Mostrando postagens com marcador azedismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador azedismo. Mostrar todas as postagens

sábado, 26 de junho de 2021

Triste

 Escrevo aqui, primeiro, porque ninguém mais lê blogs, então, o que aqui estiver, pouco ou nunca será lido. Blog tornou-se "cringe". Segundamente, se é que essa palavra existe, escrevo porque hoje estou triste e este é o único sentimento que eu realmente não gosto de compartilhar.

Constatei, hoje ainda, que estou cada vez mais calvo. Isto nunca me incomodou verdadeiramente, mas confesso que me assusta em alguma medida observar o quanto meus cabelos estão simplesmente parando de crescer na parte frontal de minha cabeça. Muito rapidamente. Talvez aos 35 eu não terei mais cabelo algum na metade da frente da cabeça. Confesso que essa velocidade me assusta, mais do que o ritmo de derretimento das geleiras e o aquecimento global. Eu espero que até os 35 eu encontre alguém que realmente não se importe de amar um cara calvo.

Por falar nisso, eu acho que sou orgulhoso em alguma medida. Sexo é bom, mas isso não significa que eu deva instalar o Tinder para transar com as pessoas. Por outro lado, eu me considero realmente um cara legal. Talvez isto seja um referencial errado. Mas eu me acho legal (ou acredito demais em quem diz isso sobre mim). E por me achar um cara verdadeiramente legal, eu sou orgulhoso o suficiente para não correr atrás de quem eu acho que possa ter me esnobado. E isso é muito louco, porque eu sou um cara cada vez mais calvo e que, de vez em quando, também precisa transar.

Talvez, mais forte em mim do que o desejo sexual seja o senso de orgulho pessoal, de não me sujeitar a qualquer farelo de afeto por alguns momentos de divertimento. Mas reiterando, eu sou um cara calvo. O que eu penso que sou? O calvo príncipe William? Afinal, o que eu quero nessa vida?

Hoje, descobri que uma pessoa se prostitui. Isso me deixou bem triste. Talvez seja o motivo da minha tristeza de hoje. Eu realmente não consigo julgar. Aliás, nem cabe a mim qualquer tipo de julgamento nesse sentido. Mas eu me sinto triste em pensar que alguém se prostitui por necessidade. É um sentimento de que todos falhamos e não fomos capazes de evitar algo assim. Eu sinto nojo e meu estômago chega revira só de pensar em alguém tendo que se prostituir. Eu tinha vontade de dar tudo que tenho na minha conta pra essa pessoa. Talvez, se eu fosse só na vida, eu faria isso. Prevejo que serei um velho muito solidário, se sozinho eu for.

Nessas horas, eu penso que eu realmente tenho um coração bom. Eu me revolto com coisas que eu deveria me revoltar, me entristeço com coisas que eu deveria me entristecer, mas eu estou preocupantemente calvo. E isso, não é suficiente para resolver meus problemas. Eu realmente nutri algum afeto por todas as pessoas que me disseram que eu seria um cara legal, mas que elas não estavam em um bom momento na vida para se envolver com ninguém. Eu não julgo mais a verdade dessa justificativa, porque não cabe a mim julgar onde mora a verdade no que as pessoas dizem para a gente com ar de verdade. Me resta querer acreditar em todas as pessoas. Eu sempre acredito no que me dizem. E, por isso, eu só fiquei com a parte que me interessa dessas justificativas, qual seja, aquela que diz que eu sou um cara legal. E assim, vocês criaram um monstro, porque nunca me disseram que o problema seria eu ser calvo, magro, pau grande, morar com a mãe, ter paladar infantil, ser muito doce e outros defeitos do tipo. Vocês me enganaram, pois falaram apenas que eu era um cara legal. Deixaram a mim a tarefa de descobrir todo o resto. Triste.

E assim, vamos. Tentando ser menos calvo, menos magro, menos pau grande, menos apegado com a mãe, menos paladar infantil e tentando exercitar um temperamento mais rude e grosseiro. No fim, tudo parece um grande jogo, cujo único sentido seja trabalhar e deixar-se ficar calvo quando a vida quiser deixar. Se tiver como evitar que alguém se prostitua na vida, o faça. Ninguém merece vender o corpo para sobreviver. A mim, resta crescer. Jogar, viver, deixar viver e, porque não, deixar morrer. 

Me desculpem, seus cringes. Hoje eu tô triste. Não tenho outro motivo para escrever. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

July

Por 10,
Muda-se:
A versão
E a gestão.

Depende dos zeros.
Alguns combinam,
Muitos dividem,
Poucos eliminam. 

Nas noites tristes,
Reais não resolvem,
Fantasias consolam,
Centavos rememoram.

Perde-se a rima,
A mina,
Tristeza que desatina,
Sem obra-prima.

Em outros tempos,
Julho era festa,
De uma beleza pueril.
Inocente fantasia.

Hoje, julho foi descrença,
Carrossel de desgraças.
Ensinou com sadismo,
Não houve arcadismo.

Aproxima-se o desfecho,
Mais um fim.
Sem começo,
Um final ruim.

Lamento urbano

Ela não aprecia o que eu escrevo;
É de uma indiferença comovente.
Talvez, algum juízo de valor;
Quem sabe uma reprovação.

Eu me decifro nas palavras
E me complico nelas também.
Com as mesmas que escrevo
Eu ouço o que não digo.

Há uma profunda contradição
Em escrever o que não diz
E em dizer o que não escreve.
Afinal, para que escreves?

Escrevo pela companhia,
Pelo soco na solidão,
Pela consciência perdida
E em busca de perdão
Ou paixão.

De onde escrevo já não há luz,
Além da terça-feira que invade
Com cobranças
De um dia da semana infeliz.

Tenho pena das terças;
Nunca serão como as sextas.
Tenho pena dos meus sentimentos;
Nunca serão mais que momentos.

Não rimo mais,
Só lamento.
Não acredito mais,
Só invento.

Há coragem na resignação,
Aprendizado na frustração.
Sem afeto na paixão,
Só lamento no coração.

sábado, 11 de abril de 2020

Prazer, este sou eu.

Dormir para quê?! Se não há com que acordar?! Nunca soube ao certo se primeiro vem a interrogação ou a exclamação.

Tenho tentado manter a promessa de não falar de política e não falar dele. A gente adoece, sabe?! Agora eu entendo como que eles ficaram durante 14 anos. Muito ódio acumulado.

Os dias parecem absurdos de tão bizarros. Eu sei quem me denunciaria à GESTAPO e quem me denunciaria aos militares. Quanta gente histérica e precisando desesperadamente de um líder supremo capaz de conduzi-las. Desejei a morte dele. Isto é feio e viola meus valores cristãos. É estranho imaginar que eles dizem ter os mesmos valores que eu. Talvez eles sejam como eu e eu seja como eles.

Eu tenho medo de dormir e acordar numa pior ainda. Acordar com má notícia é péssimo. É como dormir de sapatos; pronto para o pior.

Eu estava tão perto mais uma vez e... Dissipou-se no ar. É algo meio enigmático, como meus textos. Não sei como manter a atenção por mais do que 2 meses. É o prazo de validade do meu efeito sobre as pessoas. Não consigo durar mais do que isto. Lamentável, mas é a verdade.

Talvez o encanto esteja nos balões. Em amarrar-se a eles e atrair olhos de sorrisos e lamentos. É muito esforço para nada. Uma pesca cuja rede volta com pouco além do que sapatos e restos de tampa de privada jogada ao mar.

Dormir pra quê? Amanhã será tão bizarro quanto hoje e posso ter o azar de ter um sonho ainda mais bizarro, como se a realidade já não fosse o suficiente. Talvez, eu ainda trabalhe dormindo, o que é pior ainda, pois se acorda ainda mais cansado do que quando se deitou ou se deixou (obrigado, corretor).

