte é uma cidade bem bosta. Dia desses ouvi que algo "parece merda, mas é delícia". Isto não se aplica a Belo Horizonte, felizmente.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Blasfêmia

A ordinariedade do que é pago é um misto de destempero com ignorância - a mesma que me faz escrever "ordinariedade" ao invés de "ordinarice" ou "safadeza".

A cretinice prevalece sobre a seriedade e a responsabilidade.

Rio acima há uma Rondônia de emoções e uma São Paulo de solidão.

O verão é a estação mais pobre - e triste. Toda aquela bobeirada padronizada de sol e praia. Ora bolas! Ao sul da linha do pecado é sol e praia o ano todo. E curvas nos catiras de uma mulher. Qual a novidade?

A novidade é a frieza travestida de ingratidão.

Que cada um viva sua luz e seu amargor. Só não pode vacilar. Nessa de tem sol na ponta do deque, o padre subiu aos céus levado por balões.

Dizem que a beleza está na aleatoriedade, na mistura das tintas, das peles e das palavras. Também acho.

Palavras ao vento.

Gritos no deserto.

(Me) Escreva.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Ele não

Quando dizem que não está acontecendo nada é porque algo está acontecendo.

Um mistério. Não o de feiurinha. Mas um mistério.

Todos eles merecem a oportunidade do "sim", inclusive mais de uma vez; ele não.
Todos eles merecem momentos de doçura e de piadas com cumplicidade; ele não.
Todos eles merecem o perdão e a tolerância; ele não.
Todos eles merecem o interesse e o frio na barriga; ele não.

A ele, cabe o compartilhamento dos momentos de incerteza, dúvida, desengano, tristeza e, amizade.
A ele, cabe o ouvido e, não a boca.
A ele, cabe ser compreensivo e conselheiro; não o Antônio, um antônimo, talvez.
A ele, cabe o descarrego de indiferença, silêncio e ignorância.

A alquimia do ser.

Nele, humildade se torna vaidade.
Nele, experiência se torna prepotência.
Nele, qualidade se torna defeito.
Nele, carinho se torna apego.

Distanciamento.

Em nome da proteção, recomendou-se o isolamento.
Em nome da quarentena, recomendou-se a noventena.
Em nome da razoabilidade, recomendou-se o extremismo.
Em nome da fidelidade, recomendou-se a promiscuidade.

Fome.

Um Big Mac de indignação.
Um peroá de rejeição.
Uma paçoca de frieza.
Uma lasanha de frustração.

Não queira ele ser eu.

Eu não.

domingo, 3 de março de 2019

Desonra

Com um longo delay, enfim assisti o filme "O último samurai", o qual inspirou o assunto desta postagem.

Em tempos de relativização, a própria ideia de honra tornou-se fluída. Em alguns momentos parece até que as pessoas não se preocupam em ser honradas.

Como o filme demonstra, a ideia de honra e de vergonha andam diretamente atreladas, surgindo assim a ideia de que nos desonra aquilo que nos envergonha profundamente. O problema é que se sentir profundamente envergonhado é algo muito subjetivo, sendo que nem sempre aquilo que considero uma grande vergonha é também para outra pessoa.

Isto me faz pensar que, no fim das contas, só sabemos o que nos desonra quando paramos para pensarmos com nós mesmos quais são os nossos valores e limites. Ocorre, entretanto, que nos tempos atuais não temos tanto tempo para visitarmos nossa própria consciência, de modo que não raro as pessoas não se sentem desonradas até que venham a vivenciar uma experiência realmente digna de todo o pudor.

Tento fugir dessa ideia, mas é recorrente em meus pensamentos o sentimento de que as pessoas levam vidas completamente afastadas de qualquer honra, dispostas a tudo e muito pouco sujeitas a constrangimento. Isto muda quando falamos dos tribunais, onde muitos se "sentem" extremamente sensíveis e portadores de grande honra quando o assunto é uma potencial indenização por danos morais.

Hoje, as pessoas não parecem ter a necessidade de manter a palavra por honra ou tampouco de assumirem publicamente seus erros.

Enquanto em "O último samurai" um guerreiro é capaz de tirar a própria vida diante de uma profunda desonra, hoje somos capazes de tirar da própria vida qualquer ideia de honra, de modo a facilitar a tomada de decisões.

Penso que ser honrado é saber o limite da sua vergonha, envolve autoconhecimento, autocrítica e paz interior. Saber o que me desonra é libertador e pacificador.

Costumo dizer à minha mãe que se um dia eu cometer um crime, ela não terá a desonra de me ver mentir, pois irei assumir o que eu tiver feito. Minha honra envolve não negar meus erros e assumi-los, envolve não mentir e ter a paz de que não há nada mais a esconder. Esta seria a maneira de eu recuperar minha própria dignidade diante de um mal feito.

Mas esta é a minha medida da honra.

Não é possível impor nossos padrões honrosos a terceiros, esperar que os outros ajam com um padrão ético pessoal similar ao nosso.

Falar de honra às vezes parece papo de gente hipócrita, que não reconhece suas falhas morais e que busca apontar desvios nos outros. Não cabe aos outros medir nossa honra e nem nos atribuir desonra.

O que eu realmente aspiro é que as pessoas de fato tenham alguma honra, algum limite moral e senso crítico sobre si mesmas, de modo que consigam evoluir como pessoas.

No fim das contas, saber o que nos desonra é necessário para guiar algumas de nossas escolhas na vida.

Eu sei o que me desonra e é no sentido contrário disto que eu devo guiar minha vida, para que eu possa viver com mais paz e sem fantasmas.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Sara

Malandro não para, só dá um tempo...

O mundo anda muito chato ultimamente. Aliás, as pessoas andam muito chatas. Histéricas demais, mais precisamente. Um absoluto descontrole. Gritos, rosnados, mordidas, tiros e tudo mais que seja ariano e impulsivo. Um saco.

As pessoas andam muito extremas, armadas com pistolas ou balanças de julgamento nas cinturas. Primeiro atiram e depois julgam.

Perdi um pouco do encanto de escrever, de debater, de ensinar e (porque não) de aprender. Tudo anda muito à flor da pele. 

Voltamos aos tempos em que as pessoas acreditam em ameaça socialista, em necessidade de combater a expansão dos costumes e ideologias que ameaçam a família. Eu realmente ando sem paciência para conversar com essa gente sobre sociedade/política. Não consigo. Simplesmente não consigo.

