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sábado, 10 de março de 2012

[FILÉ COM FRITAS] Brasil: o país do amanhã.

[FILÉ]

Definitivamente, o Brasil é o país do amanhã. O país do amanhã eu faço.

Cada dia mais me surpreendo com a capacidade do povo brasileiro de deixar tudo sempre para a última hora. Não sei se é algo cultural, genético ou sei lá o quê. Mas não é segredo para ninguém que, em regra, gostamos sempre de enrolar para resolver as coisas.

Somos a 6ª economia do mundo e em breve seremos a 5ª, dizem os especialistas. Em tese, seremos um dos grandes países do amanhã, juntamente com outros países emergentes, dizem os economistas. Contudo, me espanta como os economistas são tão confiantes em relação a isso. São todos cegos! Veem apenas o lado econômico da coisa, acreditam que uma economia forte faz um país ser grande. Partem de um pressuposto errado? Não. Só esquecem que esse pressuposto é válido apenas para países desenvolvidos, países que alcançaram elevados níveis de desenvolvimento social após aquelas décadas do chamado Estado do Bem-Estar Social; esquecem que abaixo da linha do pecado, digo, do Equador, o nível de desenvolvimento econômico não acompanha o desenvolvimento da educação, dos serviços públicos...

Para mim, no Brasil não tivemos a época do chamado Estado do Bem-Estar Social. Vivemos há décadas um sistema híbrido que alia liberalismo econômico com paternalismo social. E pagamos caro por isso. Queremos evoluir no campo social, mas os liberais ficam dizendo que isso é ideia retrógrada, que a época disso já passou, que o negócio é ser neoliberal, como os países desenvolvidos, aí ficamos no meio do caminho: entramos de cabeça no sistema neoliberal fingindo que já tivemos (como os países desenvolvidos efetivamente tiveram) um período de Estado Social. Resultado: temos crescimento econômico e queremos manter os avanços sociais que pensamos termos feito nas décadas passadas. Vai dizer que nunca ouviu algum especialista dizer que o SUS é o melhor sistema PÚBLICO de saúde do mundo e que precisamos mantê-lo cada vez melhor? Para mascarar os avanços sociais que não tivemos ficamos inventando bolsas migalhas por aí, auxílios assistencialistas que achamos que podem resolver de imediato as falhas crônicas do nosso sistema social. Queremos sempre mascarar o agora para resolver, se der, depois.

Essa parece ser a tônica da nossa política. Vivemos de promessas. Por quê? Porque acreditamos em promessas. Acreditamos sempre que alguém fará amanhã; e digo mais, nos contentamos em ter a esperança do amanhã. Acontece, entretanto, que desde os anos 70 somos o tal país do amanhã. De um amanhã que nunca chega e, para mim, enquanto continuarmos nesse espírito de resolver no futuro, nunca chegará. Voltando às promessas, destaco que também acreditamos nelas porque levamos nossas próprias vidas “na promessa”. Repito: não sei se é cultural, mas a verdade (pelo menos a minha) é que gostamos de deixar tudo para depois e só quando o depois está prestes a estourar na nossa fuça é que tomamos uma atitude enérgica. Até lá gostamos de “cozinhar o galo”. Para alguns, isso é preguiça, razão pela qual dizem que somos um povo preguiçoso, conclusão que cada vez mais luto para não ter.

Numa democracia representativa como a nossa, os governantes não são nada mais do que um espelho de quem os elege. Partindo dessa premissa como verdade, tenho que se o Poder Público sempre que pode retarda ações efetivas para resolver os problemas nacionais, é porque isso é reflexo do que os brasileiros costumam fazer para resolver seus próprios problemas. Talvez isso explique, em parte, a nossa paixão pelos “jeitinhos”, afinal, eles não são nada mais do que meras soluções improvisadas para problemas imediatos. Problemas que muitas vezes poderiam ter sido evitados se no passado tivéssemos agido de modo mais enérgico quando o problema ainda era pequeno. Costumamos esperar um vazamento virar um desmoronamento para agirmos de alguma forma efetiva. É comum, por exemplo, situações em que o Poder Público faz uma obra, deixa de herança um buraco mal tampado e só volta para fechá-lo efetivamente quando alguém cai nele e morre. Só agimos com pressão. Só rompemos a inércia quando se omitir já não dá mais; já não é mais opção. Por que esperar diversas pessoas serem atropeladas numa rodovia antes de se construir uma passarela? Por que esperar o corrupto roubar de novo para reclamar dele depois? Não o eleja então, cacete! Por que esperamos as coisas acontecerem do pior modo possível ou ficarem prestes a chegar nesse nível para agirmos?