É difícil lidar com o imediatismo, com a falta de planejamento, com o arianismo e com a falta de noções básicas de formação. Para se fazer entender é preciso lançar mão das mesmas armas - muitas vezes, de uma arma mesmo. Se rebaixar, jogar esse jogo insano e imbecil. "(foram) Babacas que pintaram", disse o sérvio no início dos anos 2000. Ele sabia o que dizia. Eu gosto de ouvir aqueles que sabem o que dizem, exceto quando não dizem porque sabem, mas porque querem ser ouvidos.

Neste momento eu quero ser ouvido e não sei o que digo. Faz algum sentido para você? Me tocaste como um cachorro. No sentido de tocar, botar pra fora mesmo. Algum arrependimento? Eu gostaria que houvesse, porque eu realmente não fiz nada para ser tocado assim. Não sou santo, mas também não sou pior do que eles e do que elas.

Sigo errante, me espreguiçando de porta em porta, trocando gracejos por algum afeto e sendo tocado a cada 2 meses. Ao menos restam 5 minutos. Acho que 5 minutos para 5 semanas. Ainda resta algum tempo. Talvez morram pessoas até lá, mas quem se importa, se o comércio puder abrir?

Nada mais a falar. 4 minutos e ainda tenho que escolher o título. Saudades do "qualquernegocioserve@hotmail.com". Sim, já foi o e-mail de um amigo. 3 minutos agora. Perdi 1 contando história. E perdi uns 25 falando nada. Ao menos aqui não dá pra ter expectativas e esperanças frustradas. 2 minutos. É isto. O fim. Um título pra já. Se achar que vale a pena...

O tempo

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Blasfêmia

A ordinariedade do que é pago é um misto de destempero com ignorância - a mesma que me faz escrever "ordinariedade" ao invés de "ordinarice" ou "safadeza".

A cretinice prevalece sobre a seriedade e a responsabilidade.

Rio acima há uma Rondônia de emoções e uma São Paulo de solidão.

O verão é a estação mais pobre - e triste. Toda aquela bobeirada padronizada de sol e praia. Ora bolas! Ao sul da linha do pecado é sol e praia o ano todo. E curvas nos catiras de uma mulher. Qual a novidade?

A novidade é a frieza travestida de ingratidão.

Que cada um viva sua luz e seu amargor. Só não pode vacilar. Nessa de tem sol na ponta do deque, o padre subiu aos céus levado por balões.

Dizem que a beleza está na aleatoriedade, na mistura das tintas, das peles e das palavras. Também acho.

Palavras ao vento.

Gritos no deserto.

(Me) Escreva.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Ele não

Quando dizem que não está acontecendo nada é porque algo está acontecendo.

Um mistério. Não o de feiurinha. Mas um mistério.

Todos eles merecem a oportunidade do "sim", inclusive mais de uma vez; ele não.
Todos eles merecem momentos de doçura e de piadas com cumplicidade; ele não.
Todos eles merecem o perdão e a tolerância; ele não.
Todos eles merecem o interesse e o frio na barriga; ele não.

A ele, cabe o compartilhamento dos momentos de incerteza, dúvida, desengano, tristeza e, amizade.
A ele, cabe o ouvido e, não a boca.
A ele, cabe ser compreensivo e conselheiro; não o Antônio, um antônimo, talvez.
A ele, cabe o descarrego de indiferença, silêncio e ignorância.

A alquimia do ser.

Nele, humildade se torna vaidade.
Nele, experiência se torna prepotência.
Nele, qualidade se torna defeito.
Nele, carinho se torna apego.

Distanciamento.

Em nome da proteção, recomendou-se o isolamento.
Em nome da quarentena, recomendou-se a noventena.
Em nome da razoabilidade, recomendou-se o extremismo.
Em nome da fidelidade, recomendou-se a promiscuidade.

Fome.

Um Big Mac de indignação.
Um peroá de rejeição.
Uma paçoca de frieza.
Uma lasanha de frustração.

Não queira ele ser eu.

Eu não.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Em silêncio

Há vida no silêncio.

E desejo. Desejo de que o apocalipse se concretizasse de modo repentino, sem aviso prévio, sem anticristo e tudo mais. Que o céu pudesse se abrir e ceifar toda essa gente que vive em e de desgraça. Sei que eu iria junto para o inferno, mas se sadismo é pecado, eu ao menos teria o prazeroso pecado de ver certas pessoas sofrerem. Em meio ao caos do apocalipse, me restaria um sentimento de justiça, de dever cumprido, uma contraditória leveza da alma, enquanto me afastaria gradativamente da beleza da divina luminosidade celeste rumo aos confins dos porões do inferno.
Eu queria o apocalipse, ainda que ele pudesse custar minha vida.
É a escolha mais covarde entregar a Deus e aos anjos a esperança e a humanidade que não somos capazes de concretizar. Não me importaria de ter meus projetos interrompidos pelo repentismo do juízo final. Aliás, até gostaria.

Mas enquanto o apocalipse não vem, resta o silêncio; a indiferença. Não a desistência. Nada a falar, nenhuma vontade de provocar. O coração nem balança.

O silêncio e a indiferença; quanto aos rumos do país, quanto às escolhas alheias, quanto aos sentimentos. Aliás, no silêncio há mais instinto do que sentimento. O instinto de sobrevivência que se sobrepõe a tudo que possa representar perigo. O silêncio instintivo que anseia por previsibilidade, por segurança e que não se sujeita ao vexaminoso constrangimento que um "não" afetivo é capaz de proporcionar. O instintivo silêncio de quem só quer andar na linha e se auto-preservar, tentar chegar até o final sem se pôr a pensar sobre qual final.

Seguir. Com a força do preto. Sem modismo ou rock and roll. Só preto. A imponência e a presença de quem se põe em preto. No silêncio do preto não tem mimimi, sacanagem ou deslealdade; há só seriedade. Há vida.

As tristezas do coração são como esterco. Fazem florescer a alma. Num jardim de sentimentos não correspondidos, a indiferença é a chuva que faz a alma frutificar. Não há nada que seja digno de se falar, nem convite que seja merecedor de se arriscar. É preciso silenciar, não se constranger, não se envergonhar. Se para sorrir depois é preciso chorar antes, melhor não querer sorrir, para não ter que chorar.

Não falar, não escrever. 

Delirar.

domingo, 2 de junho de 2019

Tokyo

Não haverá Tokyo em 2020. Aliás, não haverá 2020, 2030 e nem 2045, talvez só no Tesouro Direto.

Desta vez, não há que se falar em "treinei muito para ser roubado" e nem em roubo, afinal, não é possível ser roubado daquilo que nunca existiu ou daquilo que nunca se teve nem mesmo a posse. Mas eu me sinto roubado. Por um artista, talvez, ou somente por um cara legal com nome de flor. Ele não! Puta que pariu. Requintes de crueldade. Roubado daquilo que demorei para decidir e sonhar. Em minha alardeada prepotência faltou somente uma semana. Quiçá um mês. Mas faltou.

Nas últimas semanas era tão comum em minhas manhãs como respirar. Um costume, uma mania, o desejo de ver com meus olhos como as coisas caminhavam. Olhos grosseiros procuravam os quilos que prometiam sumir de modo promissor, enquanto os miolos pensavam como seria ser o pai de um Kataguiri. Paguei pela canalhice.

Quando decidi, perdi. Justo. No futebol é assim, a bola pune.

O que resta? Nada, talvez. Resta a dignidade de ser. E ser já é coisa pra caralho. Às vezes, resta isto: Ser. Um ser eu mesmo. Solitário. Resignado. Cumpridor de meus deveres e disposto a fazer o que precisa ser feito a maior parte do tempo. Previsível. Prepotente. Às vezes, muitas vezes aliás, fazer o que precisa ser feito é insuficiente. Erramos mais do que acertamos a maior parte do tempo, mas quem é capaz de saber o que é o certo quando todos estão perdidos?

