sexta-feira, 22 de abril de 2011

[FILÉ COM FRITAS] Monólogo dialogado II

[FRITAS]

*
o diálogo abaixo é fictício e pode ser bem chato para quem não está com saco para textos sentimentalóides (é sério). Sinceramente, se fosse em outro blog e o texto não fosse meu, talvez eu nem lesse... (não estou fazendo doce)


ESTAÇÃO I - Caminito

http://eltonpacheco.files.wordpress.com/2008/05/caminito.jpg

Eu conhecia aqueles olhos suficientemente para saber que eles estavam - mais uma vez - inseguros. Eu via a insegurança naquela escuridão que me puxava aos confins, às retinas. Eu sabia que se não me manifestasse, não saberia o teor daquela incerteza tão explícita naquela implicitude, afinal, ele não entregava facilmente as suas emoções. Então perguntei, sem rodeios (com aquela cumplicidade típica dos amigos):

- Qué pasa, hermano? Aconteceu algo?
- Cara, você acha que um não pode ser um sim? - perguntou-me com um frágil ar de dúvida
- Ah, cara. Você sabe como eu sou bem quadrado. Logo, pra mim, não é não e sim é sim. Caso contrário, não haveria razão para existirem as duas palavras.
- Sim, isso é óbvio. Mas, saindo desse mundo linguístico no qual você está se apegando, ou seja, falando do mundo real; você não acha que uma pessoa pode dizer um não querendo dizer um sim e esperando que o não seja assim entendido? - perguntou ele tentando convencer-me
- Ou seja, se acredito que uma pessoa diga um querendo dizer o outro de propósito? Querendo ser entendida nas entrelinhas? - questionei
- Sim! - disse ele
- Talvez, mas ainda assim, creio que isso seja meio difícil de acontecer, porque a pessoa que faz isso está arriscando-se demais ao querer contar com o feeling da outra pessoa para ser bem entendida. Mas por que essa enrolação toda? Qual é o seu problema, afinal? - perguntei sem muita paciência com os rodeios dele
- Sei que você não gosta de falar sobre mulheres, mas é um problema envolvendo algo dito por uma delas a mim. - retrucou parecendo contar com a minha piedade
- Aff. Ainda bem que você sabe que não tenho muito saco pra ficar falando de mulher, afinal, esse papo é muito imaginativo, não conduz a conclusões e só cria mais dúvidas.
- É... eu sei desse seu bizarro ponto de vista. - respondeu-me entre risos e com um ar mais descontraído
- Aproveite então que estou de boa vontade e me conte o que a guria te fez.


ESTAÇÃO II - O mergulho na Eau Rouge

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg6Rc7_u45E4Z0QXSx5z3qWPFo52U6m2Jds2cAqBHegXhJYphuEwgbjbQTpsjNjMIMiDel2WhyphenhyphenQbSaqU8iS5huoG472bFMI44XRhUuQF-2_ixgKhcmiQcFRROuSRxsHD_LXKDPYKEhHnykN/s1600/Eau-Rouge.jpg

- Tipo, eu cheguei numa garota que há tempos eu estava em dúvidas se deveria chegar. Pensei que talvez eu tivesse alguma chance, afinal, ela está há mais de um ano solteira e somos um pouco próximos.
- Hum... - disse eu, dando linha para ele seguir o tango argentino
- Pensei que talvez ela estivesse livre para viver novas experiências com pessoas diferentes e mergulhei na desafiante Eau Rouge.
- Eau Rouge? Que bela alegoria... - retruquei rindo.

Brincando um pouco mais com a alusão feita por ele, falei:
-Você sabe que poucos têm coragem para mergulhar na Eau Rouge com o pé embaixo até que ela chegue ao fim, né?
- Pois é, eu não tive aqueeeela coragem e mergulhei nela todo receoso. Resultado: ganhei um duvidoso não. Um não meio frio, mas embasado em argumentos tão plausíveis que soou como um "tente mais um pouco". Acho que apesar do não, ela quis me dar um sinal verde para acelerar um pouco mais e tentar um novo mergulho - falou-me com o ar de esperança daqueles que estão dispostos a recorrer de uma sentença