Comprei uma piscina de plástico e coloquei na varanda do meu apartamento. Não quero saber de mais nada. Só me interessa assistir mesas redondas de futebol e conversar sobre amenidades.

Por menos praia e mais educação. Menos sol e mais inverno. Os tempos de frio ensinam e os dias de calor desatinam. Talvez seja isto: o aquecimento global queimou nossos miolos e elegemos um cara teimoso e retrógrado. Odeio gente teimosa. Na teimosia falta humildade, sobra orgulho e extremismo e escolhas impulsivas. Mas o que é a vida senão uma sucessão de escolhas burras? O problema é quando nós é que precisamos suportar as consequências das escolhas burras do outros e, pior, ter que corrigi-las.

Um freak show.

Estou me tornando, além de velho, um cara chato e azedo. Mas um cara azedo doce, tipo agridoce (aliás, odeio molho agridoce), para o qual as pessoas ainda olham com olhos de carinho e ternura. Esta é a minha salvação, saber que as pessoas ainda gostam de mim e, inclusive, me leem. Inclusive, se eu pessoalmente te falei deste blog é porque gosto muito de você e confio meus sentimentos e pensamentos a você. Não que seja uma honra, mas uma mostra de profundo respeito e consideração por sua pessoa, afinal, não me interessam os holofotes, elogios e etc em torno do que escrevo por aqui. Em tempos de extremismo, ter alguém com quem compartilhar nossos pensamentos, sem medo de tomar um tiro ou ter o coração pesado na balança de Anúbis, é uma honra.

Mas escrever tornou-se subversivo, coisa de ideologia marxista. Então tenho dedicado meus dias a trabalhos braçais, mesas redondas de futebol, pornografia e ao estudo adestrado para concursos. Daqui a pouco, vou capinar um quintal, pela honra do meu querido Brasil. Então não me julgue e não me espere para o próximo texto, porque pode demorar.

Brasil!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Amanda

Hoje é dia de texto "choro no banho". Uma "fraquejada", como andam dizendo por aí.

Há um ano e um mês eu escrevi um dos textos mais polêmicos deste blog, na impulsividade de um teclado de celular, deitado em um sofá de uma sala escura da casa de um amigo, numa madrugada de domingo para segunda.

Eu poderia apenas ter ido dormir na cama, mas não... Insisti em ficar escrevendo no breu, na telinha de um celular. Fiz merda. Fui babaca, em alguma medida. Chateei talvez a garota de quem eu mais gostei nos últimos anos.

Hoje penso que fui vaidoso de certo modo.

Se nada acontece, eu também tenho culpa. Muita culpa, talvez. Quem sou eu para me julgar uma "escolha excelente"? Quem sou para me julgar um não-babaca? Fui presunçoso. Quem sou eu para me julgar um cara legal?

Aquilo que considero virtudes pessoais podem ser grandes defeitos na visão alheia. E foda-se. Como disse um amigo meu um tempo atrás, somos babacas grande parte do tempo e estamos em constante luta para tentar não sermos. No fim, é meio isto. Sou mais um babaca, preconceituoso...

Não sou uma escolha melhor. Talvez só uma escolha como as demais. Demorei um pouco a entender isto, porque isto envolve autocrítica e parar de acreditar naquele papo de "você é tão legal, tudo que eu sempre busquei, mas não vai rolar". Tenho me incomodado cada vez menos com as recusas, me recuperado com uma estranha celeridade. Isto me faz sentir-me meio babaca e descrente, mas ao mesmo tempo me sinto mais forte. Menos humano, talvez.

Mais cabeça de gelo, mais "foda-se" e menos sentimento. Uma pena, em alguma medida. Nos últimos 3 anos saí de dentro de minha concha e me ofereci às pessoas, de peito aberto, com intensidade. Tudo está dando certo na vida, resolvi tentar tornar esse "tudo certo" em algo ainda mais completo, alcançar a fronteira final: minha vida afetiva. Fiz coisas que nunca antes tinha tido disposição em fazer. Me empenhei em tentar. Por 3 anos eu resolvi buscar a satisfação afetiva em detrimento das demais. Não busquei "o amor da minha vida". Busquei envolvimento afetivo, misturar as tintas. Falhei, como no aprendizado do inglês. Falhei. E na vida se falha.

Quando se falha, é preciso investigar os motivos. Quando eu penso que estou sendo legal, eu posso estar sendo chato. Quando penso que estou sendo flexível, eu posso estar limitando a liberdade alheia. Quando penso que estou tocando o coração das pessoas, eu posso estar sendo um "romântico" inoportuno. 

Preciso pensar. Entender. Aos 13 anos, pedi um beijo e ganhei um beijo dentro do ouvido. Me retirei de qualquer vida afetiva por 12 anos e só voltei aos 25 anos de idade. Nos últimos 3 anos eu realmente fiz da vida afetiva uma das minhas prioridades, após ignorá-la por anos focado em outros projetos. Eu quis desta vez ter uma vida assim. Quis e tentei. Mas não deu.

Falhei novamente. Tentei tocar o coração das pessoas. Toquei somente o coração que eu não poderia tocar. O resto foram recusas. Recusas justas, afinal. Agora entendo. Me vejo como um homem comum, repleto de defeitos como os demais. Nada de "escolha excelente".

Não dá para continuar falhando sem parar para refletir.

Talvez seja hora de se retirar novamente e deixar pra lá esse negócio de vida afetiva. Me repensar como pessoa. Só voltar quando for hora. Estudar, trabalhar... Levar uma vida como era antes de eu me oferecer às pessoas. Neste momento, sinto que talvez seja a hora de voltar para dentro da concha, do meu mundinho.

Não estamos neste mundo para ser a escolha "suficiente" ou "excelente" de alguém. Tudo que quero é ser um cara cada vez mais honesto e decente. Se eu for honesto e decente, vou sentir-me bem diante do mundo, sendo ou não a escolha de alguém.

Aquela garota, hoje namora. Mudou de planos sobre namorar, ao que parece. Ou talvez o problema estivesse só em mim mesmo. E se for isto, eu tô muito de boa com isto. Porque hoje consigo ver o quanto sou falho. Enfim! Invejo um pouco o cabra que conseguiu tocar o coração dela. Mas e daí? Quero que ela seja feliz. E eu preciso parar de invejar aquilo que não fui capaz de conquistar.