Estou meio triste. É uma tristeza bandida, daquelas que se sente quando se sabe que é culpado. Dizem que quando o réu é culpado, ele chora. Eu só queria beber. Talvez com a garota mais organizada que eu já conheci na vida. Não sei exatamente o porquê. Só queria talvez não beber sozinho.

Parece que faltou tão pouco. Foi como perder o ônibus quando se estava prestes a conseguir embarcar nele, mas ciente de que o culpado pelo atraso fui eu. Talvez eu devesse estar feliz. Mas me falta um pouco desse altruísmo afetivo. Me resta parar de ver, como já fiz tantas outras vezes para esquecer. Mas quando assim é, me falta maturidade e passo a nutrir uma indiferença daquelas desumanas. Sem Tokyo, ainda me resta uma busca branca a cada novo amanhecer, a qual ainda busco com os olhos por alguma razão prepotente ou sadomasoquista que nem eu consigo entender.

Talvez, "talvez" seja  a palavra mais usada neste texto. Talvez eu só devesse viver minha vida e deixar as pessoas em paz. 

Não haverá Tokyo. Assim como não houve e não haverá outras. 

Às vezes, para não dizer talvez, é chato precisar ficar sóbrio no momento em que mais se precisa não estar.

Estou triste e não tenho uma Bud para beber.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Sara

Malandro não para, só dá um tempo...

O mundo anda muito chato ultimamente. Aliás, as pessoas andam muito chatas. Histéricas demais, mais precisamente. Um absoluto descontrole. Gritos, rosnados, mordidas, tiros e tudo mais que seja ariano e impulsivo. Um saco.

As pessoas andam muito extremas, armadas com pistolas ou balanças de julgamento nas cinturas. Primeiro atiram e depois julgam.

Perdi um pouco do encanto de escrever, de debater, de ensinar e (porque não) de aprender. Tudo anda muito à flor da pele. 

Voltamos aos tempos em que as pessoas acreditam em ameaça socialista, em necessidade de combater a expansão dos costumes e ideologias que ameaçam a família. Eu realmente ando sem paciência para conversar com essa gente sobre sociedade/política. Não consigo. Simplesmente não consigo.

Comprei uma piscina de plástico e coloquei na varanda do meu apartamento. Não quero saber de mais nada. Só me interessa assistir mesas redondas de futebol e conversar sobre amenidades.

Por menos praia e mais educação. Menos sol e mais inverno. Os tempos de frio ensinam e os dias de calor desatinam. Talvez seja isto: o aquecimento global queimou nossos miolos e elegemos um cara teimoso e retrógrado. Odeio gente teimosa. Na teimosia falta humildade, sobra orgulho e extremismo e escolhas impulsivas. Mas o que é a vida senão uma sucessão de escolhas burras? O problema é quando nós é que precisamos suportar as consequências das escolhas burras do outros e, pior, ter que corrigi-las.

Um freak show.

Estou me tornando, além de velho, um cara chato e azedo. Mas um cara azedo doce, tipo agridoce (aliás, odeio molho agridoce), para o qual as pessoas ainda olham com olhos de carinho e ternura. Esta é a minha salvação, saber que as pessoas ainda gostam de mim e, inclusive, me leem. Inclusive, se eu pessoalmente te falei deste blog é porque gosto muito de você e confio meus sentimentos e pensamentos a você. Não que seja uma honra, mas uma mostra de profundo respeito e consideração por sua pessoa, afinal, não me interessam os holofotes, elogios e etc em torno do que escrevo por aqui. Em tempos de extremismo, ter alguém com quem compartilhar nossos pensamentos, sem medo de tomar um tiro ou ter o coração pesado na balança de Anúbis, é uma honra.

Mas escrever tornou-se subversivo, coisa de ideologia marxista. Então tenho dedicado meus dias a trabalhos braçais, mesas redondas de futebol, pornografia e ao estudo adestrado para concursos. Daqui a pouco, vou capinar um quintal, pela honra do meu querido Brasil. Então não me julgue e não me espere para o próximo texto, porque pode demorar.

Brasil!

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Por onde andam?

Os criminosos
Que roubam, 
Mas não matam,
Que poupam o trabalhador.

Os juízes
Que sentenciam,
Mas não julgam,
Que evitam o clamor.

Os religiosos
Que ajudam,
Mas não discriminam,
Que perdoam no Senhor.

Os médicos
Que salvam,
Mas não mercantilizam,
Que curam a dor.

Os profissionais
Que trabalham,
Mas não enganam,
Que honram o labor.

Os casais
Que beijam,
Mas não postam,
Que amam com ardor.

As mãos
Que tocam,
Mas não afastam,
Que abraçam sem pudor.

As mulheres
Que transam,
Mas não ignoram,
Que acreditam no amor.

Por onde você anda?

sábado, 17 de novembro de 2018

Desconexo

São quase 3 da manhã. Mas eu estou cheio de pensamentos.

Aos 18 anos eu era um "monstro", capaz de comer uma parede de concreto para encontrar uma saída e mudar de vida. Eu parecia maduro para caramba, nada me abalava além do espírito de sobrevivência que me fazia ser capaz de morder um cachorro se isto fosse necessário para sobreviver. Eu era um guerrilheiro que só tinha em uma munição a sua chance de dar certo. Era preciso guardar bem a munição e não desperdiçar o tiro. E foi a maturidade imatura dos meus 18 anos que me salvou de hoje não estar desempregado e distribuindo currículos para ser qualquer coisa em qualquer lugar. Não que isto seja um demérito, mas é um resultado de que algo deu errado.

Quando olho para 10 anos atrás, penso no quanto eu era maduro e imaturo. Eu só queria ter uma chance de sobreviver e tudo girava em torno disto. Lembro de ter ido uma única vez a uma boate, numa matinê com 15 anos. Só Deus sabe o quanto eu tive medo de gastar aqueles 20 reais. A primeira vez que beijei uma mulher foi aos 25 anos de idade. E eu ainda perguntei se podia beijá-la. Céus! Antes disso não dava, eu estava ocupado demais em sobreviver. O que não me torna fonte de orgulho para ninguém. Aos 13, também pedi um beijo. Mas ganhei um beijo dentro do ouvido. Meio nojento. Frustrante, aliás. Saí de cena e só voltei 12 anos depois.

O coração de uma mulher é um oceano, repleto de segredos e desejos profundos e obscuros. Já a cabeça de uma mulher é um universo, repleto de possibilidades e sempre em expansão. Às vezes é difícil gostar das mulheres. Eu só queria que o encanto que vez ou outra desperto nelas durasse mais do que 2 meses. Nunca passa disto. É meio cabalístico. Talvez eu não consiga ser mais do que sou por mais de 2 meses. Esta fraqueza me dói em alguma medida. Ainda não sei o que me torna tão fugaz para as pessoas.

Não gosto que nada me escravize. Quando bebo, me sinto escravizado. Hoje não bebi. Mas fui a uma festa do caralho. Ninguém sóbrio me chamou para dançar. Eu só quero dançar no começo da festa, quando eu e todos os demais estão sóbrios, mas ninguém quer dançar. Depois que todos estão bêbados, inclusive eu, eu não quero mais dançar, me contento em ficar risonho. A bebida escraviza, mesmo quando não é vício. Escraviza porque você começa a beber sem nem saber mais ao certo porque bebe. 

Eu nunca tive nem curiosidade em usar qualquer droga. Eu só tinha uma munição a gastar para sobreviver e o vício em qualquer droga, inclusive lícita, poderia roubar meu ímpeto de sobrevivência. 