E a burocracia? Quantas vezes você já teve a sensação de que ela existe só para você desistir de fazer algo? Parte do objetivo dela é este mesmo: desestimular cobranças por ações imediatas; dar tempo para o Poder Público enrolar para resolver o problema. O negócio é enrolar. Enrolar ou deixar para outra pessoa resolver amanhã; transferir o agir para depois e, de preferência, para outra pessoa.

Tenho me divertido muito com as obras da Copa do Mundo. Tudo muito lento e parecendo que não vai ficar pronto a tempo. O mundo civilizado está morrendo de medo de nós (da selva) não termos obras prontas para o mundial. Eles não nos conhecem... Eles não sabem que tudo aqui tem que “ter emoção”, ser feito com jeitinho e sufoco. Não teria graça ter feito tudo com 1 ano e meio de antecedência. Não seria uma copa brasileira; seria uma copa alemã ou japonesa no Brasil. Relaxem, gringos! Vai ficar tudo pronto (ainda que o cimento da arquibancada fique seco no dia do 1º jogo). Relaxem. Vocês vão poder se divertir na 6ª (ou até 5ª) economia do mundo. Semana passada o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, disse que precisávamos de um chute na bunda para acelerar as obras. Nossa! “Ui! Como somos delicados...” Para o governo brasileiro isso foi quase uma declaração de guerra. Pergunto: Que mentira o homem branco do norte disse? Ele disse apenas que somos muito tranquilos para fazer as coisas urgentes. Que estamos retardando mais do que deveríamos obras que já deveriam estar prontas (tanto estádios como infra-estrutura: estradas, aeroportos...). Nós somos muito engraçados mesmo: adoramos sermos bajulados; queremos ter razão, mesmo estando com a tarefa de casa atrasada. E ainda queremos justificar o porquê! Foi um puxão de orelha merecido! E digo mais, deveríamos ter vergonha por estarmos assumindo frente ao mundo todo que só estamos tentando resolver problemas de infra-estrutura porque temos que parecer bem organizados ao mundo durante a Copa e as Olimpíadas. Noutros termos, só estamos saindo da inércia para não passar vergonha, para aparentar sermos um país organizado. Não estaríamos movendo uma palha do lugar para melhorar os aeroportos e as estradas se não tivéssemos que receber o mundo em 2014 e 2016.

Somos assim. Desde muito tempo. Pensamos que tudo pode se ajeitar depois; quem sabe amanhã. Mas eu ainda acredito que o nosso amanhã vai chegar, afinal, como consta no título de um dos filmes de 007: O amanhã nunca morre.

A você que não sei (e "nunca" soube) se sente o mesmo que eu.

domingo, 15 de maio de 2011

[FILÉ COM FRITAS] Estamos aí

[FILÉ]

Há muito tempo tenho me perguntado por que será que temos medos e somos inseguros? A conclusão a que cheguei foi, em linhas gerais, que temos medos e insegurança porque não sabemos de onde viemos e nem para onde vamos. Concluí que essa seria a base de todo o caos, a razão que antecederia todas as demais. É claro que algum "peito de aço" que por aqui passe pode se manifestar no sentido de que "eu não tenho medo de nada" ou de que "sou sempre um cara seguro de meus atos e escolhas". Mas eu questiono: será mesmo? Você nunca se questionou antes de tomar uma decisão? Ou então, você nunca se arrependeu de uma escolha feita? Esses dois momentos, ainda que sutis, já representam uma insegurança, ou não?