Vou sossegar, viado. Estudar e trabalhar. Tentar ser honesto e decente.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Sad dog

Prefiro os cachorros tristes;
Aqueles de orelhas caídas,
Olhar perdido
E latidos mudos.

Instintos sob controle,
Bestialidade castrada,
Impulsividade contida
E tristeza em vida.

Nem todo cabra está pronto para viver o preto.

Há virtude na tristeza
E coragem na resignação.

Respeito a falta de vida,
A monotonia escolhida,
A desolação sentida,
A solidão.

Me atrai o silêncio,
A paz negra,
A alegria triste
E a escrita suja.

Vejo bravura em Cash,
Em ser o que se é:
Um solitary man,
A man in black.


sábado, 1 de dezembro de 2018

Ana Marcela

É preciso buscar nas pessoas o que elas têm de melhor. Aliás, não é preciso necessariamente buscar, mas conseguir enxergar.

Não há inverno que dure para sempre e nem pessoas sem qualquer qualidade. Assim como as estações se alternam a cada 4 meses, as pessoas mudam, mas em uma frequência maior. Os quereres de agora não são mais os quereres de anos, meses, dias ou até mesmo de horas atrás. Somos "metamorfoses ambulantes". Estamos mudando a todo o tempo, ainda que com diferentes velocidades.

Por mais corrompidas e viciadas que as pessoas possam aparentar ser ao nosso subjetivo julgamento, todas elas trazem em si qualidades. Saber descobrir, conseguir enxergar e bem utilizar estas qualidades é um grande, porém, delicioso desafio.

Alguém já disse, em algum lugar, que um desafio é um problema que escolhemos ter, ao passo que um problema é um desafio que não escolhemos ter. Decifrar as pessoas deve ser visto como um desafio. Um desafio que se renova na metamorfose dos anos, meses, dias e horas.

Dispor-se as explorar as qualidades do outro é, em alguma medida, um exercício de humildade, de reconhecimento das potencialidades que o outro pode ter.

Em um mundo onde tudo é cada vez mais relativo (para o bem e para o mal), às vezes é preciso relativizar aquilo que vemos como defeito para, só assim, conseguir enxergar qualidades no outro. O preconceito cega e impede que consigamos enxergar o que as pessoas podem ter de bom.

Óbvio que todos nós temos nossa própria régua daquilo que julgamos ser um defeito ou uma qualidade e do quanto algumas características alheias podem nos parecer inaceitáveis/insustentáveis. Mas por mais paradoxal que isto possa parecer, é preciso enxergar além do "dark side of the moon" das pessoas. 

Em uma sociedade cada vez mais individualista e vaidosa, tendemos a buscar primeiro os defeitos alheios do que suas qualidades. Talvez inclinados pelo senso contemporâneo de que o inferno são os outros. Em verdade, somos todos céu e inferno, sol e tempestade. Fechamos os olhos ao que as pessoas têm de brilho e buscamos avidamente pelo o que elas têm de trevas e de menos notável. Talvez por um senso de sobrevivência, de busca por proteger-se do outro, ou então, também pode ser um reflexo de nossa necessidade de, ainda que implicitamente, buscarmos nos afirmarmos como superiores em uma sociedade onde tudo é cada vez mais concorrido e sujeito a likes e dislikes.

Costumo dizer que a história é escrita pelos "vilões" e pelos "malvados" e que os homens "bons" não marcam a história. O que as pessoas apresentam e fazem de ruim parece ter um impacto muito maior sobre nós do que aquilo que elas fazem e são de melhor. As lembranças e a história, assim como o noticiário, tendem a buscar as coisas ruins em detrimento das coisas boas; assim, ficamos sempre com a sensação de que as pessoas e o mundo são mais ruins do que bons. 

Ora, a mesma humanidade que produziu armas de destruição em massa foi a humanidade que encontrou diversas curas para salvar mais vidas do que as armas são capazes de ceifar diariamente. A mesma humanidade produziu Jesus Cristo e Adolf Hitler. Cabe a nós escolher qual lado estaremos mais dispostos a enxergar.

Uma vez, em um rápido papo de viagem de ônibus, perguntei a um colega de trabalho como ele percebeu e decidiu, de certa forma, que a esposa dele era a mulher com quem ele queria construir uma vida a dois e ter filhos. Em resposta, ele me disse, em suma, que todas as pessoas têm muitas qualidades e defeitos e que a esposa dele foi a pessoa com quem ele se relacionou cujos defeitos menos lhe incomodaram e mais eram toleráveis. 

Ou seja, ele escolheu sua esposa, em alguma medida, sopesando o quanto os defeitos dela eram menores do que os de outras pessoas, segundo o padrão estabelecido pela régua pessoal dele. Achei este ponto de vista intrigante. Óbvio que ele avaliou as qualidades dela, mas os defeitos tiveram um papel primordial no processo de escolha. 

Para entender este raciocínio, cheguei à conclusão de que, no fim das contas, ele relativizou os defeitos dela a ponto de eles tornarem-se pouco relevantes e as qualidades se sobressaírem. E aí tudo fez sentido para mim e corroborou minha ideia de que para ver as qualidades não precisamos ignorar os defeitos, mas não deixar que eles ofusquem o que as pessoas podem guardar de melhor.

É preciso escolher um referencial: enxergar com mais interesse o que as pessoas apresentam de melhor ou aquilo que elas apresentam de pior.

O relevante é o ponto de encontro entre tudo aquilo que somos e aquilo que efetivamente interessa às pessoas. Então, se aquilo que interessa ao outro é o que temos de defeitos, o que nos tornará relevante ao outro será aquilo que somos de ruim, e não todo o resto que temos de bom. Daí a importância de percebermos, o quanto antes, qual referencial temos buscado nas pessoas, para que saibamos o que tornamos relevante nas relações humanas e possamos mudar o referencial adotado.

No fim, somos todos imperfeitos e falhos. Somente quando nos damos conta disto é que passamos a dar valor e a respeitar as virtudes alheias.

O mundo é bão e as pessoas também.

sábado, 24 de novembro de 2018

Maria Sofia

Amanhã, na alvorada do dia, vou para meu julgamento racial. Quis o destino que o tribunal fosse no mesmo lugar onde tudo se tornou possível, atrás dos muros do local que mudou minha vida, para sempre.