É preciso algum controle sobre o desejo, senão todo dia vira dia e não há corpo que aguente. Perder o controle sobre os desejos é a coisa mais impulsiva que alguém impulsivo pode fazer sem se dar conta de que é impulsivo. Todo dia parece ser dia de saciar o desejo. O corpo padece e a mente não percebe. Entra-se em estado de autofagia, de automutilação. É um matar-se diariamente de modo bem retardado, por sinal. Elas nos destroem aos poucos e silenciosamente. Eu precisava sobreviver. Então nunca quis.

Não gosto que nada me escravize e o desejo por algo é escravizante.

Nada com nada.

Estou desconexo.

E solitário. 

Em geral, não sou contra ser solitário. Mas às vezes é bem bad. Ter o outro obriga a gente a organizar as ideias para verbalizá-las. Não ter o outro torna nossa própria voz um monólogo. Agora que sobrevivi, eu preciso do outro. Sinto a necessidade. Uma puta fraqueza. Ou uma fraqueza puta. Nada contra as putas.

Aliás, vontade de socar cada cara puto. Por causa dos putos, somos todos canalhas. Por causa dos babacas, somos todos "machos escrotos". Por causa dos tarados, somos todos iguais. Fodam-se todos vocês. Somos todos homens, menos alguns. Dá trabalho ser homem em meio a um mundo de tanta descrença no homem.

Nunca se sabe quando tocamos de verdade o coração das pessoas. As lágrimas revelam isto no mundo material algumas vezes, mas nem sempre. E isto é bem estranho. Tocar o outro é algo que transcende o mundo material, o contato de peles e as mononucleoses das bocas vazias que beijamos nas madrugadas frias. Tocar de verdade o outro é uma sensação única. Cada coração é precioso e cercado de defesas. Quando alguém baixa a guarda, é lindo demais. Eu acho isto humano pra caralho. Mas nem sempre isto é muito claro. E isto deixa uma insegurança da porra. Deixa aquela dúvida se, no fim das contas, não se está sendo invasivo, um babaca ou um trouxa.

Mas no fim, quando se quer tocar o céu do outro, se é humano. E por mais que isto não pareça, as verdadeiras sensações humanas estão em extinção, inclusive o amor. Porque amar envolve não ser individualista e, hoje, tudo o que não queremos é ter nossas liberdades ameaçadas. Melhor a superficialidade do que é breve do que a intensidade do que permanece e é recíproco. É preciso confiar no poder da reciprocidade e baixar a guarda.

Atiro contra tudo às 3h41 desta manhã. Porque não sei o que fazer quando a preocupação maior não é mais apenas sobreviver.

sábado, 10 de novembro de 2018

Da vaidade

Tudo é vaidade.

Assim diz a Bíblia em uma de suas passagens.

Tudo é vaidade.

Hoje mais do que nunca.

Tempos de egocentrismo, de culto à própria imagem e ao próprio corpo, maximizado pelas redes sociais. Como escrevi há alguns anos, atualmente temos duas vidas: uma real e uma virtual. E a vida virtual é uma vida expositiva, na qual nos expomos e estamos 24 horas por dia acessíveis para sermos vistos e pesquisados. E isto é tentador.

As redes sociais aguçam nossa vaidade. Aos nos exporem, elas nos dão holofote, nos dão um destaque que a vida real só nos dá, em geral, em momentos de grandes feitos pessoais, em datas comemorativas ou quando fazemos alguma merda daquelas. As redes sociais alimentam nosso senso de importância, criam a sensação de que coisas insossas de nossa vida têm relevância e de que existem pessoas interessadas em saber o que andamos fazendo.

Isto pode ter um lado bom, como ajudar a desarmar a bomba depressiva daquelas pessoas que acham que sua vida não tem qualquer importância. 

Mas esta exposição e interação excessiva tem muitos lados ruins. E é isto que eu, no meu azedismo solitário, quero pontuar.

As pessoas andam cada vez mais vaidosas, interessadas em saber a repercussão que suas postagens nas redes sociais terão. Querem saber quem irá curtir suas fotos, quem irá comentar nelas. As pessoas passaram a gostar da sensação de serem visualizadas, contempladas e objeto de atenção. Todos tornaram-se artistas em alguma medida. 

O artista é um vaidoso por natureza, porque tem necessidade de ter sua arte apreciada, ainda que somente por algumas pessoas. Nem sempre quer reconhecimento ou ser compreendido, mas sempre quer ter sua arte apreciada por alguém.

Quem posta fotografias pessoais em rede social não marca a opção "postagem disponível somente para mim". Marca, na pior das hipóteses, a opção "postagem disponível somente para meus contatos". Quer ser apreciado. Se não tivesse este desejo, não postava ou, na pior das hipóteses, postava e nem olharia depois quem curtiu/comentou/interagiu com a postagem (como quem dá um tiro e sai correndo, sem nem olhar para conferir se alguém viu, foi atingido ou se algo aconteceu - o famoso "foda-se"/"caguei").

Quem posta, sente-se artista, em alguma medida. Posta por vaidade, pelo desejo de ter sua vida acompanhada por alguém (ainda que não se saiba ao certo por quem). Mas vaidade é uma merda, porque reconhecimento e protagonismo viciam. E aí, até aquela xícara fria de café ralo vira foto, postagem e objeto de curtidas e comentários. Faz bem ao ego ter seu dia apreciado por alguém, demonstra importância pessoal. É importante saber que alguém se interessa pelo o que fazemos, mas tudo que é em excesso não faz bem (nem o sexo - talvez).

A vaidade corrompe, como a fama. Perde-se um pouco o senso daquilo que realmente é merecedor de importância e de valorização. Passa-se a dar um peso anormal para o que é fugaz e superficial. A vaidade alimenta nosso egocentrismo, mexe com nossos valores. Em geral, pessoas muito vaidosas não são agradáveis, nem sequer prestam muita atenção no que dizemos, exceto quando é um elogio sobre elas mesmas. As redes sociais alimentam essa "antipatia", fortalecem nossa proximidade com aquelas pessoas que estão sempre curtindo nossas postagens, com nossos "seguidores", por exemplo. Elas alimentam nosso estímulo visual, em detrimento dos demais. Mas a riqueza da convivência humana vai muito além do que está ao alcance dos nossos olhos. Envolve coração, mas coração de verdade, e não corações virtuais de curtidas.

Cada vez mais respeito as pessoas "eremitas", que se desligam de todas as redes sociais expositivas. Eu as entendo e vejo muito sentido na escolha delas. Aliás, estou mais perto de eliminar uma rede social do que de passar a usar uma nova rede. Óbvio que as redes sociais aproximam, nos permitem acompanhar os rumos da vida de pessoas com quem não convivemos mais pessoalmente. Mas as redes sociais também afastam. Em nossa vaidade social passamos a dar valor e importância para coisas superficiais, passamos a, em alguma medida, tornar a convivência humana algo mais visual e menos pessoal, tornamos as pessoas um pouco descartáveis.

Talvez eu seja um bobo solitário, no fim das contas. 

Entendo os "eremitas". Eles não fogem das redes sociais porque fogem do contato humano. Fogem porque não aguentam mais este jogo de vaidade, no qual sua importância pode ser medida e comparada por curtidas e comentários virtuais. A vaidade pode ser escravizante, como a fama. E, para alguns, a melhor maneira de tratar isto é buscando uma vida pacata e longe de qualquer holofote. Respeito muito quem tem esta coragem de assumir que, nos fim das contas, só há uma vida digna de ser vivida: a vida real. 

