segunda-feira, 22 de julho de 2019

Em silêncio

Há vida no silêncio.

E desejo. Desejo de que o apocalipse se concretizasse de modo repentino, sem aviso prévio, sem anticristo e tudo mais. Que o céu pudesse se abrir e ceifar toda essa gente que vive em e de desgraça. Sei que eu iria junto para o inferno, mas se sadismo é pecado, eu ao menos teria o prazeroso pecado de ver certas pessoas sofrerem. Em meio ao caos do apocalipse, me restaria um sentimento de justiça, de dever cumprido, uma contraditória leveza da alma, enquanto me afastaria gradativamente da beleza da divina luminosidade celeste rumo aos confins dos porões do inferno.
Eu queria o apocalipse, ainda que ele pudesse custar minha vida.
É a escolha mais covarde entregar a Deus e aos anjos a esperança e a humanidade que não somos capazes de concretizar. Não me importaria de ter meus projetos interrompidos pelo repentismo do juízo final. Aliás, até gostaria.

Mas enquanto o apocalipse não vem, resta o silêncio; a indiferença. Não a desistência. Nada a falar, nenhuma vontade de provocar. O coração nem balança.

O silêncio e a indiferença; quanto aos rumos do país, quanto às escolhas alheias, quanto aos sentimentos. Aliás, no silêncio há mais instinto do que sentimento. O instinto de sobrevivência que se sobrepõe a tudo que possa representar perigo. O silêncio instintivo que anseia por previsibilidade, por segurança e que não se sujeita ao vexaminoso constrangimento que um "não" afetivo é capaz de proporcionar. O instintivo silêncio de quem só quer andar na linha e se auto-preservar, tentar chegar até o final sem se pôr a pensar sobre qual final.

Seguir. Com a força do preto. Sem modismo ou rock and roll. Só preto. A imponência e a presença de quem se põe em preto. No silêncio do preto não tem mimimi, sacanagem ou deslealdade; há só seriedade. Há vida.

As tristezas do coração são como esterco. Fazem florescer a alma. Num jardim de sentimentos não correspondidos, a indiferença é a chuva que faz a alma frutificar. Não há nada que seja digno de se falar, nem convite que seja merecedor de se arriscar. É preciso silenciar, não se constranger, não se envergonhar. Se para sorrir depois é preciso chorar antes, melhor não querer sorrir, para não ter que chorar.

Não falar, não escrever. 

Delirar.

domingo, 2 de junho de 2019

Tokyo

Não haverá Tokyo em 2020. Aliás, não haverá 2020, 2030 e nem 2045, talvez só no Tesouro Direto.

Desta vez, não há que se falar em "treinei muito para ser roubado" e nem em roubo, afinal, não é possível ser roubado daquilo que nunca existiu ou daquilo que nunca se teve nem mesmo a posse. Mas eu me sinto roubado. Por um artista, talvez, ou somente por um cara legal com nome de flor. Ele não! Puta que pariu. Requintes de crueldade. Roubado daquilo que demorei para decidir e sonhar. Em minha alardeada prepotência faltou somente uma semana. Quiçá um mês. Mas faltou.

Nas últimas semanas era tão comum em minhas manhãs como respirar. Um costume, uma mania, o desejo de ver com meus olhos como as coisas caminhavam. Olhos grosseiros procuravam os quilos que prometiam sumir de modo promissor, enquanto os miolos pensavam como seria ser o pai de um Kataguiri. Paguei pela canalhice.

Quando decidi, perdi. Justo. No futebol é assim, a bola pune.

O que resta? Nada, talvez. Resta a dignidade de ser. E ser já é coisa pra caralho. Às vezes, resta isto: Ser. Um ser eu mesmo. Solitário. Resignado. Cumpridor de meus deveres e disposto a fazer o que precisa ser feito a maior parte do tempo. Previsível. Prepotente. Às vezes, muitas vezes aliás, fazer o que precisa ser feito é insuficiente. Erramos mais do que acertamos a maior parte do tempo, mas quem é capaz de saber o que é o certo quando todos estão perdidos?

Estou meio triste. É uma tristeza bandida, daquelas que se sente quando se sabe que é culpado. Dizem que quando o réu é culpado, ele chora. Eu só queria beber. Talvez com a garota mais organizada que eu já conheci na vida. Não sei exatamente o porquê. Só queria talvez não beber sozinho.