Enfim, a minha opinião é a de que todos somos inseguros (alguns mais, outros menos) e temos medos (desde os mais mesquinhos e individualistas até os mais genéricos). E qual a razão central? Ou seja, qual é a razão de todos os medos e insegurança? A incerteza acerca de onde viemos e para onde vamos. Explico.

Você pode me dizer que sabe de onde veio, afinal, tem sobrenome (logo, uma linhagem familiar) e veio da barriga de su mama. Mas analisando você, como Ser Humano, você é capaz de dizer com certeza por que existe ou por que o mundo existe? Vamos abrir um parênteses. Se você crê em uma entidade criadora do Universo com propósitos que só ela conhece, mas que você talvez imagine quais sejam, você se sente mais seguro quanto ao seu passado, sente certa firmeza no chão em que pisa. Se você crê no Big Bang como origem de tudo, você também tem certa segurança quanto à sua origem. Ou seja, seja pela fé ou pela ciência, temos um pouco de certeza sobre de onde viemos, ou melhor, um pouco menos de incerteza. Mas por outro lado, isso não resolve muita coisa, porque surge outra questão: por que eu estou aqui? Qual a minha finalidade? Aí o chão fica mole de novo. Enfim, as pessoas evitam se perguntar coisas desse tipo, porque acendem tantas dúvidas que tudo o mais passa a se tornar sem sentido.

Dessa forma, uma conclusão que já destaco é a de que o passado não contribui tanto quanto o futuro para as nossas inseguranças e medos, afinal, evitamos mexer muito com o passado para sempre termos algo no que pisar. Mas ainda assim contribui, pois sempre que vamos "cavucando" demais nossas origens como Ser Humano vamos perdendo um pouco da nossa segurança. Melhor então acharmos que sabemos de onde viemos, ainda que seja com base em verdades que abraçamos com todas as nossas forças.

"O bicho pega" mesmo é quando pensamos no "pra onde vamos?". Alguém deve ter pensado logo: "Ué, vamos morrer!". Concordo, vamos morrer. Mas o que é a morte? (Agora fudeu). Abro um novo parênteses. Ainda que tenhamos convicções religiosas sobre o que acontece após a morte e sobre o que ela pode ser, ainda assim tais conclusões se baseiam em verdades que abraçamos, mais uma vez, diga-se de passagem. Mesmo tendo como certeza ao olhar para frente a existência da morte, a questão é: o que vai acontecer até chegarmos lá? Não sabemos nem quando ela vai chegar... É muita incerteza junta! Dá pra surtar ou até pirar. É como se estivéssemos num túnel onde se olharmos para trás vemos um foco de luz ao fundo e se olharmos para frente não há luz, só trevas. É isso que dá medo e insegurança (na minha opinião): ter pouca certeza sobre de onde veio e menos ainda sobre para onde vai. Caminhamos em direção ao escuro sem saber o que pode acontecer. Isso não gera medos e inseguranças?

E o mundo nos cobra escolhas, nos cobra um constante andar para frente em direção à escuridão. Cada um acaba se virando como pode para conseguir caminhar no breu, sendo que basta um grito de alguém no túnel e tudo aquilo que construímos com um ar de certeza e solidez balança e, às vezes, cai. Por quê? Medo do escuro. Precisamos ir construindo nossas vidas sobre bases aparentemente sólidas para irmos ganhando confiança no túnel, o problema é que, como já dizia Marx (segundo o Google), tudo o que é sólido se desmancha no ar. Somos todos inseguros e medrosos que buscam solidez nas coisas para avançar na vida.

Pensando assim, por exemplo: o ladrão e o corrupto roubam porque são inseguros (como todos) e buscam na riqueza a segurança (solidez) para avançar no túnel; eu rezo porque a fé me dá solidez para avançar; você busca em sua família, em seus amigos, em sua namorada (ou seu namorado) segurança para ir à frente. E assim por diante.