Afinal, tudo é vaidade.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Dos excessos

O que seriam os excessos senão algo que só se constata depois que se concretizou? Não há presente. Há apenas passado e futuro quando o assunto é o que se excedeu. O passado é o contexto no qual a ação se concretiza e o futuro o cenário no qual se colhem as consequências que materializam o excesso.

Em geral, sabemos quando excedemos, quando vamos além daquele limite no qual as coisas ainda são boas. Nem sempre, no entanto, nós nos damos conta do quanto ultrapassamos este limite, e aí entram os outros e a Lei, por exemplo, para nos advertirem sobre isto.

Nisto consiste um dos riscos de uma vida solitária. Quando nós mesmos traçamos sozinhos por muito tempo nossa régua do que é razoável e do que é excesso, sem querer nada e nem ninguém ouvir, viramos monstros de nós mesmos. Vira autofagia. É sedutor não ouvir e nem ter que dar "satisfação" a ninguém, afinal, autonomia e liberdade são fascinantes e motivantes. Mas a vida precisa de limites mínimos bem claros e isto nem sempre nós mesmos estamos muito interessados em fixar em nossas vidas.

Quando se é jovem, a vida parece múltipla e aberta como o universo. Pensar em limites soa algo contrário à ideia do que seja viver. Aliás, viver parece algo sem validade muito certa, como algo que não deve despertar qualquer preocupação.

Aí eis que de uma vida sem limites se deixa alguém de barriga, se mata alguém em um "acidente", se contrai doenças de difícil controle e causamos injustamente dor àqueles que nos cercam ou àqueles que apenas tiveram o azar de cruzar conosco em um momento de excesso.

Exagero, né? Mas um excesso é justamente um exagero. E quando se excede, as consequências podem ser exageradas mesmo, porque se perde o controle.

Mas também existem os "pequenos" excessos, aqueles que parecem inofensivos a nós mesmos porque não deixam marcas imediatas. Por exemplo, quando não se tem qualquer horário minimamente de referência para se deixar adormecer e não se tem qualquer cuidado em dar ao corpo o devido descanso, prolongando sua vida ativa madrugadas adentro, sem perceber acabamos com nós mesmos a longo prazo. Um corpo que não possui quaisquer limites para o descanso é um corpo que tende a tornar-se débil a médio\longo prazo. "Pequenos" constantes excessos de álcool, cigarro e drogas ilícitas, por exemplo, idem.

Existem contas altas que podemos pagar só daqui a alguns anos, mas são cobradas. E o pior é que achamos que alguns excessos só fazem mal a nós mesmos e que ninguém tem que se meter no que fazemos de nossas vidas. Óbvio que não quero ninguém tendo que cuidar de mim em um leito de hospital, tendo que me dar banho, comida ou algo assim, afinal, eu sou pleno, independente e autônomo. Mas isto aos 28 anos. E aos 60 anos de uma vida marcada por "pequenos" excessos? "Ah, quero estar sozinho aos 60 anos e não dar trabalho para ninguém." E isto é escolha, quando somos seres sociais? As relações interpessoais são inevitáveis e o carinho das pessoas por nós mesmos também. Então, é bem provável que, na podridão dos 60 anos, alguém que a gente não queira dar trabalho esteja ao nosso lado querendo cuidar da gente e dividir a conta dos nossos excessos, sofrendo ao nosso lado. E a depender do nosso nível de debilidade, nem conseguiremos evitar isto. Vai ser uma merda, mas não haverá o que fazer lá na frente. Não no futuro.

Quanto pessimismo... Muito texto de tiozão chato, né?

Mas os excessos são assim. Nos deixam péssimos quando nos damos conta deles. E isto não ocorre no presente. Só no futuro.

Não é possível viver sem exceder. Aliás, a vida depende de momentos de excesso para fazer-se vida e ter sentido. Mas é possível se refletir sobre quando excedemos. Em uma de suas Cartas (não vou lembrar qual porque não decoro estas coisas) São Paulo disse que "tudo nos é permitido, mas nem tudo nos convém". E eu achei isto foda demais. Deus não criou o homem para a escravidão, e sim para a liberdade, mas nós, muitas vezes exercitamos nossa plena liberdade de modo que nos tornamos escravos de nossos atos e de nossos excessos. Precisamos exercitar melhor a parte do "nem tudo nos convém", porque a parte do "tudo nos é permitido" é bem clara.

Como dito antes, a gente sabe em alguma medida quando passamos dos limites. Ainda que com algum delay. Triste é quando não temos qualquer noção do quanto estamos vivendo inconsequentemente e precisamos ser lembrados por alguma merda que acontece. Às vezes precisamos que alguém "chame nosso feito à ordem", opine sobre nossos rumos. Nenhuma grande empreitada pode ser planejada/executada com êxito em completa solidão. Assim como também nenhuma empreitada alcança êxito quando não temos disciplina de dizer "não" aos excessos. Costumo dizer que sou um cara fácil: só chamar que eu vou. Adoro gente e convite para fazer coisas. Mas tem horas que ir, ir de novo, de novo e de novo, torna-se excesso. É preciso encontrar a medida, o limite.

Para tudo existem limites. Até a vida necessita do limite imposto pela morte para se completar. E a morte, a depender do que você acreditar, também encontra limite. Nada é pleno, nem meus 28 anos.

Uma vida de completa ausência de controle sobre os excessos não produz muita coisa. Aliás, os excessos raramente nos permitem chegar sem atrasos ao lugar que teríamos condições de chegar antes. É como chuva em excesso na estrada. O excesso de chuva atrasa nossa viagem e, por vezes, não nos permite chegar. Assim são os excessos. 

É preciso cuidado, reflexão e senso de responsabilidade consigo mesmo. Sermos livres e autônomos não significa fazermos "vista grossa" de nossos desvios. Precisamos cuidar melhor de nossas vidas, de nossa saúde e de nossos sentimentos. É preciso verdadeiro amor próprio para deixarmos de nos auto-sabotar, deixar de nos devorarmos por nossos próprios excessos. É preciso verdadeira disciplina e verdadeiro empenho em se controlar, reorganizar-se e seguir viagem. Temos muito a fazer e a viver, em verdadeira liberdade.

domingo, 21 de outubro de 2018

Entre quadris e a cabeça

Caraca! Tô com o dedo nervoso esta semana. Escrevendo pra carai. Acho que a última vez que foram tantas seguidas foi na semana do 2 de julho, há uns 8 anos, quando eu gostava muito da "garota de nariz torto" e quis homenageá-la na semana do aniversário dela. Faz tempo... Tantas mudanças... Mas vamos ao que interessa. Estou falante!

Eu tenho problema com sonhos. Não aqueles que temos enquanto dormimos, mas aqueles que temos com os olhos abertos.

Sinto que os sonhos aprisionam, como uma conta a vencer no dia 20 ou 30 da vida. Eles podem pesar como carregar uma mochila.

Eu não sei. Talvez eu seja um pessimista, um desconfiado com a vida. Sempre penso que posso morrer antes do amanhecer. Não temo a morte, mas "perder" tempo aprisionado a um sonho.

Sonhos servem de bússola; apontam um norte e uma direção a seguir. Mas, como eu disse no texto anterior, às vezes, é quando erramos a rota e nos perdemos é que nos encontramos. Se um sonho aponta para o norte e nós seguimos à leste, teoricamente nos desviamos do rumo, porém, nem sempre isto é ruim.

Sempre fui muito "pés no chão" (talvez porque, durante muito tempo, a vida não me deu muitas opções) e isto, de algum modo, sempre me fez não ter muita coragem de sonhar coisas grandes. Durante minha graduação inteira, por exemplo, fui questionado se eu aspirava tornar-me um juiz ou promotor de justiça, e sempre respondi, com um ar meio sem graça, que eu aspirava tornar-me profissionalmente "aquilo que desse para ser". Às vezes, eu respondia com outra pergunta: "Ser juiz de vôlei ou de futebol?" Só para desviar o foco e causar risadas mesmo.