Mas não é de cor, de raça (no sentido de força criativa) ou de "choro no banho" que venho falar desta vez. 

Venho falar de humildade.

Meu julgamento racial me fez pensar no quanto hoje somos tão bélicos, tão conflitantes e pouco dispostos a aceitar decisões e escolhas sem recorrer. Além do senso crescente de irresponsabilidade que torna ninguém responsável por nada, vivemos uma época em que ninguém aceita nada. E isto, muitas vezes, é fruto de um orgulho fudido que cega as pessoas e faz com que elas não tenham humildade de reconhecer que podem não estar certas.

Isto se reflete em todas as áreas.

Na Era da Informação, todo mundo se sente meio dono da razão e do conhecimento, capaz de, muitas vezes sem embasamento algum, não aceitar as decisões/opiniões daqueles que têm muito mais conhecimento sobre algo do que nós mesmos. Recorre-se até sem saber do quê, muitas vezes.

Não se respeita o conhecimento alheio. Não se aceita a opinião alheia.

Isto, a meu ver, é uma puta falta de humildade. Ser humilde não é tudo aceitar sem questionar, mas reconhecer que não temos todo o conhecimento, que estamos errados e os outros estão certos em diversas ocasiões. Óbvio que temos nossos portos seguros, aqueles assuntos dos quais somos profundo conhecedores. Porém, mesmo esses assuntos, não sabemos tudo. Precisamos estar abertos a ouvir e, principalmente, a aprender.

Quando uma pessoa perde a capacidade de ser humilde, ela perde a capacidade de aprender. E quando se perde a capacidade de aprender, se perde a capacidade de evoluir como ser humano e tornar-se melhor. Não sei se a origem da palavra "humildade" é a mesma da palavra "humano", mas penso que muito perdemos de nossa humanidade quando nos deixamos levar por um orgulho cego, por uma vaidade inconsequente e por um enganoso senso de superioridade. Ninguém perde tanto com o orgulho desmedido como nós mesmos. Ser orgulhoso nos torna fechados ao outro, nos fecha ao conhecimento que não temos, nos fecha ao mundo.

Não digo só sobre respeitar o conhecimento alheio. Digo também sobre respeitar a autonomia do outro em sua vida. Quem somos nós para avaliar o acerto ou o desacerto das decisões que as pessoas fazem em suas vidas? Claro que muitas vezes já passamos pela mesma situação e nos sentimos mais experientes e sabedores do que o outro sobre uma decisão de vida, mas as vidas são tão singulares , diferentes umas das outras, que qualquer avaliação sobre o que o outro escolheu fazer de sua vida deve trazer em si a humildade do reconhecimento de que podemos estar errados.

Uma vez, em um debate virtual com um ex-colega de escola, ele escreveu para mim, com o horrendo capslock: "ERRADO! 100% ERRADO!". Deus! Como alguém pode realmente pensar algo assim sobre qualquer coisa acima da terra e abaixo do céu? Como alguém pode ter tanta convicção sobre alguma coisa? Nem sobre nós mesmos somos capazes de ter convicções 100% certas. Quanto mais sobre temas que envolvem divergência de conhecimento.

O mundo precisa de mais humildade. Isto é uma forma de respeito ao outro. Se tudo se sabe, nada faz muito sentido em nossa existência terrena. Deve ser difícil ser Deus. O não saber move, motiva, incentiva. O mundo precisa disto. A humanidade precisa disto.

Uma vez, ao perguntar a profissão de uma pessoa para quem eu prestava meu serviço jurídico, esta pessoa me respondeu um nome de profissão bem estranho, que nem lembro ao certo. Algo do tipo "auxiliar de frios". WTF? Óbvio que perguntei a ele o que um "auxiliar de frios" fazia. Ele ficou emotivo com minha curiosidade, com meu interesse em entender uma profissão tão simples, que consiste em organizar produtos gelados nas prateleiras de supermercados. Tentei explicar para ele que todo conhecimento é válido e que o que ele sabe fazer, eu, com meus 5 anos de universidade, não tenho a menor ideia de como fazer. Tentei explicar para ele que não há hierarquia no saber e que é preciso haver respeito entre os diferentes conhecimentos. Há cerca de um mês eu sequer sabia calibrar um pneu de carro, um conhecimento simples para alguns, mas que eu dependi de um amigo para me acompanhar, me ensinar e eu aprender.

Saberes diferentes não se hierarquizam, mas se complementam e se trocam.

A vida é uma constante troca, inclusive de conhecimento. E isto torna a vida solitária algo incompatível com a essência do que é ser humano.

É preciso humildade para entender que não sabemos tudo, que há coisas que não somos capazes de resolver ou entender sozinhos e que as escolhas/decisões do outro não são passíveis de serem julgadas com certeza de acerto por nossas convicções pessoais.

A vida flui com mais tranquilidade quando se aprende a aceitar que o outro pode deter conhecimentos que não temos. A vida flui com mais tranquilidade quando se aprende que o outro pode ser aquilo que não somos.

Amanhã, aceitarei qualquer julgamento racial, sem recorrer.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Por onde andam?

Os criminosos
Que roubam, 
Mas não matam,
Que poupam o trabalhador.

Os juízes
Que sentenciam,
Mas não julgam,
Que evitam o clamor.

Os religiosos
Que ajudam,
Mas não discriminam,
Que perdoam no Senhor.

Os médicos
Que salvam,
Mas não mercantilizam,
Que curam a dor.

Os profissionais
Que trabalham,
Mas não enganam,
Que honram o labor.

Os casais
Que beijam,
Mas não postam,
Que amam com ardor.

As mãos
Que tocam,
Mas não afastam,
Que abraçam sem pudor.

As mulheres
Que transam,
Mas não ignoram,
Que acreditam no amor.

Por onde você anda?

sábado, 10 de novembro de 2018

Da vaidade

Tudo é vaidade.

Assim diz a Bíblia em uma de suas passagens.

Tudo é vaidade.

Hoje mais do que nunca.

Tempos de egocentrismo, de culto à própria imagem e ao próprio corpo, maximizado pelas redes sociais. Como escrevi há alguns anos, atualmente temos duas vidas: uma real e uma virtual. E a vida virtual é uma vida expositiva, na qual nos expomos e estamos 24 horas por dia acessíveis para sermos vistos e pesquisados. E isto é tentador.