ESTAÇÃO III - Alcatraz

http://www.inetours.com/Pages/images/Alcatraz/Alcatraz-Columbus_9617.jpg

Antes que eu falasse algo, ele emendou:

- Eu não consigo imaginar que uma guria tão disposta a viver novas coisas possa estar acorrentada há mais de 1 ano a um ex-namorado que parece não querer nada com ela. O não dela só pode ser um sim!
- Tá vendo porque não gosto de falar de mulher. Não tem o menor sentido ficar perdendo tempo tentando entender a cabeça delas. É perda de tempo, porra! - falei manifestando minha contrariedade em discutir o tema
- Talvez você tenha razão, mas eu preciso de uma orientação, cara. Tipo, o ex dela parece amar todas, mas ela, por algum motivo ilógico de mulher e ainda que não tenha mais nada com ele, parece ainda esperar uma decisão dele. O mais contraditório é que ela gosta de aparentar estar toda segura de si e de ter toda uma vida livre a experimentar.
- Ah, cara... Deixa ela resolver a vida dela com o ex então. Pula fora desse embrolho!
- Mas eu gosto dela! Além disso, não resta nada a se resolver entre ela e o ex; só ela parece ainda não ter percebido! Ela não vê que ela mesma se tranca numa prisão enquanto aguarda uma formal autorização de liberdade para conhecer outros caras. - disse-me como uma metralhadora giratória de argumentos
- Bicho, mulher tem dessas coisas; são muito sensíveis. Se autoflagelam por relacionamentos finalizados, sofrem de modo interminável por essas coisas. Sei lá, elas sofrem demais, falam de marcas, cicatrizes... É claro que eu nunca vivi um fim de relacionamento, mas não consigo imaginar que essas coisas do coração sejam tão dolorosas. Pra mim, apesar das boas lembranças de algo, tudo tem naturalmente uma validade e é preciso saber viver em meio a tantas despedidas: o fim é o fim e ponto. Pra mim, a pior dor é aquela da incerteza, não a de algo que chegou ao fim.
- Num é? Nisso eu concordo com você: o fim é o fim e ponto. É preciso saber se permitir; ter uma nova vida após o final de um relacionamento. É preciso sair da prisão!
- Avançamos um pouco então. - retruquei


ESTAÇÃO IV - O cantar do galo

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- É por isso que acho que o não dela só pode ser um sim! Um não que saiu acriticamente de alguém que se acostumou a dizer não desde que saiu de um relacionamento, já que sem perceber ela se manteve presa. - insitiu ele
- Pera lá, cara! De verdade, acho que você é que está se prendendo. Você está se agarrando às últimas esperanças para querer, como um alquimista, transformar um não em um sim. Talvez, essa garota precise de ajuda para se libertar de uma prisão, mas nada impede que ela, simplesmente, não queira nada com você. É triste, mas pode e tem grandes chances de ser apenas isso. Essa é a solução mais simples, a sua é que é muito complexa... - falei com a certeza de quem enfiava um punhal no peito dele
- Não, cara. Ela pode ter se feito de durona pra mim esperando eu insistir para depois me dar um sim! - falou com o ar descontrolado de quem tenta se segurar às últimas esperanças
- Lamento, cara, mas um não é sempre um não, ainda que sutil. - disse eu, certo de estar cravando ainda mais fundo o punhal
- Eu quero mostrá-la que posso tirá-la da prisão. Eu quero uma chance apenas, apenas uma... - contestou com o esforço daqueles que dão seus últimos suspiros
- Entendo, mas acho que você precisa respeitar o não dessa guria, ainda que ele seja apenas uma decorrência da prisão na qual ela pode ter se lançado ao terminar com o ex. Sabe por que? Um não é sempre um não...


ESTAÇÃO V - Chernobyl

http://hojemacau.com.mo/wordpress/wp-content/uploads/2011/04/Chernobyl.jpg

Depois disso, mergulhamos num sepulcral silêncio. E voltamos a estudar, afinal, isso é o que realmente importa.

Às vezes, o melhor a se fazer é silenciar algumas sensações...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Hã?