Em geral, as pessoas não entendem. Acham que jovens necessariamente têm que sonhar, aspirar alguma coisa que não seja droga pelas narinas ou fumaça pela boca. Eu entendo. De verdade, eu entendo. Sonhos podem nos colocar "na linha", nos dar um rumo quando não sabemos para onde ir. Mas eu realmente não consigo. Algumas vezes, não sonhar soa como falta de perspectiva, falta de ambição, desinteresse ou comodismo. E talvez seja isto tudo mesmo. Só que eu me sinto bem. Algumas vezes penso que se há 10 anos meu sonho fosse passar em um concurso público, eu já teria realizado meu sonho de vida profissional, e aí? O que me motivaria a continuar? Percebe? Dilma estava certa; precisamos não traçar meta e deixar a meta aberta. Você vai sentir quando tiver batido sua meta e aí, por não ter ter alçado à meta a sonho de vida, você poderá dobrar a meta e seguir adiante realizando pequenas coisas grandes na vida, sem perceber.

A vida pode ser curta demais para que vivamos escravizados por um objetivo de vida. E se o sonho de vida não se concretizar? Como lidar com isto de modo saudável, sem adoecer, perder o encanto com a vida e se frustrar? Eu tenho medo deste tipo de decepção. Porque tem coisas que, por mais que a gente se esforce, por mais tempo que a gente se dedique, não acontece e, ao fim, fica aquele gosto estranho na boca, aquela sensação de perda de tempo, de "treinei muito para ser roubado". É difícil lidar com as derrotas que não entendemos o porquê. Talvez eu seja um frouxo, me esconda atrás da falta de sonhos para não ter motivos para me decepcionar. Isto, só o tempo me dirá.

Num exercício de autocrítica, enxergo que algumas coisas podem ser sonhos em minha vida, mas são coisas tão bobas, que não sei se merecem o status de "sonho". Eu sonho em ter uma vida que me permita ser feliz, não passar necessidade e que me dê alguma condição de poder ser atuante e fazer a diferença na vida de alguém. Não sonho com férias em Dubai ao lado de um harém. Me bastaria um amor tranquilo, filhos catarrentos, felizes e educados para eu deixar de herança para o mundo, uma casa agradável, saúde e condição financeira que me permita viver com algum conforto (nada de Ferrari na garagem) e dedicar mais do meu tempo em ajudar as pessoas. Isto é sonho? Me parecem coisas tão bobas e pequenas. São objetivos que talvez não valham o status de "sonho", porque parecem coisas que podem ser conquistadas naturalmente ao longo da vida, sem pressa, fanatismo e escravidão.

A palavra "sonho", para mim, remete a um desejo compulsivo, escravizante, capaz de amoldar todas as escolhas da vida para ser alcançado. Por exemplo, uma mulher que sonha ser uma empresária de sucesso pode, em nome deste sonho: abdicar de seus anos de juventude e não viajar e se divertir com seus amigos; abdicar/retardar o projeto de ser mãe; abrir mão de conhecer afetivamente outras pessoas; investir todo seu dinheiro e raramente utiliza-lo para adquirir pequenos "mimos" para si mesma; e, ao fim, não alcançar seu sonho maior e ser tarde demais para tentar voltar atrás e desfazer algumas das escolhas que foram condicionadas pela busca por seu sonho de vida. 

Óbvio que a vida envolve escolhas, apostas, riscos, acertos e desacertos. Mas quando se tem um sonho maior a nortear uma vida, tudo passa a orbitar em torno desse sonho, em órbitas escravizantes que limitam a liberdade de escolha. Alguns defensores dos sonhos dizem que conquistar um sonho de vida traz liberdade. Mas é preciso ser escravo para que se possa ser livre? E o risco de ao fim de uma vida escravizada por um sonho, por um único caminho ao norte, a liberdade "não cantar"? 

Talvez eu seja frouxo demais para sonhar e me decepcionar, ou tenha os pés no chão demais para conseguir fantasiar.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Notas de carnaval

Estes dias vi na TV um programa de talentos musicais nos quais os jurados só tinham como opções as notas 9.7, 9.8, 9.9 e 10.

Para mim, isto foi o reconhecimento de nossa incapacidade, como sociedade, de lidar construtivamente com a crítica.

Naturalizamos a mediocridade. Nos conformamos com coisas feitas com razoabilidade dando a elas status de coisas feitas com excelência. Talvez por isto ficamos meio surpresos quando encontramos um bom serviço, como se encontrar um profissional que realmente seja bom ou excelente fosse a exceção, ao invés de ser a regra.

Quantos encanadores, mecânicos, eletricistas, montadores de móvel, instaladores de internet, taxistas, professores, médicos etc medíocres encontramos por aí. Parece que eles se multiplicam. E são todos pagos. Gente que presta serviço sem preocupação com qualquer padrão de qualidade. Sabe quando você senta num táxi? Não parece muitas vezes que você está fazendo um favor para ele ao invés de estar pagando pelo serviço dele? É tosco, para não dizer indecente.

E a gente se acostuma com isto, com nossa realidade de serviços mal prestados. E no fim, com essa naturalização, nos tornamos complacentes com a mal feito, nos tornamos mais tolerantes e perdemos um pouco de nosso senso crítico.

Você já viu a apuração do desfile das escolas de samba? A regra são notas que variam de 9.5 a 10, sendo que 9.5 torna-se uma nota ruim e uma nota igual ou inferior a 9 só é dada numa situação absurdamente ruim, tipo um carro alegórico travado no meio da passarela ou um acidente durante o desfile. Que mundo é este onde 9.5 é nota baixa? Um mundo de bajulamento, de supervalorização, totalmente destoante do mundo crítico e até do mundo escolar, no qual tirar um 8.5 é uma puta nota e tirar 9.5 é um orgasmo.

Vivemos uma sociedade de baixo nível crítico, no qual ouvir uma verdadeira crítica é confundido com perseguição pessoal, com inveja, despeito, recalque etc.

Em uma sociedade acostumada com coisas mal feitas aceitas como suficiente, a crítica soa como um acinte, como falta de sexo. Somos uma sociedade de mimados e mal acostumados com aquilo que não é bem feito. Somos acostumados com a falta de beleza e de graciosidade que resolve razoavelmente.

Um programa de TV no qual a pior nota possível é um 9.7 é um bom exemplo disto, um bom exemplo de como somos injustos com aquilo que é verdadeiramente bom e o aproximamos tanto daquilo que está longe de ser bom. Separamos por 0.3 o sublime do medíocre. Desestimulamos o trabalho bem feito ao valorizarmos tanto aquilo que não é bem feito. Se ser meia boca basta, ir além do razoável se torna uma questão meramente de consciência, de vontade de fazer sempre o melhor, algo muitas vezes mal compreendido e menosprezado.

No fim, razão assiste a Santo Agostinho: "Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem."

domingo, 27 de maio de 2018

Chulo

Talvez eu devesse escrever mais. Ou menos. É algo compulsivo. Espero que me traga paz.

Algumas coisas simplesmente não acontecem. Por mais que a gente tente, se esforce, se permita, não acontecem. E eu tenho alguma dificuldade em lidar com coisas para as quais não encontro solução.  Principalmente quando busco solução há muito tempo. Orgulho? Não penso que seja. Em uma vida forjada por problemas, sempre encontrar soluções, gambiarradas ou não, parece ser o normal para mim. Gosto do chão de fábrica. De ser operário da vida e encontrar soluções de modo manual, ao invés do automático. Gosto da trocação, de bater e apanhar. Tem coisa que nos faz sentir mais vivos do que as porradas que damos e levamos? Mas tem coisas que não acontecem e não se resolvem, mesmo após incansáveis tentativas. Aí é foda.