As redes sociais aguçam nossa vaidade. Aos nos exporem, elas nos dão holofote, nos dão um destaque que a vida real só nos dá, em geral, em momentos de grandes feitos pessoais, em datas comemorativas ou quando fazemos alguma merda daquelas. As redes sociais alimentam nosso senso de importância, criam a sensação de que coisas insossas de nossa vida têm relevância e de que existem pessoas interessadas em saber o que andamos fazendo.

Isto pode ter um lado bom, como ajudar a desarmar a bomba depressiva daquelas pessoas que acham que sua vida não tem qualquer importância. 

Mas esta exposição e interação excessiva tem muitos lados ruins. E é isto que eu, no meu azedismo solitário, quero pontuar.

As pessoas andam cada vez mais vaidosas, interessadas em saber a repercussão que suas postagens nas redes sociais terão. Querem saber quem irá curtir suas fotos, quem irá comentar nelas. As pessoas passaram a gostar da sensação de serem visualizadas, contempladas e objeto de atenção. Todos tornaram-se artistas em alguma medida. 

O artista é um vaidoso por natureza, porque tem necessidade de ter sua arte apreciada, ainda que somente por algumas pessoas. Nem sempre quer reconhecimento ou ser compreendido, mas sempre quer ter sua arte apreciada por alguém.

Quem posta fotografias pessoais em rede social não marca a opção "postagem disponível somente para mim". Marca, na pior das hipóteses, a opção "postagem disponível somente para meus contatos". Quer ser apreciado. Se não tivesse este desejo, não postava ou, na pior das hipóteses, postava e nem olharia depois quem curtiu/comentou/interagiu com a postagem (como quem dá um tiro e sai correndo, sem nem olhar para conferir se alguém viu, foi atingido ou se algo aconteceu - o famoso "foda-se"/"caguei").

Quem posta, sente-se artista, em alguma medida. Posta por vaidade, pelo desejo de ter sua vida acompanhada por alguém (ainda que não se saiba ao certo por quem). Mas vaidade é uma merda, porque reconhecimento e protagonismo viciam. E aí, até aquela xícara fria de café ralo vira foto, postagem e objeto de curtidas e comentários. Faz bem ao ego ter seu dia apreciado por alguém, demonstra importância pessoal. É importante saber que alguém se interessa pelo o que fazemos, mas tudo que é em excesso não faz bem (nem o sexo - talvez).

A vaidade corrompe, como a fama. Perde-se um pouco o senso daquilo que realmente é merecedor de importância e de valorização. Passa-se a dar um peso anormal para o que é fugaz e superficial. A vaidade alimenta nosso egocentrismo, mexe com nossos valores. Em geral, pessoas muito vaidosas não são agradáveis, nem sequer prestam muita atenção no que dizemos, exceto quando é um elogio sobre elas mesmas. As redes sociais alimentam essa "antipatia", fortalecem nossa proximidade com aquelas pessoas que estão sempre curtindo nossas postagens, com nossos "seguidores", por exemplo. Elas alimentam nosso estímulo visual, em detrimento dos demais. Mas a riqueza da convivência humana vai muito além do que está ao alcance dos nossos olhos. Envolve coração, mas coração de verdade, e não corações virtuais de curtidas.

Cada vez mais respeito as pessoas "eremitas", que se desligam de todas as redes sociais expositivas. Eu as entendo e vejo muito sentido na escolha delas. Aliás, estou mais perto de eliminar uma rede social do que de passar a usar uma nova rede. Óbvio que as redes sociais aproximam, nos permitem acompanhar os rumos da vida de pessoas com quem não convivemos mais pessoalmente. Mas as redes sociais também afastam. Em nossa vaidade social passamos a dar valor e importância para coisas superficiais, passamos a, em alguma medida, tornar a convivência humana algo mais visual e menos pessoal, tornamos as pessoas um pouco descartáveis.

Talvez eu seja um bobo solitário, no fim das contas. 

Entendo os "eremitas". Eles não fogem das redes sociais porque fogem do contato humano. Fogem porque não aguentam mais este jogo de vaidade, no qual sua importância pode ser medida e comparada por curtidas e comentários virtuais. A vaidade pode ser escravizante, como a fama. E, para alguns, a melhor maneira de tratar isto é buscando uma vida pacata e longe de qualquer holofote. Respeito muito quem tem esta coragem de assumir que, nos fim das contas, só há uma vida digna de ser vivida: a vida real. 

Afinal, tudo é vaidade.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Dos excessos

O que seriam os excessos senão algo que só se constata depois que se concretizou? Não há presente. Há apenas passado e futuro quando o assunto é o que se excedeu. O passado é o contexto no qual a ação se concretiza e o futuro o cenário no qual se colhem as consequências que materializam o excesso.

Em geral, sabemos quando excedemos, quando vamos além daquele limite no qual as coisas ainda são boas. Nem sempre, no entanto, nós nos damos conta do quanto ultrapassamos este limite, e aí entram os outros e a Lei, por exemplo, para nos advertirem sobre isto.

Nisto consiste um dos riscos de uma vida solitária. Quando nós mesmos traçamos sozinhos por muito tempo nossa régua do que é razoável e do que é excesso, sem querer nada e nem ninguém ouvir, viramos monstros de nós mesmos. Vira autofagia. É sedutor não ouvir e nem ter que dar "satisfação" a ninguém, afinal, autonomia e liberdade são fascinantes e motivantes. Mas a vida precisa de limites mínimos bem claros e isto nem sempre nós mesmos estamos muito interessados em fixar em nossas vidas.

Quando se é jovem, a vida parece múltipla e aberta como o universo. Pensar em limites soa algo contrário à ideia do que seja viver. Aliás, viver parece algo sem validade muito certa, como algo que não deve despertar qualquer preocupação.

Aí eis que de uma vida sem limites se deixa alguém de barriga, se mata alguém em um "acidente", se contrai doenças de difícil controle e causamos injustamente dor àqueles que nos cercam ou àqueles que apenas tiveram o azar de cruzar conosco em um momento de excesso.

Exagero, né? Mas um excesso é justamente um exagero. E quando se excede, as consequências podem ser exageradas mesmo, porque se perde o controle.