Desde que nascemos temos medo, isso é normal da condição humana; há os que temem a morte, a miséria, a fome, a solidão... Comecei com esses pensamentos sobre os medos e inseguranças de cada um vendo um diálogo da peça "Auto da Compadecida" (de Ariano Suassuna - segundo o google) na forma de filme. Na parte final da peça/filme os personagens principais estão todos mortos (exceto Chicó) e sendo julgados por Jesus (Manuel) e pelo Diabo (Encourado), nesse instante João Grilo pede que Nossa Senhora (A Compadecida) interceda por ele e pelos demais. Segue o diálogo:

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A COMPADECIDA
Intercedo por esses pobres que não têm ninguém por eles, meu filho. Não os condene.
MANUEL
Que é que eu posso fazer? Esse aí era um bispo avarento, simoníaco, político...
174
A COMPADECIDA
Mas isso é a única coisa que se pode dizer contra ele. E era trabalhador, cumpria suas obrigações nessa parte. Era de nosso lado e quem não é contra nós é por nós.
MANUEL
O padre e o sacristão...
Gesto de desânimo.
A COMPADECIDA
É verdade que não eram dos melhores, mas você precisa levar em conta a língua do mundo e o modo de acusar do diabo. O bispo trabalhava e por isso era chamado de político e de mero administrador. Já com esses dois a acusação é pelo outro lado. É verdade que eles praticaram atos vergonhosos, mas é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. A carne implica todas essas coisas turvas e mesquinhas. Quase tudo o que eles faziam era por medo. Eu conheço isso, porque convivi com os homens: começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo.
ENCOURADO
Medo? Medo de quê?
BISPO
Ah, senhor, de muitas coisas. Medo da morte...
175
PADRE
Medo do sofrimento...
SACRISTÃO
Medo da fome...
PADEIRO
Medo da solidão. Perdoei minha mulher na hora da morte, porque a amava e porque sempre tive um medo terrível da solidão.
MANUEL
E é a mim que vocês vêm dizer isso, a mim que morri abandonado até por meu pai!
A COMPADECIDA
Era preciso e eu estava a seu lado. Mas não se esqueça da noite no jardim, do medo por que você teve de passar, pobre homem, feito de carne e de sangue, como qualquer outro e, como qualquer outro também, abandonado diante da morte e do sofrimento.
(grifo nosso)
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Enfim, senhores, nossa existência tem fundamentos muito frágeis, somos pequenos diante da complexidade do Universo. É natural que tenhamos medos e incertezas em nossas vidas, afinal, não sabemos nem mesmo para onde caminhamos. Como poderíamos ser seguros e não ter medos numa situação dessas? É preciso se apegar em algo, seja na religião, seja na riqueza, seja nas pessoas... Ou então, melhor nem pensar nessa incerteza cruel quanto ao nosso futuro, afinal, às vezes mascarar incertezas dá coragem para seguir, ainda que seja apenas temporariamente.
Portanto, nesse contexto de tantos medos e inseguranças por não sabermos de onde viemos e para onde vamos, o melhor a se fazer é se apegar no que dá segurança. Por isso, creio que nunca devemos esquecer nossas "origens", de onde imediatamente e superficialmente viemos (nosso passado conhecido). Devemos sempre nos lembrar e respeitar nossa família, nossa origem social, nossos amigos de outrora. Essa é a nossa base "concreta", o nosso porto seguro, aquilo que compõe aquele chão (ainda que meio mole) no qual pisamos e do qual necessitamos para seguir. Isso é o que não se apaga, independente de para onde caminharmos e de quanto nos afastarmos de nossas "origens", isso pode ser aquela luz no início do túnel, porque de resto não sabemos para onde vamos. Apenas estamos aí, esperando sabe-se lá o quê para irmos embora para sabe-se lá onde. Apenas estamos aí...