PRETO ao BRANCO
PRETO de BRANCO
PRETO em BRANCO
PRETO à la BRANCO
PRETO pra BRANCO
PRETO no BRANCO
PRETO e BRANCO
PRETO embora BRANCO
PRETO do BRANCO
PRETO sem BRANCO
PRETO mais BRANCO
PRETO ou BRANCO
PRETO com BRANCO
PRETO é BRANCO
hã?
O nada é o tudo?
Não entendi.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mamando en las tetas

Quando você ainda era criança, o que você queria ser quando crescesse? Eu, conforme alguns amigos próximos já sabem, queria ser padre. Por quê? Eram dois os motivos fundamentais: 1 - padre não é assaltado e nem sequestrado (como eu era inocente); 2 - ser padre daria a certeza de que eu iria para o céu. O resto era blá blá blá ou mi mi mi, pois essas eram de fato as minhas motivações mais concretas. Por incrível que pareça eu tive esse desejo por mim mesmo, mas é claro que todo mundo achava isso muito "bonitinho" quando eu ainda era um niño. Passaram-se os anos e eu comecei a perceber que aquelas duas motivações iniciais para ser padre não tinham muita sustentação.

No ensino fundamental eu era bom aluno em praticamente tudo, logo, eu tinha um leque muito grande de profissões em aberto. Eu tinha fortes inclinações a ser engenheiro, apesar de eu não saber exatamente o que um fazia. Todavia, o Ensino Médio me mostrou que eu não era bom no que eu gostava (matemática) e meu vasto leque foi diminuindo até eu perceber que eu só tinha algum futuro em coisas envolvendo história ou geografia. O que dá pra ser com essas habilidades? Hã... Hum... Ah, já sei! Professor. Professor? Sim, professor (para o desespero da minha mãe...) Ao mesmo tempo em que me apaixonei pelo magistério da história, percebi que não seria justo com o esforço da minha mãe ao longo de tantos anos, eu, no fim das contas, virar professor de história, ganhando uma merreca e sem condições de dar uma vida menos sofrida para ela. Convém salientar que até os 45 do 2º tempo ainda cogitei ser padre, mas vi que apesar da vontade espontânea que me movia nessa direção, eu, como filho único de uma mãe solteira não deveria largá-la, de certa forma, no desamparo financeiro, apesar de saber que ela sentiria um orgulho tremendo de um filho padre, ainda que em troca tivesse que se rasgar de trabalhar até os 70 anos.

Ah, queria deixar um agradecimento: Obrigado, Brasil, por não dar aos seus filhos a possibilidade de serem o que sonham sem correr o risco de não conseguirem viver dignamente. Obrigado, Brasil!

Então eis que abri mão da paixão e me entreguei à necessidade. Fui bater na porta do Direito, sem saber muito o que encontrar, é verdade, mas pelo menos vendo uma possibilidade de luz no fim do túnel. Embarquei em mais um típico sonho brasileiro. Fui atrás do Eldorado. E de repente percebi que eu não era o único. Em meu 1º período na Universidade eu nem sabia ao certo o que eu queria com o Direito, enquanto alguns colegas já diziam confiantes quererem ser concurseiros. Alguns largaram outros cursos, outras profissões, tudo em busca da incerta vida de concurseiro. Com o tempo eu percebi que eu precisava entrar nessa também, pois é muito difícil, por exemplo, advogar sem um empurrão inicial de alguém da área. Com o tempo percebi e cedi. Vou ser concurseiro também, apesar de ter nojo de afirmar isso. Explico.

Ninguém vira concurseiro no Direito por inocência. Sabe aquele sonho infantil de ser alguma coisa quando crescer? Você abre mão dele ao virar um concurseiro no Direito. Não venha me dizer que alguma criança sonha em ser, por exemplo, Auditor Fiscal, Analista Judiciário, Técnico Judiciário, Juiz Substituto. Acho que não, né? Ao fazer Direito pensando em ser um concurseiro, as pessoas, em geral, têm em mente algumas ideias centrais como estabilidade no emprego e financeira e poder. Elas abrem mão de suas aspirações mais antigas (de seus sonhos) e todo o resto torna-se secundário, o que é o grande risco a meu ver. As pessoas passam a "sonhar" em ter trabalhos burocráticos e chatos em troca de alguns mil réis por mês ao invés de levar a vida fazendo aquilo que realmente sentem prazer em fazer. Ah, o trabalho é chato, eu não tenho vocação pra isso, mas foda-se, dane-se vocação, o que importa é que vou ter dinheiro pra aproveitar a vida nas horas livres. Vale a pena essa troca? Acho que a maioria das pessoas pensa que sim, afinal, se não fosse assim, não teríamos tantos novos concurseiros na praça.