Parece que faltou tão pouco. Foi como perder o ônibus quando se estava prestes a conseguir embarcar nele, mas ciente de que o culpado pelo atraso fui eu. Talvez eu devesse estar feliz. Mas me falta um pouco desse altruísmo afetivo. Me resta parar de ver, como já fiz tantas outras vezes para esquecer. Mas quando assim é, me falta maturidade e passo a nutrir uma indiferença daquelas desumanas. Sem Tokyo, ainda me resta uma busca branca a cada novo amanhecer, a qual ainda busco com os olhos por alguma razão prepotente ou sadomasoquista que nem eu consigo entender.

Talvez, "talvez" seja  a palavra mais usada neste texto. Talvez eu só devesse viver minha vida e deixar as pessoas em paz. 

Não haverá Tokyo. Assim como não houve e não haverá outras. 

Às vezes, para não dizer talvez, é chato precisar ficar sóbrio no momento em que mais se precisa não estar.

Estou triste e não tenho uma Bud para beber.

domingo, 3 de março de 2019

Desonra

Com um longo delay, enfim assisti o filme "O último samurai", o qual inspirou o assunto desta postagem.

Em tempos de relativização, a própria ideia de honra tornou-se fluída. Em alguns momentos parece até que as pessoas não se preocupam em ser honradas.

Como o filme demonstra, a ideia de honra e de vergonha andam diretamente atreladas, surgindo assim a ideia de que nos desonra aquilo que nos envergonha profundamente. O problema é que se sentir profundamente envergonhado é algo muito subjetivo, sendo que nem sempre aquilo que considero uma grande vergonha é também para outra pessoa.

Isto me faz pensar que, no fim das contas, só sabemos o que nos desonra quando paramos para pensarmos com nós mesmos quais são os nossos valores e limites. Ocorre, entretanto, que nos tempos atuais não temos tanto tempo para visitarmos nossa própria consciência, de modo que não raro as pessoas não se sentem desonradas até que venham a vivenciar uma experiência realmente digna de todo o pudor.

Tento fugir dessa ideia, mas é recorrente em meus pensamentos o sentimento de que as pessoas levam vidas completamente afastadas de qualquer honra, dispostas a tudo e muito pouco sujeitas a constrangimento. Isto muda quando falamos dos tribunais, onde muitos se "sentem" extremamente sensíveis e portadores de grande honra quando o assunto é uma potencial indenização por danos morais.

Hoje, as pessoas não parecem ter a necessidade de manter a palavra por honra ou tampouco de assumirem publicamente seus erros.

Enquanto em "O último samurai" um guerreiro é capaz de tirar a própria vida diante de uma profunda desonra, hoje somos capazes de tirar da própria vida qualquer ideia de honra, de modo a facilitar a tomada de decisões.

Penso que ser honrado é saber o limite da sua vergonha, envolve autoconhecimento, autocrítica e paz interior. Saber o que me desonra é libertador e pacificador.

Costumo dizer à minha mãe que se um dia eu cometer um crime, ela não terá a desonra de me ver mentir, pois irei assumir o que eu tiver feito. Minha honra envolve não negar meus erros e assumi-los, envolve não mentir e ter a paz de que não há nada mais a esconder. Esta seria a maneira de eu recuperar minha própria dignidade diante de um mal feito.

Mas esta é a minha medida da honra.

Não é possível impor nossos padrões honrosos a terceiros, esperar que os outros ajam com um padrão ético pessoal similar ao nosso.

Falar de honra às vezes parece papo de gente hipócrita, que não reconhece suas falhas morais e que busca apontar desvios nos outros. Não cabe aos outros medir nossa honra e nem nos atribuir desonra.

O que eu realmente aspiro é que as pessoas de fato tenham alguma honra, algum limite moral e senso crítico sobre si mesmas, de modo que consigam evoluir como pessoas.

No fim das contas, saber o que nos desonra é necessário para guiar algumas de nossas escolhas na vida.

Eu sei o que me desonra e é no sentido contrário disto que eu devo guiar minha vida, para que eu possa viver com mais paz e sem fantasmas.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Sara

Malandro não para, só dá um tempo...

O mundo anda muito chato ultimamente. Aliás, as pessoas andam muito chatas. Histéricas demais, mais precisamente. Um absoluto descontrole. Gritos, rosnados, mordidas, tiros e tudo mais que seja ariano e impulsivo. Um saco.

As pessoas andam muito extremas, armadas com pistolas ou balanças de julgamento nas cinturas. Primeiro atiram e depois julgam.

Perdi um pouco do encanto de escrever, de debater, de ensinar e (porque não) de aprender. Tudo anda muito à flor da pele. 

Voltamos aos tempos em que as pessoas acreditam em ameaça socialista, em necessidade de combater a expansão dos costumes e ideologias que ameaçam a família. Eu realmente ando sem paciência para conversar com essa gente sobre sociedade/política. Não consigo. Simplesmente não consigo.