* apesar do texto até certo ponto sem referenciais religiosos, saliento que tenho minhas convições e verdades religiosas acerca do assunto. Todavia, respeito quem não possui tais convicções e busca verdades em outros lugares, como na ciência, por exemplo.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

[FILÉ COM FRITAS] Fé na bala

[FILÉ]

*Dedicado ao meu amigo Tobs, para quem as postagens deste blog tornaram-se chatas e sem poder de entretenimento...


- Mãeeeeeeeeee, o filé queimou!

Não imaginava que eu demoraria tanto tempo para, enfim, oferecer a vocês o filé que prometi (implicitamente) na postagem "Anedota da vida real", há mais de 1 mês. Tá meio queimado por ter ficado muito tempo no forno, mas foi feito com carinho, espero que gostem...

Depois de todo mundo já ter falado sobre Tropa de Elite 2, acho que chegou a minha vez. Era a última 6ª feira de outubro e eu não precisava ir ao estágio. No cinema: Tropa de Elite 2, lançado há menos de um mês por essas bandas. Infelizmente eu não tinha ninguém para me acompanhar no cinema, afinal, todo mundo já havia visto ou então tinha algo para fazer naquela 6ª feira à tarde. Mas quer saber? Pensei: "Ir sozinho ao cinema não deve ser tão ruim. Deve, inclusive, ter suas vantagens." Fui.

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Eu estava tão empolgado antes do filme que parecia até que eu havia ganhado os ingressos de graça para vê-lo. Em geral eu não curto violência, incluindo nesse rol aqueles UFC's da vida (no máximo eu assisto uma luta de boxe). Mas eu sou sádico por violência nos filmes nacionais (detesto os filmes violentos enlatados, digo, americanos, ou de artes marciais), adoro aquele porradeiro repleto de palavrão falado em bom português, parece até que eu desconto minha violência assistindo-os (na falta de um joão-bobo serve...).

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Com Tropa de Elite 1 não foi diferente. A violência me seduziu do início ao fim. Apesar disso, eu gostei muito da mensagem, do enredo, do roteiro (sei lá como os críticos de cinema chamam isso). Eu enxerguei o Tropa de Elite 1 mais ou menos assim: "Temos um problema no Rio e a solução é a violência, é meter bala nos vagabundos, é subir no morro e aterrorizar. É fé na bala!" Ou seja, no primeiro filme a solução do problema era simples demais, era até confortante, afinal, a solução parecia ser subir com um grupo do BOPE em cada favela tomada pelo tráfico e atropelar tudo e todos (na verdade a expressão "tomada de favela" não é adequeada, pois só se toma o que antes pertencia a alguém, mas as favelas nunca pertenceram ao Estado, afinal, ele nunca subiu o morro com saúde, educação, saneamento, ele só subiu com polícia - para prender e matar -, portanto, as favelas não foram tomadas do Estado pelo tráfico pelo simples fato de que elas nunca foram do Estado, logo, elas podem ser, no máximo, conquistadas - não reconquistadas - por ele).

http://i1.r7.com/data/files/2C92/94A4/2C81/84DB/012C/9523/4A36/66FE/ocupa%C3%A7%C3%A3o-morro-alem%C3%A3o-tvi-20101128.jpg

E estás a valer. Começa a minha sessão solitária. Eu só queria mais um filme nacional cheio de palavrão e violência (assim como a maioria dos brasileiros que foram ver a continução do Tropa de Elite 1). Eu sabia que provavelmente o 2 não repetiria a violência extrema do 1, por isso eu esperava um filme mais "cabeça", o que poderia colocar todo o roteiro a perder e fazer do filme um grande fiasco para a maioria daqueles milhões que foram ao cinema atrás de violência e de humor sádico (ou você acha que esse filme deu tanta bilheteria porque as pessoas queriam ver um filme "cabeça"? O povo queria violência gratuita, que nem no 1º). Enfim, eu sabia que o 2º não seria tão violento, mas ainda assim eu queria ver algumas cenas memoráveis de socos e palavrões (acho que eu queria mesmo era ver uma partida de rúgbi) para esquecer dos meus pensamentos deprimentes e pessimistas acerca da violência urbana e do narcotráfico. Eu queria ser inundado por aquela fantasiosa fé na bala estampada no Tropa de Elite 1.

