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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

July

Por 10,
Muda-se:
A versão
E a gestão.

Depende dos zeros.
Alguns combinam,
Muitos dividem,
Poucos eliminam. 

Nas noites tristes,
Reais não resolvem,
Fantasias consolam,
Centavos rememoram.

Perde-se a rima,
A mina,
Tristeza que desatina,
Sem obra-prima.

Em outros tempos,
Julho era festa,
De uma beleza pueril.
Inocente fantasia.

Hoje, julho foi descrença,
Carrossel de desgraças.
Ensinou com sadismo,
Não houve arcadismo.

Aproxima-se o desfecho,
Mais um fim.
Sem começo,
Um final ruim.

Lamento urbano

Ela não aprecia o que eu escrevo;
É de uma indiferença comovente.
Talvez, algum juízo de valor;
Quem sabe uma reprovação.

Eu me decifro nas palavras
E me complico nelas também.
Com as mesmas que escrevo
Eu ouço o que não digo.

Há uma profunda contradição
Em escrever o que não diz
E em dizer o que não escreve.
Afinal, para que escreves?

Escrevo pela companhia,
Pelo soco na solidão,
Pela consciência perdida
E em busca de perdão
Ou paixão.

De onde escrevo já não há luz,
Além da terça-feira que invade
Com cobranças
De um dia da semana infeliz.

Tenho pena das terças;
Nunca serão como as sextas.
Tenho pena dos meus sentimentos;
Nunca serão mais que momentos.

Não rimo mais,
Só lamento.
Não acredito mais,
Só invento.

Há coragem na resignação,
Aprendizado na frustração.
Sem afeto na paixão,
Só lamento no coração.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Blasfêmia

A ordinariedade do que é pago é um misto de destempero com ignorância - a mesma que me faz escrever "ordinariedade" ao invés de "ordinarice" ou "safadeza".

A cretinice prevalece sobre a seriedade e a responsabilidade.

Rio acima há uma Rondônia de emoções e uma São Paulo de solidão.

O verão é a estação mais pobre - e triste. Toda aquela bobeirada padronizada de sol e praia. Ora bolas! Ao sul da linha do pecado é sol e praia o ano todo. E curvas nos catiras de uma mulher. Qual a novidade?

A novidade é a frieza travestida de ingratidão.

Que cada um viva sua luz e seu amargor. Só não pode vacilar. Nessa de tem sol na ponta do deque, o padre subiu aos céus levado por balões.

Dizem que a beleza está na aleatoriedade, na mistura das tintas, das peles e das palavras. Também acho.

Palavras ao vento.

Gritos no deserto.

(Me) Escreva.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Ele não

Quando dizem que não está acontecendo nada é porque algo está acontecendo.

Um mistério. Não o de feiurinha. Mas um mistério.

Todos eles merecem a oportunidade do "sim", inclusive mais de uma vez; ele não.
Todos eles merecem momentos de doçura e de piadas com cumplicidade; ele não.
Todos eles merecem o perdão e a tolerância; ele não.
Todos eles merecem o interesse e o frio na barriga; ele não.

A ele, cabe o compartilhamento dos momentos de incerteza, dúvida, desengano, tristeza e, amizade.
A ele, cabe o ouvido e, não a boca.
A ele, cabe ser compreensivo e conselheiro; não o Antônio, um antônimo, talvez.
A ele, cabe o descarrego de indiferença, silêncio e ignorância.

A alquimia do ser.

Nele, humildade se torna vaidade.
Nele, experiência se torna prepotência.
Nele, qualidade se torna defeito.
Nele, carinho se torna apego.

Distanciamento.

Em nome da proteção, recomendou-se o isolamento.
Em nome da quarentena, recomendou-se a noventena.
Em nome da razoabilidade, recomendou-se o extremismo.
Em nome da fidelidade, recomendou-se a promiscuidade.

Fome.

Um Big Mac de indignação.
Um peroá de rejeição.
Uma paçoca de frieza.
Uma lasanha de frustração.

Não queira ele ser eu.

Eu não.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Sad dog

Prefiro os cachorros tristes;
Aqueles de orelhas caídas,
Olhar perdido
E latidos mudos.