Mas também existem os "pequenos" excessos, aqueles que parecem inofensivos a nós mesmos porque não deixam marcas imediatas. Por exemplo, quando não se tem qualquer horário minimamente de referência para se deixar adormecer e não se tem qualquer cuidado em dar ao corpo o devido descanso, prolongando sua vida ativa madrugadas adentro, sem perceber acabamos com nós mesmos a longo prazo. Um corpo que não possui quaisquer limites para o descanso é um corpo que tende a tornar-se débil a médio\longo prazo. "Pequenos" constantes excessos de álcool, cigarro e drogas ilícitas, por exemplo, idem.

Existem contas altas que podemos pagar só daqui a alguns anos, mas são cobradas. E o pior é que achamos que alguns excessos só fazem mal a nós mesmos e que ninguém tem que se meter no que fazemos de nossas vidas. Óbvio que não quero ninguém tendo que cuidar de mim em um leito de hospital, tendo que me dar banho, comida ou algo assim, afinal, eu sou pleno, independente e autônomo. Mas isto aos 28 anos. E aos 60 anos de uma vida marcada por "pequenos" excessos? "Ah, quero estar sozinho aos 60 anos e não dar trabalho para ninguém." E isto é escolha, quando somos seres sociais? As relações interpessoais são inevitáveis e o carinho das pessoas por nós mesmos também. Então, é bem provável que, na podridão dos 60 anos, alguém que a gente não queira dar trabalho esteja ao nosso lado querendo cuidar da gente e dividir a conta dos nossos excessos, sofrendo ao nosso lado. E a depender do nosso nível de debilidade, nem conseguiremos evitar isto. Vai ser uma merda, mas não haverá o que fazer lá na frente. Não no futuro.

Quanto pessimismo... Muito texto de tiozão chato, né?

Mas os excessos são assim. Nos deixam péssimos quando nos damos conta deles. E isto não ocorre no presente. Só no futuro.

Não é possível viver sem exceder. Aliás, a vida depende de momentos de excesso para fazer-se vida e ter sentido. Mas é possível se refletir sobre quando excedemos. Em uma de suas Cartas (não vou lembrar qual porque não decoro estas coisas) São Paulo disse que "tudo nos é permitido, mas nem tudo nos convém". E eu achei isto foda demais. Deus não criou o homem para a escravidão, e sim para a liberdade, mas nós, muitas vezes exercitamos nossa plena liberdade de modo que nos tornamos escravos de nossos atos e de nossos excessos. Precisamos exercitar melhor a parte do "nem tudo nos convém", porque a parte do "tudo nos é permitido" é bem clara.

Como dito antes, a gente sabe em alguma medida quando passamos dos limites. Ainda que com algum delay. Triste é quando não temos qualquer noção do quanto estamos vivendo inconsequentemente e precisamos ser lembrados por alguma merda que acontece. Às vezes precisamos que alguém "chame nosso feito à ordem", opine sobre nossos rumos. Nenhuma grande empreitada pode ser planejada/executada com êxito em completa solidão. Assim como também nenhuma empreitada alcança êxito quando não temos disciplina de dizer "não" aos excessos. Costumo dizer que sou um cara fácil: só chamar que eu vou. Adoro gente e convite para fazer coisas. Mas tem horas que ir, ir de novo, de novo e de novo, torna-se excesso. É preciso encontrar a medida, o limite.

Para tudo existem limites. Até a vida necessita do limite imposto pela morte para se completar. E a morte, a depender do que você acreditar, também encontra limite. Nada é pleno, nem meus 28 anos.

Uma vida de completa ausência de controle sobre os excessos não produz muita coisa. Aliás, os excessos raramente nos permitem chegar sem atrasos ao lugar que teríamos condições de chegar antes. É como chuva em excesso na estrada. O excesso de chuva atrasa nossa viagem e, por vezes, não nos permite chegar. Assim são os excessos. 

É preciso cuidado, reflexão e senso de responsabilidade consigo mesmo. Sermos livres e autônomos não significa fazermos "vista grossa" de nossos desvios. Precisamos cuidar melhor de nossas vidas, de nossa saúde e de nossos sentimentos. É preciso verdadeiro amor próprio para deixarmos de nos auto-sabotar, deixar de nos devorarmos por nossos próprios excessos. É preciso verdadeira disciplina e verdadeiro empenho em se controlar, reorganizar-se e seguir viagem. Temos muito a fazer e a viver, em verdadeira liberdade.

domingo, 28 de outubro de 2018

Canto de vitória

Em noite de derrota
Não se sonha,
Perde-se a rota.
Sente-se vergonha.

Muitas perguntas,
Respostas de culpa,
Dúvidas juntas,
Nenhuma desculpa.

Choque de datas,
Uma só ida.
Escolha chata...
Puxa vida!

Houve preparação,
Não faltou raça
E nem coração.
Parece desgraça.

Uma falha estranha
A reprovação custa.
Falta de manha
E desatenção injusta.

Mas você é foda!
Não se entrega.
Pula a corda
E não arrega.

Em alma de liberdade,
Recurso é escravidão.
Mas mostra a verdade
E evita aberração.

Falta tempo,
Caracteres no fim.
Contratempo?
Vai dar sim!

Alegra-me sua história
Nesta noite de morte.
Cantar sua vitória
É a minha sorte.

Conquista com luta
E com raça?
Adoro uma disputa.
Você é uma graça.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Windows

Ao entardecer, os olhos veem muitas coisas.

A intensidade dos raios de sol penetra no mais fundo de nossas retinas e, por vezes, tocam nossa alma. Sente-se a presença de Deus.

Um olhar que não encontra correspondência no fim do horizonte. Os pensamentos voam pelas janelas. Penso no dia de ontem, no dia de hoje e no dia de amanhã, enquanto o dourado do fim do dia invade o ambiente e meus olhos.

Penso em você ao avistar a cidade que se ergue imponente entre prédios, do outro lado do mar que nos separa. Tomado pela paz divina que invade meu ser, anseio por seus lábios. Outra vez.

Até onde meus olhos conseguem ver, vejo a silhueta de um imponente monte, contornada pela delicadeza dos dedos de Deus ao desenhar o entardecer. Penso em quanta coisa cabe na distância que nos separa do limite de até onde nossos olhos podem ver. Mata virgem. Muito a se desbravar. 