E o que eu vi? Polícia corrupta. Política aliada com o narcotráfico. O Estado que reprime também é o Estado que protege o ilícito. Milícias. Morte aos homens de boa vontade. Legislativo sujo. Os interesses escusos da imprensa. Sujeira, merda, caca, fezes, por todo lado. Caos.

Ou seja, o filme que deveria me anestesiar para essa realidade, me levar ao fabuloso mundo de Bambuluá através da violência gratuita, fez sangrar ainda mais as minhas concepções acerca da violência urbana e do narcotráfico. No Tropa 2 o BOPE vira uma máquina de guerra e não soluciona o problema do narcotráfico e da violência urbana? Por quê? Era essa a pergunta que eu não gostaria de me fazer, pois a resposta eu já sabia e o filme fez questão de esfregar na minha cara. Me senti, como estudante das leis, uma peça do sistema corrupto mostrado pelo filme. Me senti desânimado com o Direito. Me senti, mais uma vez, sem força para mudar o mundo. Me lembrei do que dizia um professor meu no 1º semestre de Direito: "Leis são como salsichas; você não sabe como ambas são feitas e é melhor que seja assim".

O filme me fez relembrar o mundo fora daquele cinema vazio. Não deixou soluções anestesiantes para o problema da violência urbana e do narcotráfico como o Tropa de Elite 1. Na verdade, não deixou soluções, ao contrário do 1º, no qual a solução era só meter bala. O filme acabou e eu sentia o peito e a mente pesados. Os olhos pareciam querer marejar. Minhas pernas pesavam ao sair do cinema. Nesse momento descobri que não se deve ver filmes assim sozinho, principalmente no cinema. Detestei o filme pela sinceridade. Eu fui em busca de soluções mentirosas para os problemas sociais que atormentam minha cabeça, e o que achei? Um filme muito real pro meu gosto. Por isso, saí tonto, mas resignado: "Não saio daqui sem sentir um pouco do gosto mentiroso de nossa sociedade!". Fui direto para o McDonald's (o que não fazia há muito tempo) e comi um delicioso Big Mac! Esqueci do mundo lá fora por longos minutos naquele picles, naquele queijo...


(coisa linda do papai...)

Espero que o filme tenha servido ao menos para mostrar aos que foram em busca de violência gratuita (repito, estimo que muita gente) que temos um grande problema social e que esse problema não se resume a fé na bala. Se bem que do jeito que eles são é capaz de terem pensado assim: "Que bom que isso é só no Rio..."

Cerca de um mês após meu "Mc Dia Infeliz" no shopping (em razão do filme), voltei a ter fé na bala (aquela mesma fé anestesiante de antes). Viram que lindo os tanques de guerra no Complexo de favelas do Alemão? Viram como no fim a solução é a violência? Viram como é simples? Viram como a violência da polícia é a solução? A imprensa fortaleceu bastante essa ideia no último mês e parece que muita gente embarcou (esperançoso) nessa, incluindo muitos daqueles que assistiram Tropa de Elite 2. Viram como esse infeliz filme estava errado e o Tropa de Elite 1 estava certo? A solução é meter bala! Né!? Diz que sim, diz...

http://imgs-srzd.s3.amazonaws.com/srzd/upload/p/i/pistola280.jpghttps://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhXOhzmarlbYVN_fBYAgh6TYjb-gAGikBp9lC59iS6A9SdaRTt29MMvhs0RzB_A76OGZXkRX36-kqx6alP2p0ImmCxu4F4vMuPi_3VXEx91upKTNzZDNiR5fgl33d9t-_kZhu9MnrFPAFs/s1600-r/alemao620x250.jpg

Recomendo uma leitura sobre o tema, uma só: Uma guerra pela regeografização do Rio de Janeiro. Entrevista especial com José Cláudio Alves