Instintos sob controle,
Bestialidade castrada,
Impulsividade contida
E tristeza em vida.

Nem todo cabra está pronto para viver o preto.

Há virtude na tristeza
E coragem na resignação.

Respeito a falta de vida,
A monotonia escolhida,
A desolação sentida,
A solidão.

Me atrai o silêncio,
A paz negra,
A alegria triste
E a escrita suja.

Vejo bravura em Cash,
Em ser o que se é:
Um solitary man,
A man in black.


terça-feira, 20 de novembro de 2018

Por onde andam?

Os criminosos
Que roubam, 
Mas não matam,
Que poupam o trabalhador.

Os juízes
Que sentenciam,
Mas não julgam,
Que evitam o clamor.

Os religiosos
Que ajudam,
Mas não discriminam,
Que perdoam no Senhor.

Os médicos
Que salvam,
Mas não mercantilizam,
Que curam a dor.

Os profissionais
Que trabalham,
Mas não enganam,
Que honram o labor.

Os casais
Que beijam,
Mas não postam,
Que amam com ardor.

As mãos
Que tocam,
Mas não afastam,
Que abraçam sem pudor.

As mulheres
Que transam,
Mas não ignoram,
Que acreditam no amor.

Por onde você anda?

domingo, 28 de outubro de 2018

Canto de vitória

Em noite de derrota
Não se sonha,
Perde-se a rota.
Sente-se vergonha.

Muitas perguntas,
Respostas de culpa,
Dúvidas juntas,
Nenhuma desculpa.

Choque de datas,
Uma só ida.
Escolha chata...
Puxa vida!

Houve preparação,
Não faltou raça
E nem coração.
Parece desgraça.

Uma falha estranha
A reprovação custa.
Falta de manha
E desatenção injusta.

Mas você é foda!
Não se entrega.
Pula a corda
E não arrega.

Em alma de liberdade,
Recurso é escravidão.
Mas mostra a verdade
E evita aberração.

Falta tempo,
Caracteres no fim.
Contratempo?
Vai dar sim!

Alegra-me sua história
Nesta noite de morte.
Cantar sua vitória
É a minha sorte.

Conquista com luta
E com raça?
Adoro uma disputa.
Você é uma graça.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Windows

Ao entardecer, os olhos veem muitas coisas.

A intensidade dos raios de sol penetra no mais fundo de nossas retinas e, por vezes, tocam nossa alma. Sente-se a presença de Deus.

Um olhar que não encontra correspondência no fim do horizonte. Os pensamentos voam pelas janelas. Penso no dia de ontem, no dia de hoje e no dia de amanhã, enquanto o dourado do fim do dia invade o ambiente e meus olhos.

Penso em você ao avistar a cidade que se ergue imponente entre prédios, do outro lado do mar que nos separa. Tomado pela paz divina que invade meu ser, anseio por seus lábios. Outra vez.

Até onde meus olhos conseguem ver, vejo a silhueta de um imponente monte, contornada pela delicadeza dos dedos de Deus ao desenhar o entardecer. Penso em quanta coisa cabe na distância que nos separa do limite de até onde nossos olhos podem ver. Mata virgem. Muito a se desbravar. 

Há um mundo para além de nossos olhos, iluminado pela luz do entardecer. Basta olhar pela janela, algum dia, para perceber. É como se Deus nos desse uma oportunidade por dia.

Basta alongar os olhos e contemplar, como quem olha maravilhado de dentro de uma caravela, após dias de viagem entre as tormentas de um mar de problemas, decepções e descrença em relação ao mundo e às pessoas.

Há uma luz que emana do céu, todos os dias. Ela esteve lá todo o tempo, na verdade. É preciso se dar uma oportunidade de enxergar e vivenciar aquilo que está para além de nossos olhos. Encurtar as distâncias e acreditar que pode haver verdade em corações, afinal, nem todos são alguns. Há muita verdade naquilo que os olhos podem dizer e enxergar.

Ao fim, vem o luar, que hoje, como numa conspiração cósmica, a lua está a sorrir. Sim. Um sorriso naturalmente belo e meio desacostumado, como o seu.