É uma merda. Daquelas moles e que ficam garradas no solado e só saem após uma lavagem em casa. Por onde você anda, você sabe que a merda está com você e que aquele cheiro que todos reparam é seu. "Ei, calma galera! Podem parar de procurar. Sou eu o cagado". É tipo isto.

"Não tenha pressa". "Na hora certa as coisas acontecem". "Tudo tem seu tempo".

Ah, é legal. Faz sentido. Mas não enche barriga. Talvez se engravide por causa de coisas assim. Mas se continua com fome.

Eu preciso parar de gostar de brancas. Isto é sério. Não vai acabar bem. Que merda! Era você, galega. Uma vez você me disse que a gente sabe quando é de verdade. Eu acho que era. Mas não vai adiantar te contar. Você diria que é imaturidade de gente inexperiente, que eu não sei o que digo, não conheço o amor e blá blá blá... mas não desta vez. Era você, sua louca. Não sei como te explicar. Teve gente depois de você. Não adiantou. Você foi diferente. Marcou em 2 meses ou menos. Talvez eu não tenha sido um dos melhores com você, mas é porque parecia tudo tão natural e eu me sentia tão eu quando estava com você, que nem vi o tempo passar. Acabei não sendo bom o suficiente. Desculpe. Eu queria ser capaz de te mostrar que todas aquelas merdas que aconteceram antes com você (e foram muitas, ainda me assusto quando lembro) não aconteceriam conosco, porque havia respeito e sentimento de verdade por você. Mas não deu tempo. Enfim, fiquei com o pau na mão hahaha Mas obrigado por aquele beijo que me roubou no ponto de ônibus e que talvez você nem se lembre mais. Acho que esta é uma das lembranças mais doces que tenho da vida.

Tá todo mundo na lona, mas querendo dar lições de felicidade. Uma porra. Um deboche e um saco. Eu ainda não sei qual a minha relação com as redes sociais. Amo e odeio. Me sinto menos entediado e ao mesmo tempo meio irritado. É tudo muito extremo. Lições e ensinamentos gratuitos de gente "feliz" e lugares lindos em meio a um monte de corações vazios e de bundas. As bundas ao menos são bonitas, geralmente. Para não me irritar, só leio as figuras, não leio nada que esteja entre aspas como citação. Um saco. Um deboche.

Daqui a pouco passa.

A vaidade é um problema. Me causa medo. Vaidade cega. Este é o meu problema com a arte. Quem faz arte, em geral, quer ser visto, chamar atenção. E querer ser visto é uma forma vaidade. Tudo é vaidade, já dizia um texto famoso depois de Cristo.

Preciso parar de ter pressa e não aprender a esperar. É isto mesmo. Você leu certo. Vou fazer merda se me apressar e posso fazer ainda mais merda enquanto tiver que esperar. Caralho. Cada um sabe qual é seu ponto fraco e este está me fudendo, talvez desde a infância. Sabe quando você sente que só precisa de uma oportunidade? É tipo isto. Só uma. Eu preciso de só uma. Aí sossego, penso eu, seja se houver sucesso ou insucesso. É uma questão meio pessoal, de provar pra si próprio.

Mas e quem precisa de oportunidade quando se tem com o que se ocupar? O ser humano é um ser social. Tem que misturar as tintas e as peles. Sentir. Se não tiver o coração na ponta da chuteira, para sentir e sofrer, não é digno de viver. Máquinas produzem e obtém reconhecimento e sucesso, mas nunca sentem. Qual a graça de conquistar o mundo e ser incapaz de viver em intimidade com outra pessoa? O outro realmente é necessário, mesmo em caso de sucesso? Sim. É preciso de intimidade, ter alguém que aprecie nossa companhia, com quem conversar naturalmente e fazer coisas que só nós dois curtimos (às vezes em quatro paredes). Sei lá. É preciso de intimidade, ainda que somente para aqueles momentos meio estranhos. Senão, vira uma merda destas: um texto com ar de perturbado e que deixas as pessoas preocupadas.

Está tudo bem, de verdade. Não se preocupe. Realmente está tudo bem. Estou vivo e sinto. Isto me basta.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Corvo

Amo os dias chuvosos.

Nos dias de chuva, os rostos amanhecem cerrados e assim permanecem por quase todo o tempo. Os sorrisos escondem-se.

Não há o alarde dos dias de sol, os risos e gracejos excessivos. Não há espaço para gritarias rua afora. Não há espaço para ilusionismos de verão, praia e sol. Menos mimimi. Menos disposição para causar. Menos larápios dispostos a andar por aí. Mais vida doméstica e convivência familiar. Mais lazer saudável. Mais descanso e horas de sono. Corpos a frio buscando sexo quente debaixo das cobertas.

A preocupação principal de todos parece ser só encontrar logo um teto para proteger-se e não se molhar muito. Nesta hora, na imensidão dos guarda-chuvas e dos calçados respingados de lama, todos os humanos parecem humanos. Todos parecem iguais. Todos parecem estar na mesma merda. Pensando e praguejando no azar que deram ao molharem-se na esquina anterior. Nada parece tão importante como livrar-se da chuva. Todos vivendo a mesma sintonia negra.

Dias escuros como o preto de minhas asas. Todos apresentam o mesmo ar fechado que eu guardo em todos os dias. Mais silêncio. Mais pensamentos. As pessoas tornam-se reflexivas em si mesmas. Visitam seus demônios. Pensam mais em suas vidas. Pensam nas merdas que andam fazendo. Sentem culpa. Não há para onde correr. Perdem a liberdade sob o olhar da chuva e o molhar das lágrimas.

Me sinto feliz por sentir que todos estão mais parecidos comigo. Mais mortos. Uma felicidade cretina, canalha, de corvo. É contraditório, mas é na escravidão dos dias de chuva que os homens parecem livres como eu, um pássaro. Ponho-me a observar.

Todos parecem corvos.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Transeunte

Os dias passam e, na minha inocência de menino, ainda acho que hoje é terça-feira, em plena quinta-feira.

Não faz diferença se quinta ou terça. O cronograma não se segue e a vida prossegue. 

Ora às 9h-11h15-12h-19h30-1h ou às 7h15-8h-11h15-12h-19h30-2h. É só escolher. Como um vagão do metrô, cruzando sempre os mesmos trilhos com alguma variação de horário.

Uma vida asséptica, anestésica, vegetal. Sem grandes emoções, reações e paixões. A insensibilidade e a frieza são as maiores provas de decisão quando se quer aparentar força. Uma força desumanizadora, afastadora e isoladora. Uma encrenca que remete às polacas meninas da noite do final do século XIX. Encrenca. Galegas. Há uma praga no ilusionismo dos seios rosados.

Livre como um cachorro errante pela madrugada, vagando entre a o barulho da fome e o silêncio das lembranças. 

O coração de uma mulher é um oceano. Um primeiro beijo de novela, roubado sob a benção dos desvalidos, em meio a um beijo de despedida acompanhado de um inocente "vê se não some". Desmanchou-se no ar. Sumiu para nunca mais.

Nem todos os lábios têm fome. Nem todos os dias têm sorte. E a sorte do dia é que não há mais encanto no Facebook. Uma fuga para não mais ver. Até o mendigo do thirteen sabe em sua loucura que o que os olhos não veem o coração não sente.

Se o bicho pega, o pau canta na rua. Se o ócio traz lembranças, é preciso rasgar-se, morrer de trabalhar. Colocar sem tirar. Um harakiri de exaustão para que o corpo possa engolir a mente e os músculos possam ser mais importantes do que a inteligência.

Soldado sem emoção vai à guerra sem ambição. Luta por obrigação. Mata sem contestação. Morre sem preocupação. Piloto automático.