Um abraço!
Partiu!

sábado, 4 de setembro de 2010

[Filé com Fritas] Ih, começou a palhaçada... (Parte II)

[FILÉ]

Vencida a insanidade do texto anterior, venho aqui dar continuidade às ideias do texto "Ih, começou a palhaçada... (Parte I)". Ah, antes de eu começar, só quero deixar uma pequena reflexão sobre a insanidade. Dia desses, enquanto via na TV um programa especial sobre hospícios, uma funcionária de um deles disse ter ouvido uma frase, mais ou menos assim, de um "louco": "Maluco é aquele que não foi louco o suficiente para resistir à loucura do mundo lá de fora." Faz sentido, né? Pois é, diante disso, não sei se larguei a insanidade de ontem ou se apenas retornei à ela... Mas deixa estar, vamos ao que interessa!

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Quando eu ainda não votava, eu era louco para poder votar, para poder participar, e não entendia como as pessoas não podiam achar isso legal. Eu ainda acho legal, mas entendo perfeitamente a frustração popular com as eleições, mesmo eu que sou tão animado com isso. Os candidatos são tão ruins que acho que votarei nulo para senador e para deputado federal, quanto ao cargo de presidente eu também estou caminhando nesse sentido, afinal, o candidato com as melhores ideias tem apenas um leve defeito: é socialista... hehe

O que o 1º domingo de outubro significa para a maioria das pessoas? A festa da democracia" (conforme dizem na TV)? Não. Eu respondo: um domingo chato em que eu não posso sair de casa sem ter que ir para uma escola cheia de gente votar num desses corruptos que estão por aí. É um dia tão chato que nem bebida é liberada, por sinal, o único dia do ano. Na verdade, tinham que liberar a bebida sim, afinal, tem candidato que para votar nele você precisa antes tomar coragem (tomar uns gorós) e tem outros que a dor na consciência por votar neles é tão grande que só bebendo para esquecer...

Clique nele e veja a propaganda dele na TV (não é vírus) hehe

Mas sério, agora. Se o voto não fosse obrigatório, você acha que a maioria das pessoas iria votar? Eu, sinceramente, acho que ia dar uns 30% ou 40% do eleitorado, isso se não desse menos. Gente, as pessoas estão desiludidas com a política brasileira, não acreditam nos políticos e nem acham que o voto delas pode fazer alguma diferença. Os defensores do voto obrigatório dizem que esse direito foi conquistado com muito esforço, com vidas, com sangue. Pelo povo brasileiro? Não, senhor. Com as vidas de pessoas realmente interessadas num país de voto livre e democrático (os utópicos do século XX). O povão nunca ligou muito para não poder votar para todos os cargos durante a ditadura, ele foi levado a achar que votar poderia ser melhor e acreditou, assim como também julgou que eleger Collor seria o melhor, mas isso se explica, afinal, o povo ganhou um direito que não sabia direito como usar, aí acabou usando de qualquer jeito, resultado: deu Collor! O nosso povo não tinha e ainda não tem uma consciência política desenvolvida, não entende muito o que o voto e os governantes representam.

Se votar é um direito (no sentido usual da palavra), porque eu não posso deixar de exercê-lo? É mais um direito ou dever? Se for direito (como dizem todos aos 4 cantos) eu não posso ser obrigado a exercê-lo, certo? Mas não é isso o que acontece. Sou defensor de que tudo que é feito por obrigação não é feito com muito zelo, inclusive votar. Creio que votar não pode ser uma obrigação, se é direito mesmo, não pode ser obrigação! Que me perdoem os que vão dizer: muitos deram a vida para que o povo pudesse votar, mesmo que seja errado. Eu defendo que conquistamos o direito, mas que não podemos ser obrigados a exercê-lo, afinal, o direito é meu, a escolha nas urnas é minha, eu não preciso fazer uma escolha que eu não quero. O simples fato de eu ter a prerrogativa de votar já é uma vitória, é suficiente, esse direito já é a vitória histórica, o seu exercício é outra questão. Ninguém pode ser obrigado a ser cidadão, no sentido de votar (cidadania engloga muito mais que votar). É recomendável, mas se você não quiser se envolver na vida do país, não se envolva, afinal, esse país é livre e você tem liberdade para fazer suas próprias escolhas. Não está na Constituição que ninguém pode ser discriminado por suas ideologias políticas? Logo, não querer votar é uma opção política e deve ser respeitada.