Há agora um luar a iluminar aquilo que os olhos não mais conseguem ver, mas querem explorar.

Há muito a se descobrir.

Basta ir até as janelas.

domingo, 22 de julho de 2018

Overtime

Às vezes, a vida é triste como uma eliminação ao fim de uma prorrogação ou de uma série de cobranças de pênaltis.

Na eliminação, não há justiça, só tristeza.

Durante alguns anos, existiu no futebol a figura do "gol de ouro", também conhecido como "morte súbita", segundo a qual, após o empate no tempo normal de jogo, os dois times se sujeitavam a dois tempos extras de 15 minutos (prorrogação), nos quais, o primeiro time a marcar um gol vencia a partida e ela era imediatamente encerrada. Anos de muitas eliminações dolorosas, nascidas de um gol tomado em um curto momento de desatenção e de falha. Um gol inapelável, após o qual não havia mais oportunidade de continuar jogando e tentar vencer. Um gol de despedida, como são os encerramentos inesperados e dolorosos.

Muitas vezes a vida é assim. Somos eliminados sem muita compaixão após um único deslize. Jogar bem nunca garantiu sobrevivência em uma "morte súbita", na qual, como o próprio nome diz, apenas se morre repentinamente, sem maiores oportunidades. Uma eliminação assim é muito dolorosa, impõe a lembrança do erro em looping na memória. Aquele momento de deslize que ocasionou o gol da eliminação é figura recorrente nos pesadelos noturnos. Aquela sensação de boca seca de incredulidade e impotência não passa facilmente. Algumas noites, até se sonha que ao contrário de se tomar o gol da eliminação, foi feito o gol da classificação. Mas ao fim, tudo não passa de um sonho e lá estamos nós novamente, em mais uma manhã, a lamentar o gol sofrido.

Todos nós temos nossos recuerdos dolorosos. Aqueles que não se apagam, como um gol tomado em uma inesperada prorrogação com "gol de ouro". Recuerdos que insistem em não se apagar com facilidade, que deixam sempre mais sentimento de culpa do que de reconhecimento pelo o que foi realizado para levar o jogo até ali.

As noites de eliminação são frias. Tristes. Solitárias. É comum uma lágrima descer e a garganta fechar. A dor do fim e a incerteza de uma nova oportunidade futura, misturada ao apagar dos sonhos que se construiu enquanto a vitória era possível. Nada como o redentor choro de despedida, daqueles que lavam a alma e levam todas as impurezas sentimentais. Queria conseguir chorar neste momento e me sentir livre, mas não consigo. 

Para pôr um fim a esta dolorosa tristeza, eliminou-se a "morte súbita" e manteve-se uma prorrogação na qual os dois times são obrigados a jogar os dois tempos extras de 15 minutos, ainda que um deles marque um gol em algum momento da prorrogação. Justo e reconfortante. Tomar um gol deixou de ser o fim e passou a ser o despertar por uma busca desesperada pelo gol que poderia evitar a eliminação. Muito melhor ser eliminado com o suor convicto de que se lutou até o fim dos 30 minutos de prorrogação do que com as lágrimas de uma eliminação decorrente de um derradeiro gol bobo tomado em um breve momento de desatenção.

Mas, às vezes, uma prorrogação, com ou sem "gol de ouro", não é suficiente para desempatar uma partida. É preciso recorrer-se a uma emocionante disputa de pênaltis.

Às vezes, sinto que chutei para longe o pênalti que decidiu o campeonato. É uma merda. No caminho até a marca do pênalti, tudo o que se pensa, confessam todos os batedores, é se autopreservar, independente que o time vença ou perca. Tudo que se quer é meter a bola na rede e sair com a sensação de que não se foi o culpado pela eliminação do time. Mas, às vezes (talvez a expressão mais usada neste texto), não tem jeito. Isolamos a bola que valia o campeonato.