No fundo, no fundo, as pessoas querem passar num concurso para não precisarem mais trabalhar. E depois disso poder "viver". Sim, no fundo o pensamento é esse. Passar num concurso público tornou-se algo como ter a vida ganha. Passar e mamar pelo resto da vida nas tetas do Estado. Não pode ser assim, senhores. Esse pensamento é muito individualista e esquece que o Estado precisa satisfazer às necessidades mínimas da sociedade. É pensando assim que temos um Estado obeso de servidores, muitos pouco produtivos e cagando para os que dependem de seus serviços. A moralidade administrativa e a eficiência tornam-se palavras a se decorar para passar em provas de concursos e a se esquecer quando passar nelas. Foda-se a sociedade, foda-se se um Estado gordo e gastador fica sem dinheiro para atender a necessidades mínimas como saúde, educação, segurança, cultura, emprego. Foda-se o Estado. Foda-se o mundo. Eu só preciso ganhar R$ 15.000,00 por mês e mamar muito nas tetas do Estado. Resultado: um bando de cargos ocupados por gente sem vocação para o serviço público e sem interesse e comprometimento em fazê-lo melhor. Isso porque estou falando apenas dos cargos concursados, nem estou focando meu discurso nos cargos em comissão, porque aí o desleixo é total e entra todo tipo de gente para mamar, ainda que temporariamente, na grande teta do Estado brasileiro...

Não pode ser assim. Pouco se fala, por exemplo, que um aprovado em concurso passa por um estágio probatório no qual ele pode não ganhar estabilidade no cargo caso se mostre inapto às funções dele. Parece que é só passar e mamar eternamente. Mesmo sem saber o que um profissional daquele cargo faz, o concurseiro se inscreve disposto a matar para ocupá-lo, mesmo que o ofício seja chato e burocrático como assinar e carimbar folhas. Dane-se a vocação. Essa palavra não existe para um legítimo concurseiro. Para ele tudo é muito utilitário. Os valores e princípios que norteiam o direito só servem para serem decorados para fazer provas, o que vale é saber que a dignidade da pessoa humana e o valor social do trabalho estão elencados pela CF como fundamentos da República Fedetativa do Brasil, mesmo que ele nunca tenha parado para analisar, por exemplo, o que seria essa tal dignidade humana. No fim, o que vale é a segurança de ter sempre uma teta brasileira para mamar. Talvez isso ainda seja um pouco daquela mentalidade dos imigrantes que vieram desde 1500 a compor o povo dessa terrinha. O Brasil sempre foi um ótimo lugar para pessoas interesseiras atrás de riqueza. No fundo, no fundo, as pessoas sempre viram esse país como local de garimpagem. Lugar de extrair tudo até a última gota e depois se mandar. Acontece que o tempo passou, a mentalidade ficou e os garimpeiros do século XXI não querem se mandar, pois essa terrinha pode ser muito prazerosa para aqueles que têm muito dinheiro para usufruir dos prazeres dela. Isso explica muita coisa: desde os condomínios fechados dos ricaços (ilhas onde podem se isolar daquele bando de gente pobre e feia que estraga a vida sossegada e prazerosa no Brasil) até o descaso geral com a construção de uma nação igualitária capaz de oferecer a TODOS uma vida digna.

Se fosse só a questão do leite e da teta tava bom, mas o negócio muda de figura quando se percebe que mais do que dinheiro e estabilidade, alguns querem apenas o status de alguns cargos públicos, ou seja, querem apenas PODER. Esses são os piores, os mais egoístas e utilitaristas, pois pelo desejo de ter poder se corrompem, se vendem e atropelam todos que puderem, ainda que remotamente, atrapalhar a sua escalada ao poder. É por causa desses caras que temos tantos corruptos ocupando cargos públicos, tantos promotores sem o menor tato para entender a realidade social por detrás da criminalidade e tantos juízes sem a menor aptidão para decidir os rumos da vida das pessoas comuns. Fecho esse parágrafo com a frase de um colega de curso mais velho que apesar de não precisar fazer Direito para ter uma vida financeira estável quis mais status e dinheiro. Diz o profeta com a sua poética visão do mundo: "Só existe uma coisa melhor do que fuder: é mandar, é ter poder." Bravo! Bravo! Bravo! De pé, senhores! Quero muito encontrá-lo ocupando um cargo público daqui a alguns anos... Ele tem um tato espetacular para o serviço PÚBLICO.