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Não entendo que o povo vai criar consciência política sendo obrigado a votar, isso não nasce desse jeito, envolve muitas outras questões. A verdade é que se houvesse um plebiscito acerca da obrigatoriedade do voto, o "NÃO" venceria. Considerando que o pilar central da democracia é a vontade popular, creio que a vontade do povo deva ser acatada: o voto deve ser facultativo. O pior de tudo é que enquanto ficamos nesse papo furado de "as eleições brasileiras é o maior evento democrático do mundo", esquecemos que no fundo o que gera a "festa da democracia" é um ato autoritário, não democrático: a obrigatoriedade do voto. Os defensores dessa festa estranha de gente esquisita têm receio de passar vergonha, de ficar escancarado para a sociedade brasileira que a maioria das pessoas "está nem aí" para a política e para o futuro do país. É preciso manter o jogo de aparências. Dar o direito de não votar pode abrir uma "caixa de pandora", afinal, ficará exposto o quanto nosso sistema democrático é falho e quanto não somos maduros para a vida democrática...

Defendo que somente aqueles realmente comprometidos com o país e maduros politicamente votem, afinal, esses eu tenho certeza que não deixarão de votar apenas pelo voto ser facultativo e pensam antes de votar. Digo mais, creio que facultar o voto vai diminuir o número de políticos eleitos à base de mentiras contadas ao povo, afinal, mais difícil do que ganhar votos, será convencer o povo a "perder" o domingo. Pode ser que somente os letrados continuem votando, só as classes mais altas da sociedade, mas isso tenderia a mudar com o tempo, posto que a população mais iletrada, que inicialmente deixou de votar por não entender a necessidade e a importância do voto, iria perceber que seu voto realmente pode mudar a ordem das coisas, iria perceber que aqueles eleitos sem a sua participação não são exatamente aqueles que representam o discurso popular, mas o discurso de um pequeno grupo nacional. Isso já acontece na prática, mas o povo não percebe em razão do "oba-oba" que gira em torno das eleições, em razão desse clima de o "povo" escolhendo. A faculdade do voto vai abrir os olhos do povo para a realidade e fazê-lo perceber que seu voto faz alguma diferença, vai torná-lo mais responsável quando decidir votar espontaneamente.

Hoje, o desgosto em votar é tão grande, que além de não entender o valor do voto, as pessoas têm ficado "putas" por serem obrigadas a fazer uma escolha que não querem, por isso estão zoneando com as eleições. Sim, zoneando, sacaneando, escrotizando com os rumos do país. O brasileiro gosta de fazer piada daquilo que não gosta, por isso está votando em pessoas famosas que não têm nada a oferecer à política. A época das urnas de papel trouxe algumas mostras disso, vide o ano em que "mosquito" foi eleito vereador em Vila Velha; casos assim aconteceram aos montes naquela época por todo o Brasil.

Em síntese, ou a gente para com essas farsas de voto obrigatório e de que temos "a maior festa democrática do mundo" e enxergamos o iceberg enorme que está debaixo de nossos narizes afundando o nosso país: um sistema democrático que é uma farsa e que não funciona. Ou a gente vai continuar vendo, eleições após eleições, o país sendo entregue pelo voto popular (pela soberania popular) nas mãos de pessoas que não têm condições de governá-lo. A escrotização das eleições só tende a aumentar ao longo dos anos se nada for feito, é algo natural, zuar com as eleições vai tornar-se a regra! Quem tem olhos e ouvidos, veja e ouça enquanto ainda há tempo. Pode ser que depois seja tarde demais...

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