É doloroso demais perder um pênalti que custa uma eliminação. Um pênalti perdido é uma oportunidade perdida, daquelas que talvez nunca mais tenhamos a chance de reencontrar. Hoje, me sinto um perdedor de pênaltis, daqueles que tem chutado para fora todas as oportunidades de vitória e arrancado lágrimas de quem assiste. Um pênalti carrega em si os sonhos de muita gente, inclusive os seus. É um ingresso de entrada para uma nova batalha rumo à vitória final ou uma porta que se fecha, até daqui a quatro anos ou para sempre.

Quando se perde um pênalti, nunca se sabe o quanto ele realmente custou. Às vezes (de novo), pela idade, pelos envolvidos e pelas circunstâncias, até se sabe que foi a última chance. Às vezes, ainda resta a esperança de uma nova oportunidade. E quem garante? Muitas incertezas na derrota e poucas respostas na tristeza.

A vida é assim.

Entre as lágrimas de uma eliminação, pode até haver abraços de amizade ou aplausos de reconhecimento. Mas o que fica é a culpa pela oportunidade desperdiçada, a incerteza do futuro e los recuerdos dolorosos.

Pênalti, só perde quem bate, quem se oferece a bater. Só sofre quem apresenta coragem de encarar e confiança de vencer. Mesmo com coragem, com bravura, com heroismo, se pode perder. E perder é sempre perder, com ou sem merecimento. O resultado é o mesmo e o sofrimento também. Se pode perder sendo amável e honesto, assim como sendo babaca e canalha. O sabor de derrota é o mesmo. Não há justiça na derrota e, às vezes, nem lágrimas. Só tristeza.

Não falo mais de seios.

domingo, 10 de junho de 2018

En vivo

Sem vida, toda paisagem é morta.
É a imprevisibilidade da vida que traz graciosidade ao belo, e ao feio.
Um corpo que se mexe em meio à paisagem morta ou à lama.
Onde há corpo e movimento, há vida.
Mas sem corpo, não há crime.
Mentira deslavada! Sempre há crime.
E sempre há vida. Pra mais de metro, aliás.
Às vezes mais de uma.
Mas sempre há morte. Uma única.
E entre a vida e a morte, o que há?
Só vida.
Então viva!
Porque enquanto não há morte,
Só há vida.

sábado, 12 de maio de 2018

Você

Seria ela a louca
Dos gatos?
Ou a gata
Dos loucos?

Uma linda morena
De lábios doces,
Como os de Iracema.
Uma índia gauche.

De seios bronzeados
E sorriso largo,
Podem faltar rosados...
Não fica amargo.

Da terra prometida,
Exilou-se na floresta.
Foi salvar vidas
E alegrar a festa.

Fique, morena!
Suba o rio até a foz.
Mas volte, pequena!
Queremos sua voz.

Posso rimar mais,
Mas o que dizer?
Te desejar paz?
Que busque prazer?

Apenas seja você!
Esta encantadora menina.
Sem razão e porquê,
Uma obra-prima.

terça-feira, 27 de março de 2018

Esquina da vida

Em meio ao lixo da noite,
Um corpo se oferece:
Uma alma pura
Cujo corpo perece.

Em uma esquina escura,
Um veículo aparece.
Por disparos de preconceito
Seu corpo desfalece.

Cápsulas,
Um corpo,
E sangue.
Tudo pelo chão.

Dez tiros.
Alguém ouviu.
De quem?
Ninguém viu.

O que dirão os homens?
Mais uma estatística.
Um crime sem resposta,
E sem interesse da polícia.

Vi seu corpo,
Como não gostaria de ver.
Me restam as lembranças
Daquela tarde com você.

Um mês depois...
Você me perdoa?
Só vi porque senti.
Não te esqueci.

Pessoa de bons adjetivos,
Mas será julgada sem razão.
Desculpe-me pelos vivos.
Por eles te peço perdão.

Deus perdoa;
Foi homem,
Viveu o abandono
E morreu de injustiça.

Que na imensidão da morte
Abra-se o caminho da vida,
Cicatrizem-se as feridas
E Sua alma encontre a paz.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Reciprocidade

Há nuvens sobre sua cabeça. Consegue ver? Eu queria usar uma outra palavra ao invés de nuvem, tipo "há uma áurea sobre sua cabeça", mas acho que não é áurea a palavra. Talvez seja uma parecida. Se souber qual é, me fale. Preciso sabê-la.