Há um mundo para além de nossos olhos, iluminado pela luz do entardecer. Basta olhar pela janela, algum dia, para perceber. É como se Deus nos desse uma oportunidade por dia.

Basta alongar os olhos e contemplar, como quem olha maravilhado de dentro de uma caravela, após dias de viagem entre as tormentas de um mar de problemas, decepções e descrença em relação ao mundo e às pessoas.

Há uma luz que emana do céu, todos os dias. Ela esteve lá todo o tempo, na verdade. É preciso se dar uma oportunidade de enxergar e vivenciar aquilo que está para além de nossos olhos. Encurtar as distâncias e acreditar que pode haver verdade em corações, afinal, nem todos são alguns. Há muita verdade naquilo que os olhos podem dizer e enxergar.

Ao fim, vem o luar, que hoje, como numa conspiração cósmica, a lua está a sorrir. Sim. Um sorriso naturalmente belo e meio desacostumado, como o seu.

Há agora um luar a iluminar aquilo que os olhos não mais conseguem ver, mas querem explorar.

Há muito a se descobrir.

Basta ir até as janelas.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Notas de carnaval

Estes dias vi na TV um programa de talentos musicais nos quais os jurados só tinham como opções as notas 9.7, 9.8, 9.9 e 10.

Para mim, isto foi o reconhecimento de nossa incapacidade, como sociedade, de lidar construtivamente com a crítica.

Naturalizamos a mediocridade. Nos conformamos com coisas feitas com razoabilidade dando a elas status de coisas feitas com excelência. Talvez por isto ficamos meio surpresos quando encontramos um bom serviço, como se encontrar um profissional que realmente seja bom ou excelente fosse a exceção, ao invés de ser a regra.

Quantos encanadores, mecânicos, eletricistas, montadores de móvel, instaladores de internet, taxistas, professores, médicos etc medíocres encontramos por aí. Parece que eles se multiplicam. E são todos pagos. Gente que presta serviço sem preocupação com qualquer padrão de qualidade. Sabe quando você senta num táxi? Não parece muitas vezes que você está fazendo um favor para ele ao invés de estar pagando pelo serviço dele? É tosco, para não dizer indecente.

E a gente se acostuma com isto, com nossa realidade de serviços mal prestados. E no fim, com essa naturalização, nos tornamos complacentes com a mal feito, nos tornamos mais tolerantes e perdemos um pouco de nosso senso crítico.

Você já viu a apuração do desfile das escolas de samba? A regra são notas que variam de 9.5 a 10, sendo que 9.5 torna-se uma nota ruim e uma nota igual ou inferior a 9 só é dada numa situação absurdamente ruim, tipo um carro alegórico travado no meio da passarela ou um acidente durante o desfile. Que mundo é este onde 9.5 é nota baixa? Um mundo de bajulamento, de supervalorização, totalmente destoante do mundo crítico e até do mundo escolar, no qual tirar um 8.5 é uma puta nota e tirar 9.5 é um orgasmo.

Vivemos uma sociedade de baixo nível crítico, no qual ouvir uma verdadeira crítica é confundido com perseguição pessoal, com inveja, despeito, recalque etc.

Em uma sociedade acostumada com coisas mal feitas aceitas como suficiente, a crítica soa como um acinte, como falta de sexo. Somos uma sociedade de mimados e mal acostumados com aquilo que não é bem feito. Somos acostumados com a falta de beleza e de graciosidade que resolve razoavelmente.

Um programa de TV no qual a pior nota possível é um 9.7 é um bom exemplo disto, um bom exemplo de como somos injustos com aquilo que é verdadeiramente bom e o aproximamos tanto daquilo que está longe de ser bom. Separamos por 0.3 o sublime do medíocre. Desestimulamos o trabalho bem feito ao valorizarmos tanto aquilo que não é bem feito. Se ser meia boca basta, ir além do razoável se torna uma questão meramente de consciência, de vontade de fazer sempre o melhor, algo muitas vezes mal compreendido e menosprezado.

No fim, razão assiste a Santo Agostinho: "Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem."

domingo, 27 de maio de 2018

Chulo

Talvez eu devesse escrever mais. Ou menos. É algo compulsivo. Espero que me traga paz.

Algumas coisas simplesmente não acontecem. Por mais que a gente tente, se esforce, se permita, não acontecem. E eu tenho alguma dificuldade em lidar com coisas para as quais não encontro solução.  Principalmente quando busco solução há muito tempo. Orgulho? Não penso que seja. Em uma vida forjada por problemas, sempre encontrar soluções, gambiarradas ou não, parece ser o normal para mim. Gosto do chão de fábrica. De ser operário da vida e encontrar soluções de modo manual, ao invés do automático. Gosto da trocação, de bater e apanhar. Tem coisa que nos faz sentir mais vivos do que as porradas que damos e levamos? Mas tem coisas que não acontecem e não se resolvem, mesmo após incansáveis tentativas. Aí é foda.

É uma merda. Daquelas moles e que ficam garradas no solado e só saem após uma lavagem em casa. Por onde você anda, você sabe que a merda está com você e que aquele cheiro que todos reparam é seu. "Ei, calma galera! Podem parar de procurar. Sou eu o cagado". É tipo isto.

"Não tenha pressa". "Na hora certa as coisas acontecem". "Tudo tem seu tempo".

Ah, é legal. Faz sentido. Mas não enche barriga. Talvez se engravide por causa de coisas assim. Mas se continua com fome.

Eu preciso parar de gostar de brancas. Isto é sério. Não vai acabar bem. Que merda! Era você, galega. Uma vez você me disse que a gente sabe quando é de verdade. Eu acho que era. Mas não vai adiantar te contar. Você diria que é imaturidade de gente inexperiente, que eu não sei o que digo, não conheço o amor e blá blá blá... mas não desta vez. Era você, sua louca. Não sei como te explicar. Teve gente depois de você. Não adiantou. Você foi diferente. Marcou em 2 meses ou menos. Talvez eu não tenha sido um dos melhores com você, mas é porque parecia tudo tão natural e eu me sentia tão eu quando estava com você, que nem vi o tempo passar. Acabei não sendo bom o suficiente. Desculpe. Eu queria ser capaz de te mostrar que todas aquelas merdas que aconteceram antes com você (e foram muitas, ainda me assusto quando lembro) não aconteceriam conosco, porque havia respeito e sentimento de verdade por você. Mas não deu tempo. Enfim, fiquei com o pau na mão hahaha Mas obrigado por aquele beijo que me roubou no ponto de ônibus e que talvez você nem se lembre mais. Acho que esta é uma das lembranças mais doces que tenho da vida.