Eu fico envergonhado por dizer isso, mas também estou atrás de um pedaço da teta do Estado, talvez com motivos mais nobres do que os de alguns (o que não muda tanto as coisas), mas estou... Talvez como consolo, eu digo que quero mais. Eu também (olha o segundo plano que eu falei antes) quero trabalhar para e pela sociedade. Eu quero ajudar a construir um mundo mais justo (dentro das minhas possibilidades). Talvez dê para unir o meu lado padre com o meu lado professor e ainda ganhar dinheiro, quem sabe? O que tenho de concreto no momento é que abri mão de meus sonhos, assim como os milhares (quiçá milhões) de concurseiros que têm por aí, e que estou na luta ao lado deles.

Obrigado, Brasil, por criar uma geração sem sonhos e utilitarista!

Deixo um abraço especial para todos aqueles que não venderam seus sonhos à necessidade ou à cobiça e que estudam para ser o que sempre sonharam, assim como àqueles que dão duro todos os dias, mas sobrevivem do ofício que amam. Vocês são heróis no Brasil. Os verdadeiros heróis! Um abraço especial aos professores!

Àqueles recém-chegados ao Direito que vieram atrás do Eldorado, que vieram para ser concurseiros (único e exclusivamente): sejam bem-vindos. Apenas queria fazer um pedido a vocês: não sejam tão utilitaristas, pensem um pouco também acerca do significado daquilo que estudamos todos os dias, sintam as leis. Com certeza isso não te aprovará num concurso, mas talvez te fará um profissional melhor quando passar em um.

Aos que já mamam en las tetas e que não querem e não sabem fazer outra coisa além disso, deixo a mensagem dada por Maradona à imprensa argentina depois de classificar a equipe à Copa da África: "QUE LA CHUPEN Y QUE LA SIGAN CHUPANDO".

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Saudade dos humanos

- Bora escrever?
- Só se for agora. Topa?
- Então vamos.

Dia desses me bateu uma saudade estranha. Eu senti saudade dos humanos. Não é estranho sentir isso? Peguei-me procurando-os ao meu redor e parecia que a realidade em que eu estava (e ainda estou) era muito frágil e temporária para haver humanos nela. Eu via corpos, ditos humanos, em todos os cantos, mas sei lá, eles não pareciam humanos, faltava algo neles.

Desde esse dia passei a reparar que as pessoas estão se desumanizando. Ou melhor, o mundo está se desumanizando. De alguma forma, estamos nos substituindo no dia-a-dia. Tudo está muito virtual, muito artificial, muito frágil.

Estamos desde os tempos mais remotos criando e tentando criar engenhocas e técnicas capazes de facilitar as nossas vidas, o que é ótimo. Esse poder criativo é algo admirável na humanidade, mas por outro lado, parece que já estamos criando demais, estamos tentando deixar tudo muito perfeito na vida cotidiana, estamos tentando eliminar todas as dificuldades que podemos ter em nossas vidas; resumindo: estamos criando muitas facilidades e sem perceber estamos ficando um pouco mais mortos (mais sedentários, pouco sociáveis e até certo ponto, menos criativos).

Estamos nos acostumando com tudo muito perfeito e artificial. Estamos nos acostumando, cada vez mais, com as máquinas trabalhando e até pensando por nós. Os robôs estão cada vez mais inteligentes, capazes de fazer desde atividades complexas e demoradas até as mais corriqueiras da existência humana, como dar abraços.