Há quanto tempo que não olha o céu? Elas agrupam-se e desfazem-se. Céu azul e tempestade. Todo o tempo. A vida é feita de sorrisos e lamentos.

É preciso lidar com as decepções. É assim que tem que ser. Saber enxergá-las, lembrá-las, senti-las e deixá-las. Após, o sol brilha. Sempre.

Diga a ela que lhe escreva. Com as palavras, letra e trejeitos dela. Com erros e acertos. Com a cumplicidade que só vocês sabem e que ela finge ignorar. Você parece precisar. Diga a ela. É uma questão de respeito, lealdade e, na pior das hipóteses, um ato de amizade.

Consideração e respeito. Quem ainda o tem? Dá pra acreditar?

Não há momento. Nem bons e nem ruins. Há uma sucessão de acontecimentos. E eles acontecem. Somente acontecem. Tipo merda, sabe? Acontece, às vezes. Mas merdas acontecem.

Há que se respeitar a afinidade. Quando surge naturalmente, deve somente ser seguida e respeitada. Não se pode querer ter controle sobre a afinidade. Não há que se falar em melhor momento ou um mau momento para que ela possa ser mantida.

Diga a ela que fale, que lhe escreva.

Você pode não acreditar, mas estou firme em minhas decepções.

Não há tristeza ou depressão que justifique levar a própria voz da consciência à terapia. Os pensamentos estão em ordem e em paz. Sinto falta. Penso. Mas é contornável.

Você sente o cheiro. Sente que há algo no ar. Mas não há nada, além de nuvens. Céu de brigadeiro. E eu nem gosto tanto de doces. Só de estrelas.

Apenas preciso que me deixem seguir e que parem de me roubar. Não suporto treinar muito para ser roubado.

Acho que preciso somente da humanidade por trás de um bilhete de lealdade e afinidade. Isto me basta.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Corvo

Amo os dias chuvosos.

Nos dias de chuva, os rostos amanhecem cerrados e assim permanecem por quase todo o tempo. Os sorrisos escondem-se.

Não há o alarde dos dias de sol, os risos e gracejos excessivos. Não há espaço para gritarias rua afora. Não há espaço para ilusionismos de verão, praia e sol. Menos mimimi. Menos disposição para causar. Menos larápios dispostos a andar por aí. Mais vida doméstica e convivência familiar. Mais lazer saudável. Mais descanso e horas de sono. Corpos a frio buscando sexo quente debaixo das cobertas.

A preocupação principal de todos parece ser só encontrar logo um teto para proteger-se e não se molhar muito. Nesta hora, na imensidão dos guarda-chuvas e dos calçados respingados de lama, todos os humanos parecem humanos. Todos parecem iguais. Todos parecem estar na mesma merda. Pensando e praguejando no azar que deram ao molharem-se na esquina anterior. Nada parece tão importante como livrar-se da chuva. Todos vivendo a mesma sintonia negra.

Dias escuros como o preto de minhas asas. Todos apresentam o mesmo ar fechado que eu guardo em todos os dias. Mais silêncio. Mais pensamentos. As pessoas tornam-se reflexivas em si mesmas. Visitam seus demônios. Pensam mais em suas vidas. Pensam nas merdas que andam fazendo. Sentem culpa. Não há para onde correr. Perdem a liberdade sob o olhar da chuva e o molhar das lágrimas.

Me sinto feliz por sentir que todos estão mais parecidos comigo. Mais mortos. Uma felicidade cretina, canalha, de corvo. É contraditório, mas é na escravidão dos dias de chuva que os homens parecem livres como eu, um pássaro. Ponho-me a observar.

Todos parecem corvos.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Séptico

Das patologias humanas, me importa un carajo!

Gente estranha. Estranhíssima. Esquisita. Tipo 3F.

Taras, obsessões, compulsividades, desejos doentios. Segredos.

Vez ou outra aparecem cabeças cortadas por aí, órgãos dilacerados e corpos violados. Selvagens. Animais. Humanos.