Passada a frustração, resta a resignação e a vegetação.

Sabe-se lá, oh Deus, o que disso sairá. Talvez a concretização de objetivos sem sentido e a entrega de resultados relevantes. É fácil dar frutos aos outros. Frutos muito bons, inclusive. 

Difícil mesmo é matar a verdadeira fome que habita em nós mesmos. Aquela invisível aos votos de  feliz ano novo.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Do Lavoro

Nas últimas semanas me peguei pensando sobre o sentido do trabalho; lembrando da entrevista do jogador de futebol camaronês que chocou o mundo do futebol ao dizer que não gosta de futebol e que ele é somente a sua profissão, o que ele faz para sobreviver. O mundo gritou incrédulo. "Ora pois! Todo menino sempre sonhou em ser jogador de futebol, em viver de sua diversão, e este sujeito vem e aparece dizendo que não gosta de jogar bola, apesar de ser jogador de Copa do Mundo... Como pode?" Quer saber? Certo estava ele.

Sabe, damos um valor demasiado ao trabalho, a ponto de, ao conhecermos alguém, não demorar nem 5 perguntas até soltar o famoso "e você faz o quê? Trabalha em qual área?" - como se o trabalho fosse algo intrínseco ao ser, como se não existisse o "ser" sem o "fazer".

Andei pensando que, no fim das contas, os socialistas estavam certos ao analisarem a história da sociedade sob o viés do trabalho. Tudo é trabalho. Como se sem trabalho você tivesse todas as suas possibilidades como ser humano limitadas ou impossibilitadas.

Mas o que é o trabalho, afinal? Para mim, nada mais do que algo que nos atribui uma função social. Trabalho é produção. Se você não trabalha, você não produz e se você não produz, lhe falta uma função na sociedade e você se torna um ser descartável e sem valor socialmente.

Esta minha visão não muito romântica sobre o que seria o trabalho me fez, nos últimos tempos, ver de um modo muito especial, o que é o meu trabalho. Eu não amo e não sinto tesão pelo Direito. E isto é errado? Geralmente causo espanto aos desavisados quando exponho minha total falta de romantismo pela minha função social produtiva.

E me faz muito bem não sentir tesão pelo meu trabalho. Eu acho, pelo menos. Para mim, como eu disse, trabalho é só uma questão de produção. Minha profissão reflete algo que sou capaz de produzir, com algum nível de qualidade. Para ser bom em algo não é preciso necessariamente amor, mas é preciso sempre algum nível qualificação. Eu me considero bom e dedicado no que faço. Quiçá faça meu trabalho melhor do que muitos apaixonados pelo Direito fariam. 

Sinto que esta minha "frieza" profissional me ajuda a ver o que faço de um modo mais objetivo, como quem limpa um peixe: mete a faca, tira as tripas e guarda o corpo.Chego lá, faço o que preciso fazer e volto embora para casa. Simples assim. O nosso trabalho é o que sabemos produzir e o que assegura nossa subsistência, nada mais do que isso.

Sabe aquele papo de se fazer o que gosta? Deve ser legal também, mas com o tempo deve enjoar, o amor deve ser vulgarizado, virar algo sem glamour como mijar de portas aberta na frente do "amor da sua vida". Imagine amar fotografar. Imaginou? Imagine ter que fotografar gente chata, enjoada, lugares sem graça, festas burocráticas para sobreviver... O tesão resiste? É natural que se vá perdendo o encanto, como para quase tudo na vida.

Não gostar do que se faz torna o trabalho o que ele é: algo que não se confunde com o seu ser. Você não é o que você produz remuneradamente. Não gostar da minha área de formação me tornou mais compreensivo com a chatice do que é o Direito. Me fez parar de buscar paixão onde não é preciso ter paixão. Me fez aceitar que o Direto é chato e parar de ficar me torturando sofrendo por fazer algo que eu queria que fosse legal. Me fez entender que só preciso ser bom no que produzo e meu papel social está feito. O Direito não precisa ser legal, eu só preciso fazer bem feito e voltar para casa, deixando o trabalho lá, no lugar dele. Não preciso andar de mãos dadas com o meu trabalho e apresentá-lo junto com minha apresentação como pessoa. Eu sou eu e ele é ele. Eu aqui e ele lá.

Pensar assim deve parecer bem estranho, mas faz muito bem, ao menos para mim. Chego muito focado no trabalho, compreendendo que o que ele quer de mim é só produção; que eu chegue lá e faça. Então é isto que eu faço. Chego e faço, sem crises existenciais. E depois, volto para casa, sabendo que, fora do trabalho, eu ainda tenho muita vida a viver, tenho toda uma existência, um universo de possibilidades como ser humano; muito além do que produzo socialmente.

Me tornei um profissional muito melhor e mais profissional ao separar o amor da produção. Me trouxe maturidade profissional. Esta separação diminui as chances de frustração com nós mesmos, com as escolhas profissionais que fazemos. Eu sempre quis ser professor, mas fico pensando, quantos anos eu conseguiria dar aula sem broxar com a rotina e o desgaste? Se é para ser rotina, que ao menos seja com algo que eu não aspire grande coisa.

Será possível viver muitos anos com este sentimento de resignação? De descrença com o que se faz? É possível ser motivado e resignado ao mesmo tempo? Sim. Desde que não se espere do trabalho mais do que ele seja, desde que se saiba separá-lo do que nós somos de verdade como ser humano. Trabalhar é uma necessidade porque produzir é necessário para sobreviver. E só. Desde os primórdios. Dedicar horas a algum trabalho é uma necessidade, como dedicar horas ao sono. Produza bem e aumente sua chance de sobrevivência. Talvez gostar do que se faz facilite a conquista da qualificação, mas não é o determinante, penso eu. Sem essa de "faça o que amas e não trabalharás mais nem um dia de sua vida". Vai trabalhar sim, amando ou não e com mais chances de se frustrar se quiser manter o amor em meio ao desgaste da vida produtiva.

Que saibamos viver e entender que nossa dignidade não está no que fazemos socialmente, mas no que somos como ser humano.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Delírios da pré-meia idade

Uma sensação estranha, mas constante, de que morrerei antes da hora, em plena primavera da vida. Sensação de que preciso ser rápido e cirúrgico nas escolhas e decisões. Sentimento de que não há tempo a perder. Não quero ir aos 100 (talvez nem aos 80), mas não é justo nem chegar aos 50.

Uma agonia de que a ordem natural das coisas será subvertida e de que o filho irá antes do pai. Tão certo quanto isso, só as certezas de que terei só uma filha e de que serei o primeiro presidente inédito (talvez não branco ou solteiro ou capixaba ou com menos de 50 anos ou algum outro distintivo) de alguma coisa. Delírios constantes que não deixam de ir e vir.

Um desbravador por excelência. Um destemido por falta de opção e necessidade. Menos preocupado com sorte ou azar e mais crente nas trocas da vida, com a certeza de que um dia é da caça e o outro é do caçador e de que um dia somos roubados e no outro favorecidos.

Assim segue. A vida sobe como balão. Como o topete do baloeiro e a pipa do vovô. Sem grandes aspirações, organização e planejamento, mas com dedicação e algum grau de disposição.

O que incomoda são as negativas sem sentido; o treinar muito para ser roubado; o ser excelente que não é suficiente; a impossibilidade de manter uma comunicação que não termine com uma mensagem com resposta umas 6 horas depois. Sabe? Tipo gente normal, que manifesta interesse. Complicado. Andam cansando o menino de ouro... Ele anda cansando dessa gente. É impressionante! É tipo Pirituba.

Mil frentes e nenhuma definição. Nada de nada. Isso já começa a incomodar e a cansar.

Há de chegar. Em algum momento há de chegar. Mas tá foda.