Olhe em volta: máquinas que pensam como e pelos humanos; robôs que estão sendo criados para agir como pessoas de verdade e interagir com elas; comida elaborada em fábrica e pronta para ser consumida após ser posta por alguns segundos no microondas; conversas virtuais; escrita digital; música eletrônica; sexo virtual; máquinas fotográficas e softwares capazes de eliminar qualquer IMPERFEIÇÃO da REALIDADE; chips de identificação...

Eu tenho medo disso tudo. A palavra é essa mesmo: MEDO. Não sei onde iremos parar com tanta modernidade. Estamos deixando aos poucos todas as funções e informações humanas para as máquinas. Estamos deixando, sem perceber, nossas vidas ao abrir mão de pequenos encargos do dia-a-dia. Ok, pode parecer coisa de ficção científica, mas eu sinto um desconforto imenso quando vejo aqueles nerds orientais criando robôs "humanos": robôs que abraçam (sem sentir o afeto humano), que imitam sentir dor, que dançam, que fazem funções domésticas... É preciso pôr um limite nessas inovações científicas enquanto ainda há tempo (o que pode soar algo sem sentido e até certo ponto ditatorial).

Assim está demais. Já estamos criando sem objetivo. É muita criatividade sendo usado com facilidades supérfluas. E o pior é que há problemas reais a serem resolvidos: catástrofes climáticas; doenças; fome...

Estamos abrindo mão de pequenos problemas humanos, problemas que de alguma forma só existem porque somos humanos. Deixar que as máquinas resolvam por nós é, de alguma forma, humanizá-las e deixarmos um pouco de sermos humanos. A questão toda é essa. Sem limites nas criações científicas, creio que em menos de 100 anos não teremos mais o que fazer e não precisaremos mais interagir com outros humanos se não quisermos, logo, teremos perdido o que entendo ser algo da essência do ser humano: a vida em sociedade e as relações interpessoais.

Exagero? Pessimismo? Pensamento retrógrado? Sei não... O ser mais sociável existente neste globo que chamamos de Terra anda pouco sociável. Anda sem muito "saco" para necessitar dos seus semelhantes. A convivência social mostra-se cada vez mais insustentável para alguns, por variados motivos (alguns bem egoístas por sinal).

Estamos nos maquinificando demais. Estamos muito artificais; pouco naturais. Estamos aparentando demais e sendo de menos, ou seja, estamos mais preocupados em aparentar do que em ser efetivamente. Estamos cada vez mais vazios de existência. Estamos muito acelerados e sem querer perder tempo com pequenas coisas que, querendo ou não, nos tornam mais humanos. Estamos em busca da perfeição, sendo que ser humano é ser naturalmente imperfeito. Estamos construindo uma realidade e uma existência frágil, capaz de se desmanchar no ar em meio ao ritmo acelerado que temos imprimido a nós mesmos. Temos deixado muitas coisas importantes passarem em nossas vidas sem nos atentarmos; temos valorizado o frágil ao invés do sólido.

Tenho apenas 20 anos, logo, não vivi muito, apesar disso já sinto saudade dos humanos.

Naquele dia em que me bateu aquela saudade que narrei no 1º parágrafo perguntei para uma máquina bem humanizada, dessas que encontramos ao montes por aí:

- Cadê os humanos que estavam aqui?
- Viraram máquinas. - respondeu-me ela, humanamente, diante da minha cara de órfão.

Aí me bateu saudade.

Percebi que sinto falta das pessoas reais. Sinto falta das pessoas de carne; das pessoas que não se preocupam em se maquinizar para ser, porque elas já são pelo simples fato de existirem como ser humano. Sinto falta das expressões faciais voluntárias; das pessoas que envelhecem; das pessoas que têm rugas e que não se envergonham delas por saber que as mesmas representam uma vida repleta de experiências. Sinto falta das pessoas com cicatrizes. Sinto falta das mulheres que não são de plástico, silicone ou de papel (mulheres de revista). Sinto falta do gosto da comida humana feita manualmente. Sinto falta de escrever no papel. Sinto falta das pessoas que se sujam e até se machucam tentando dar um jeito para consertar suas próprias coisas. Sinto falta das cartas aos invés dos e-mails. Sinto falta dos livros ao invés das "xerox". Sinto falta de fazer força para fazer algumas coisas funcionarem. Sinto falta de perder tempo com afazeres realizados por máquinas. Sinto falta do MANUAL ao invés do AUTOMÁTICO. Sinto falta até de alguns problemas humanos.