É na intimidade da nudez que as almas se comunicam. É na intensidade do beijo que o desejo se revela. É na frieza do sentimento que o coração congela, como o vento da madrugada, que sopra o frio da solidão.

Um jogo. Uma caçada. Ludibriamento. Frustração.

É preciso ser safo. Saber compreender. Saber escapar e ter alguma diversão. Caso contrário, não passará de um depósito de merda, que se renova a cada nova decepção. Um saco de bosta.

Olhos de sereia. Hipnóticos. Fundos como um céu estrelado. Um céu dentro de outro céu. Parece um sonho. Como é lindo o brilho dos seus olhos. A cegueira estrelada esconde o beijo sem nada, fazendo-o parecer apaixonado. Não há nada além de corpos suados, cruzando as mãos em latidos de desejo.

Ao passar, não te resta nada. A sirena se vai. Mas os olhos permanecem. Leva consigo a mente aprisionada na profundidade dos olhos e no rosado dos seios. Ladra. Bonitinha, mas ordinária. Não volta mais. Nem ela e nem a paz.

Corpo febril. Noites ardendo, como malária. Delírios.

Das patologias humanas, eu sou mais um.

domingo, 19 de novembro de 2017

Desembaraço

Às vezes falta um nome,
Alguma palavra de definição,
Para aquilo que nos consome
Sem pedir licença ou perdão.

Pobre condição humana,
De seres vulgo racionais.
Perdemos da vida semanas
Por respostas demais.

A desilusão do passado
Contamina o futuro,
Faz um presente fracassado
E impede o amor puro.

O soneto da liberdade
Não exige sarradas com solidão.
Acredite que há verdade,
Pode me dar o seu coração.

Se eu não for merecedor,
Será justo o seu não amar.
Mas se o motivo for dor,
Podemos ao menos tentar.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Goleiro

Dos 9 anos de idade até os 23 anos de idade, o futebol nunca me ofereceu nada além de ser um goleiro; um razoável goleiro, é verdade. Mas poucas coisas me fizeram tão bem ao longo de todos estes anos.

Os goleiros são como os anjos. Voam pelos ares como se tivessem asas e exercem a nobre missão de proteger sem nenhum sentimento de vaidade.

O goleiro é um destemido. Um bravo. Atira-se em bolas violentas e nos pés de adversários sem medo de machucar-se.

Ao goleiro, só interessa proteger a sua meta e garantir a vitória ao seu time. Todo o resto é bobagem. Não lhe preocupam as lesões.

Os goleiros são heróis. Alguns são santos, fazem milagres. Salvam. Garantem a alegria do povo. Evitam derrotas. Pegam pênaltis. Conquistam títulos. Estes momentos, raros na maior parte do tempo, são sublimes. Toca-se o céu com as pontas dos dedos, sem luvas. E um goleiro jamais esquece.

Mas o goleiro também é um coitado. Falha. Sofre. Vai do céu ao inferno em uma fração de segundos. É criticado, desmerecido, acusado, vaiado, xingado. É o vilão. Quando um gol é perdido, é o time quem perdeu um gol e a responsabilidade se dilui. Contudo, quando um goleiro toma um gol, ele é o principal responsável pela meta violado, no sentir dos torcedores.

No fim, o goleiro é só um homem.

Vence, mas sofre. Mais sofre do que recebe louros. Tem consciência da importância do que é e do que faz. Conhece a dureza de seu ofício. Lembra dos rápidos momentos de vitória, sem esquecer da realidade de joelhos ralados, hematomas, dedos entortados e dos ossos quebrados. Ninguém dentro de um campo imagina as angústias e tristezas que habitam o coração silencioso de um goleiro. Los recuerdos dolorosos. As derrotas e os gols que não se pôde evitar. Um voo mal calculado, um salto retardado, um momento de afobamento ou de excesso de confiança: GOL. A bola está dentro da rede. Resta um olhar resignado para trás. 

Não se deixe enganar. Ser goleiro é conviver com a brevidade do sucesso e a certeza do fracasso. Ser goleiro é uma luta constante contra o insucesso. Saber que mesmo que o time vença, somente ele viverá o fracasso de ter sido vencido em um ou mais gols sofridos. Cada gol tomado é um fracasso, ainda que o time vença. Cada gol que não pôde ser evitado, apesar de todo o esforço, é um fracasso. Uma bola a ser buscada no fundo das redes com o silêncio do coração. Mas um goleiro nunca pode deixar de acreditar, mesmo após mais um fracasso.