Comprei uma piscina de plástico e coloquei na varanda do meu apartamento. Não quero saber de mais nada. Só me interessa assistir mesas redondas de futebol e conversar sobre amenidades.

Por menos praia e mais educação. Menos sol e mais inverno. Os tempos de frio ensinam e os dias de calor desatinam. Talvez seja isto: o aquecimento global queimou nossos miolos e elegemos um cara teimoso e retrógrado. Odeio gente teimosa. Na teimosia falta humildade, sobra orgulho e extremismo e escolhas impulsivas. Mas o que é a vida senão uma sucessão de escolhas burras? O problema é quando nós é que precisamos suportar as consequências das escolhas burras do outros e, pior, ter que corrigi-las.

Um freak show.

Estou me tornando, além de velho, um cara chato e azedo. Mas um cara azedo doce, tipo agridoce (aliás, odeio molho agridoce), para o qual as pessoas ainda olham com olhos de carinho e ternura. Esta é a minha salvação, saber que as pessoas ainda gostam de mim e, inclusive, me leem. Inclusive, se eu pessoalmente te falei deste blog é porque gosto muito de você e confio meus sentimentos e pensamentos a você. Não que seja uma honra, mas uma mostra de profundo respeito e consideração por sua pessoa, afinal, não me interessam os holofotes, elogios e etc em torno do que escrevo por aqui. Em tempos de extremismo, ter alguém com quem compartilhar nossos pensamentos, sem medo de tomar um tiro ou ter o coração pesado na balança de Anúbis, é uma honra.

Mas escrever tornou-se subversivo, coisa de ideologia marxista. Então tenho dedicado meus dias a trabalhos braçais, mesas redondas de futebol, pornografia e ao estudo adestrado para concursos. Daqui a pouco, vou capinar um quintal, pela honra do meu querido Brasil. Então não me julgue e não me espere para o próximo texto, porque pode demorar.

Brasil!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Amanda

Hoje é dia de texto "choro no banho". Uma "fraquejada", como andam dizendo por aí.

Há um ano e um mês eu escrevi um dos textos mais polêmicos deste blog, na impulsividade de um teclado de celular, deitado em um sofá de uma sala escura da casa de um amigo, numa madrugada de domingo para segunda.

Eu poderia apenas ter ido dormir na cama, mas não... Insisti em ficar escrevendo no breu, na telinha de um celular. Fiz merda. Fui babaca, em alguma medida. Chateei talvez a garota de quem eu mais gostei nos últimos anos.

Hoje penso que fui vaidoso de certo modo.

Se nada acontece, eu também tenho culpa. Muita culpa, talvez. Quem sou eu para me julgar uma "escolha excelente"? Quem sou para me julgar um não-babaca? Fui presunçoso. Quem sou eu para me julgar um cara legal?

Aquilo que considero virtudes pessoais podem ser grandes defeitos na visão alheia. E foda-se. Como disse um amigo meu um tempo atrás, somos babacas grande parte do tempo e estamos em constante luta para tentar não sermos. No fim, é meio isto. Sou mais um babaca, preconceituoso...

Não sou uma escolha melhor. Talvez só uma escolha como as demais. Demorei um pouco a entender isto, porque isto envolve autocrítica e parar de acreditar naquele papo de "você é tão legal, tudo que eu sempre busquei, mas não vai rolar". Tenho me incomodado cada vez menos com as recusas, me recuperado com uma estranha celeridade. Isto me faz sentir-me meio babaca e descrente, mas ao mesmo tempo me sinto mais forte. Menos humano, talvez.

Mais cabeça de gelo, mais "foda-se" e menos sentimento. Uma pena, em alguma medida. Nos últimos 3 anos saí de dentro de minha concha e me ofereci às pessoas, de peito aberto, com intensidade. Tudo está dando certo na vida, resolvi tentar tornar esse "tudo certo" em algo ainda mais completo, alcançar a fronteira final: minha vida afetiva. Fiz coisas que nunca antes tinha tido disposição em fazer. Me empenhei em tentar. Por 3 anos eu resolvi buscar a satisfação afetiva em detrimento das demais. Não busquei "o amor da minha vida". Busquei envolvimento afetivo, misturar as tintas. Falhei, como no aprendizado do inglês. Falhei. E na vida se falha.

Quando se falha, é preciso investigar os motivos. Quando eu penso que estou sendo legal, eu posso estar sendo chato. Quando penso que estou sendo flexível, eu posso estar limitando a liberdade alheia. Quando penso que estou tocando o coração das pessoas, eu posso estar sendo um "romântico" inoportuno. 