Sei lá, tive saudade de ser humano, de fazer coisas de humano, de ter problemas de humano, de ter carne, de se socializar com humanos de verdade.

Máquinas ainda dão "tilt" (pelo menos nesse estágio da história), por isso pergunto: até quando vamos suportar virarmos máquinas sem darmos "tilt"?

Eu acho que acabei de dar "tilt" e precisarei ser reiniciado.


http://www.dorlingkindersley-uk.co.uk/static/clipart/uk/dk/medieval/image_medieval005.jpg


Mas que saudade...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

[FILÉ COM FRITAS] Fé na bala

[FILÉ]

*Dedicado ao meu amigo Tobs, para quem as postagens deste blog tornaram-se chatas e sem poder de entretenimento...


- Mãeeeeeeeeee, o filé queimou!

Não imaginava que eu demoraria tanto tempo para, enfim, oferecer a vocês o filé que prometi (implicitamente) na postagem "Anedota da vida real", há mais de 1 mês. Tá meio queimado por ter ficado muito tempo no forno, mas foi feito com carinho, espero que gostem...

Depois de todo mundo já ter falado sobre Tropa de Elite 2, acho que chegou a minha vez. Era a última 6ª feira de outubro e eu não precisava ir ao estágio. No cinema: Tropa de Elite 2, lançado há menos de um mês por essas bandas. Infelizmente eu não tinha ninguém para me acompanhar no cinema, afinal, todo mundo já havia visto ou então tinha algo para fazer naquela 6ª feira à tarde. Mas quer saber? Pensei: "Ir sozinho ao cinema não deve ser tão ruim. Deve, inclusive, ter suas vantagens." Fui.

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Eu estava tão empolgado antes do filme que parecia até que eu havia ganhado os ingressos de graça para vê-lo. Em geral eu não curto violência, incluindo nesse rol aqueles UFC's da vida (no máximo eu assisto uma luta de boxe). Mas eu sou sádico por violência nos filmes nacionais (detesto os filmes violentos enlatados, digo, americanos, ou de artes marciais), adoro aquele porradeiro repleto de palavrão falado em bom português, parece até que eu desconto minha violência assistindo-os (na falta de um joão-bobo serve...).

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjp1cwiUXZkI83E2JTyA0RmOHXHtd4AFMhzwvBiTRfYqJtz2Tr4XVI26P9PP4_wcs3-89Mwx98oaJsqgFMg5Go_xGBAR3ZMVPM5HXO0S6QXnjB-3ucFmTSFj4CKajDO8xddo3U3VztpnvTC/s400/ze_pequeno.jpg


Com Tropa de Elite 1 não foi diferente. A violência me seduziu do início ao fim. Apesar disso, eu gostei muito da mensagem, do enredo, do roteiro (sei lá como os críticos de cinema chamam isso). Eu enxerguei o Tropa de Elite 1 mais ou menos assim: "Temos um problema no Rio e a solução é a violência, é meter bala nos vagabundos, é subir no morro e aterrorizar. É fé na bala!" Ou seja, no primeiro filme a solução do problema era simples demais, era até confortante, afinal, a solução parecia ser subir com um grupo do BOPE em cada favela tomada pelo tráfico e atropelar tudo e todos (na verdade a expressão "tomada de favela" não é adequeada, pois só se toma o que antes pertencia a alguém, mas as favelas nunca pertenceram ao Estado, afinal, ele nunca subiu o morro com saúde, educação, saneamento, ele só subiu com polícia - para prender e matar -, portanto, as favelas não foram tomadas do Estado pelo tráfico pelo simples fato de que elas nunca foram do Estado, logo, elas podem ser, no máximo, conquistadas - não reconquistadas - por ele).

http://i1.r7.com/data/files/2C92/94A4/2C81/84DB/012C/9523/4A36/66FE/ocupa%C3%A7%C3%A3o-morro-alem%C3%A3o-tvi-20101128.jpg