No fim das contas, nesta vida, todos somos um pouco goleiros. Temos que lidar com mais frequência com os momentos de fracasso e de dor do que com breves momentos de sucesso e glória.

Porém, somente alguns aceitam a responsabilidade que é ser goleiro nesta vida. Ser goleiro é cuidar e proteger, ainda que sem ser notado. É ser o responsável por proteger o amor de alguém, ainda que em silêncio. Ser goleiro é se machucar, se ralar, se quebrar, mas não deixar a vida de alguém se esvaziar. O sucesso desta empreitada traz ao goleiro grande satisfação pessoal, ainda que uma satisfação silenciosa.

Ocorre que, como dito, os goleiros falham e causam tristeza, mágoa ou chateação, ainda que não tenham agido com más intenções.

Ser goleiro também é admitir seus próprios erros.

Me desculpe.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Segredo

Entre a emoção e a razão
Nem sempre há uma terceira via,
Quando nenhuma resposta é solução,
O acerto torna-se uma utopia.

Separadas pelo Equador,
Uma na outra se mistura.
Como em um baile de cor,
Não há opção que seja pura.

A certeza racional depende de fé,
De uma que seja bem boa!
Capaz de tornar a emoção uma ré,
No meu coração e no da Pessoa.

Mas o céu racional é mal pintado,
Só vai até onde os olhos podem crer.
Pode ser frágil como telhado
Quando o desejo é por você.

O sentimento pinta o céu novamente
Com vibrantes cores vivas.
Traz momentos lindos à mente
E as emoções viram divas.

Mas do fracasso da razão
Não deve nascer o amor,
Talvez um ode à paixão,
Com duração, por favor.

Em coração comprometido
Paixão afeta a normalidade.
Gera ciúme (in)contido
É sinônimo de infidelidade.

A sociedade impõe a dor,
Diz que desejar é uma loucura.
Então se não podemos ter amor,
Deixemos que o sexo seja a cura.

sábado, 15 de outubro de 2016

Mar

O mar não me diz nada.
Deveria me falar?
Não entro nas ondas
E nem me deixo arrastar.

Olha-lo não me traz paz
Não me sensibiliza,
À praia não me traz,
A minha vida não energiza.

Sem seios,
Devaneios,
Rodeios,
Anseios.

As ondas que vem,
As ondas que vão,
Nada me dizem,
Me resta solidão.

Onde falta coração,
Sobra labor.
Se falta sensação,
Não há amor.

Ao menos o som
Mostra-se amável
Confesso que é bom,
Me soa agradável.

Respeito o mar,
Seus marujos,
Iemanjá;
Ainda que sujo.

Talvez seja velhice,
Essa falta de emoção.
Busco a mesmice,
A falta de ação.

Me deixe não gostar.
Não fique pasmo!
Pois mesmo do mar
Vem o marasmo...

sábado, 18 de julho de 2015

Mon Dieu

Acelere!
Para viver.
Acelere!
Para sobreviver.

A vida pode ser veloz,
Não há tempo a perder.
Acelere no limite
Ainda que sem vencer.

Numa manhã estranha,
De tristeza tamanha,
Não deu para ganhar
E a morte ultrapassar.

Um choque forte
Que na TV não se pôde ver.
Silêncio obscuro,
Sem festa e lazer.

Assim se foi...
Mais um herói humano,
Um desafiante de máquinas,
Um domador de motores.

Foste bravo em Monaco,
Geraste alegria com dois pontos.
A lembrança dessa singeleza
Afasta um pouco da tristeza.

É hora de acelerar em outras pistas,
Vencer inesquecíveis corredores,
Contornar as curvas celestes
E beber champagne de outros sabores.

Vá, Bianchi!
O sofrimento acabou.
Será um eterno jovem
Na mente do torcedor.

Em memória de Jules Bianchi
Jules Bianchi