Tá todo mundo na lona, mas querendo dar lições de felicidade. Uma porra. Um deboche e um saco. Eu ainda não sei qual a minha relação com as redes sociais. Amo e odeio. Me sinto menos entediado e ao mesmo tempo meio irritado. É tudo muito extremo. Lições e ensinamentos gratuitos de gente "feliz" e lugares lindos em meio a um monte de corações vazios e de bundas. As bundas ao menos são bonitas, geralmente. Para não me irritar, só leio as figuras, não leio nada que esteja entre aspas como citação. Um saco. Um deboche.

Daqui a pouco passa.

A vaidade é um problema. Me causa medo. Vaidade cega. Este é o meu problema com a arte. Quem faz arte, em geral, quer ser visto, chamar atenção. E querer ser visto é uma forma vaidade. Tudo é vaidade, já dizia um texto famoso depois de Cristo.

Preciso parar de ter pressa e não aprender a esperar. É isto mesmo. Você leu certo. Vou fazer merda se me apressar e posso fazer ainda mais merda enquanto tiver que esperar. Caralho. Cada um sabe qual é seu ponto fraco e este está me fudendo, talvez desde a infância. Sabe quando você sente que só precisa de uma oportunidade? É tipo isto. Só uma. Eu preciso de só uma. Aí sossego, penso eu, seja se houver sucesso ou insucesso. É uma questão meio pessoal, de provar pra si próprio.

Mas e quem precisa de oportunidade quando se tem com o que se ocupar? O ser humano é um ser social. Tem que misturar as tintas e as peles. Sentir. Se não tiver o coração na ponta da chuteira, para sentir e sofrer, não é digno de viver. Máquinas produzem e obtém reconhecimento e sucesso, mas nunca sentem. Qual a graça de conquistar o mundo e ser incapaz de viver em intimidade com outra pessoa? O outro realmente é necessário, mesmo em caso de sucesso? Sim. É preciso de intimidade, ter alguém que aprecie nossa companhia, com quem conversar naturalmente e fazer coisas que só nós dois curtimos (às vezes em quatro paredes). Sei lá. É preciso de intimidade, ainda que somente para aqueles momentos meio estranhos. Senão, vira uma merda destas: um texto com ar de perturbado e que deixas as pessoas preocupadas.

Está tudo bem, de verdade. Não se preocupe. Realmente está tudo bem. Estou vivo e sinto. Isto me basta.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Reciprocidade

Há nuvens sobre sua cabeça. Consegue ver? Eu queria usar uma outra palavra ao invés de nuvem, tipo "há uma áurea sobre sua cabeça", mas acho que não é áurea a palavra. Talvez seja uma parecida. Se souber qual é, me fale. Preciso sabê-la.

Há quanto tempo que não olha o céu? Elas agrupam-se e desfazem-se. Céu azul e tempestade. Todo o tempo. A vida é feita de sorrisos e lamentos.

É preciso lidar com as decepções. É assim que tem que ser. Saber enxergá-las, lembrá-las, senti-las e deixá-las. Após, o sol brilha. Sempre.

Diga a ela que lhe escreva. Com as palavras, letra e trejeitos dela. Com erros e acertos. Com a cumplicidade que só vocês sabem e que ela finge ignorar. Você parece precisar. Diga a ela. É uma questão de respeito, lealdade e, na pior das hipóteses, um ato de amizade.

Consideração e respeito. Quem ainda o tem? Dá pra acreditar?

Não há momento. Nem bons e nem ruins. Há uma sucessão de acontecimentos. E eles acontecem. Somente acontecem. Tipo merda, sabe? Acontece, às vezes. Mas merdas acontecem.

Há que se respeitar a afinidade. Quando surge naturalmente, deve somente ser seguida e respeitada. Não se pode querer ter controle sobre a afinidade. Não há que se falar em melhor momento ou um mau momento para que ela possa ser mantida.

Diga a ela que fale, que lhe escreva.

Você pode não acreditar, mas estou firme em minhas decepções.

Não há tristeza ou depressão que justifique levar a própria voz da consciência à terapia. Os pensamentos estão em ordem e em paz. Sinto falta. Penso. Mas é contornável.

Você sente o cheiro. Sente que há algo no ar. Mas não há nada, além de nuvens. Céu de brigadeiro. E eu nem gosto tanto de doces. Só de estrelas.

Apenas preciso que me deixem seguir e que parem de me roubar. Não suporto treinar muito para ser roubado.

Acho que preciso somente da humanidade por trás de um bilhete de lealdade e afinidade. Isto me basta.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Séptico

Das patologias humanas, me importa un carajo!

Gente estranha. Estranhíssima. Esquisita. Tipo 3F.

Taras, obsessões, compulsividades, desejos doentios. Segredos.

Vez ou outra aparecem cabeças cortadas por aí, órgãos dilacerados e corpos violados. Selvagens. Animais. Humanos.

É na intimidade da nudez que as almas se comunicam. É na intensidade do beijo que o desejo se revela. É na frieza do sentimento que o coração congela, como o vento da madrugada, que sopra o frio da solidão.

Um jogo. Uma caçada. Ludibriamento. Frustração.

É preciso ser safo. Saber compreender. Saber escapar e ter alguma diversão. Caso contrário, não passará de um depósito de merda, que se renova a cada nova decepção. Um saco de bosta.

Olhos de sereia. Hipnóticos. Fundos como um céu estrelado. Um céu dentro de outro céu. Parece um sonho. Como é lindo o brilho dos seus olhos. A cegueira estrelada esconde o beijo sem nada, fazendo-o parecer apaixonado. Não há nada além de corpos suados, cruzando as mãos em latidos de desejo.

Ao passar, não te resta nada. A sirena se vai. Mas os olhos permanecem. Leva consigo a mente aprisionada na profundidade dos olhos e no rosado dos seios. Ladra. Bonitinha, mas ordinária. Não volta mais. Nem ela e nem a paz.

Corpo febril. Noites ardendo, como malária. Delírios.

Das patologias humanas, eu sou mais um.