E estás a valer. Começa a minha sessão solitária. Eu só queria mais um filme nacional cheio de palavrão e violência (assim como a maioria dos brasileiros que foram ver a continução do Tropa de Elite 1). Eu sabia que provavelmente o 2 não repetiria a violência extrema do 1, por isso eu esperava um filme mais "cabeça", o que poderia colocar todo o roteiro a perder e fazer do filme um grande fiasco para a maioria daqueles milhões que foram ao cinema atrás de violência e de humor sádico (ou você acha que esse filme deu tanta bilheteria porque as pessoas queriam ver um filme "cabeça"? O povo queria violência gratuita, que nem no 1º). Enfim, eu sabia que o 2º não seria tão violento, mas ainda assim eu queria ver algumas cenas memoráveis de socos e palavrões (acho que eu queria mesmo era ver uma partida de rúgbi) para esquecer dos meus pensamentos deprimentes e pessimistas acerca da violência urbana e do narcotráfico. Eu queria ser inundado por aquela fantasiosa fé na bala estampada no Tropa de Elite 1.

E o que eu vi? Polícia corrupta. Política aliada com o narcotráfico. O Estado que reprime também é o Estado que protege o ilícito. Milícias. Morte aos homens de boa vontade. Legislativo sujo. Os interesses escusos da imprensa. Sujeira, merda, caca, fezes, por todo lado. Caos.

Ou seja, o filme que deveria me anestesiar para essa realidade, me levar ao fabuloso mundo de Bambuluá através da violência gratuita, fez sangrar ainda mais as minhas concepções acerca da violência urbana e do narcotráfico. No Tropa 2 o BOPE vira uma máquina de guerra e não soluciona o problema do narcotráfico e da violência urbana? Por quê? Era essa a pergunta que eu não gostaria de me fazer, pois a resposta eu já sabia e o filme fez questão de esfregar na minha cara. Me senti, como estudante das leis, uma peça do sistema corrupto mostrado pelo filme. Me senti desânimado com o Direito. Me senti, mais uma vez, sem força para mudar o mundo. Me lembrei do que dizia um professor meu no 1º semestre de Direito: "Leis são como salsichas; você não sabe como ambas são feitas e é melhor que seja assim".

O filme me fez relembrar o mundo fora daquele cinema vazio. Não deixou soluções anestesiantes para o problema da violência urbana e do narcotráfico como o Tropa de Elite 1. Na verdade, não deixou soluções, ao contrário do 1º, no qual a solução era só meter bala. O filme acabou e eu sentia o peito e a mente pesados. Os olhos pareciam querer marejar. Minhas pernas pesavam ao sair do cinema. Nesse momento descobri que não se deve ver filmes assim sozinho, principalmente no cinema. Detestei o filme pela sinceridade. Eu fui em busca de soluções mentirosas para os problemas sociais que atormentam minha cabeça, e o que achei? Um filme muito real pro meu gosto. Por isso, saí tonto, mas resignado: "Não saio daqui sem sentir um pouco do gosto mentiroso de nossa sociedade!". Fui direto para o McDonald's (o que não fazia há muito tempo) e comi um delicioso Big Mac! Esqueci do mundo lá fora por longos minutos naquele picles, naquele queijo...


(coisa linda do papai...)

Espero que o filme tenha servido ao menos para mostrar aos que foram em busca de violência gratuita (repito, estimo que muita gente) que temos um grande problema social e que esse problema não se resume a fé na bala. Se bem que do jeito que eles são é capaz de terem pensado assim: "Que bom que isso é só no Rio..."

Cerca de um mês após meu "Mc Dia Infeliz" no shopping (em razão do filme), voltei a ter fé na bala (aquela mesma fé anestesiante de antes). Viram que lindo os tanques de guerra no Complexo de favelas do Alemão? Viram como no fim a solução é a violência? Viram como é simples? Viram como a violência da polícia é a solução? A imprensa fortaleceu bastante essa ideia no último mês e parece que muita gente embarcou (esperançoso) nessa, incluindo muitos daqueles que assistiram Tropa de Elite 2. Viram como esse infeliz filme estava errado e o Tropa de Elite 1 estava certo? A solução é meter bala! Né!? Diz que sim, diz...

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Recomendo uma leitura sobre o tema, uma só: Uma guerra pela regeografização do Rio de Janeiro. Entrevista especial com José Cláudio Alves

Um abraço!
Partiu!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010