Preciso pensar. Entender. Aos 13 anos, pedi um beijo e ganhei um beijo dentro do ouvido. Me retirei de qualquer vida afetiva por 12 anos e só voltei aos 25 anos de idade. Nos últimos 3 anos eu realmente fiz da vida afetiva uma das minhas prioridades, após ignorá-la por anos focado em outros projetos. Eu quis desta vez ter uma vida assim. Quis e tentei. Mas não deu.

Falhei novamente. Tentei tocar o coração das pessoas. Toquei somente o coração que eu não poderia tocar. O resto foram recusas. Recusas justas, afinal. Agora entendo. Me vejo como um homem comum, repleto de defeitos como os demais. Nada de "escolha excelente".

Não dá para continuar falhando sem parar para refletir.

Talvez seja hora de se retirar novamente e deixar pra lá esse negócio de vida afetiva. Me repensar como pessoa. Só voltar quando for hora. Estudar, trabalhar... Levar uma vida como era antes de eu me oferecer às pessoas. Neste momento, sinto que talvez seja a hora de voltar para dentro da concha, do meu mundinho.

Não estamos neste mundo para ser a escolha "suficiente" ou "excelente" de alguém. Tudo que quero é ser um cara cada vez mais honesto e decente. Se eu for honesto e decente, vou sentir-me bem diante do mundo, sendo ou não a escolha de alguém.

Aquela garota, hoje namora. Mudou de planos sobre namorar, ao que parece. Ou talvez o problema estivesse só em mim mesmo. E se for isto, eu tô muito de boa com isto. Porque hoje consigo ver o quanto sou falho. Enfim! Invejo um pouco o cabra que conseguiu tocar o coração dela. Mas e daí? Quero que ela seja feliz. E eu preciso parar de invejar aquilo que não fui capaz de conquistar.

Vou sossegar, viado. Estudar e trabalhar. Tentar ser honesto e decente.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Sad dog

Prefiro os cachorros tristes;
Aqueles de orelhas caídas,
Olhar perdido
E latidos mudos.

Instintos sob controle,
Bestialidade castrada,
Impulsividade contida
E tristeza em vida.

Nem todo cabra está pronto para viver o preto.

Há virtude na tristeza
E coragem na resignação.

Respeito a falta de vida,
A monotonia escolhida,
A desolação sentida,
A solidão.

Me atrai o silêncio,
A paz negra,
A alegria triste
E a escrita suja.

Vejo bravura em Cash,
Em ser o que se é:
Um solitary man,
A man in black.


sábado, 1 de dezembro de 2018

Ana Marcela

É preciso buscar nas pessoas o que elas têm de melhor. Aliás, não é preciso necessariamente buscar, mas conseguir enxergar.

Não há inverno que dure para sempre e nem pessoas sem qualquer qualidade. Assim como as estações se alternam a cada 4 meses, as pessoas mudam, mas em uma frequência maior. Os quereres de agora não são mais os quereres de anos, meses, dias ou até mesmo de horas atrás. Somos "metamorfoses ambulantes". Estamos mudando a todo o tempo, ainda que com diferentes velocidades.

Por mais corrompidas e viciadas que as pessoas possam aparentar ser ao nosso subjetivo julgamento, todas elas trazem em si qualidades. Saber descobrir, conseguir enxergar e bem utilizar estas qualidades é um grande, porém, delicioso desafio.

Alguém já disse, em algum lugar, que um desafio é um problema que escolhemos ter, ao passo que um problema é um desafio que não escolhemos ter. Decifrar as pessoas deve ser visto como um desafio. Um desafio que se renova na metamorfose dos anos, meses, dias e horas.

Dispor-se as explorar as qualidades do outro é, em alguma medida, um exercício de humildade, de reconhecimento das potencialidades que o outro pode ter.

Em um mundo onde tudo é cada vez mais relativo (para o bem e para o mal), às vezes é preciso relativizar aquilo que vemos como defeito para, só assim, conseguir enxergar qualidades no outro. O preconceito cega e impede que consigamos enxergar o que as pessoas podem ter de bom.

Óbvio que todos nós temos nossa própria régua daquilo que julgamos ser um defeito ou uma qualidade e do quanto algumas características alheias podem nos parecer inaceitáveis/insustentáveis. Mas por mais paradoxal que isto possa parecer, é preciso enxergar além do "dark side of the moon" das pessoas. 

Em uma sociedade cada vez mais individualista e vaidosa, tendemos a buscar primeiro os defeitos alheios do que suas qualidades. Talvez inclinados pelo senso contemporâneo de que o inferno são os outros. Em verdade, somos todos céu e inferno, sol e tempestade. Fechamos os olhos ao que as pessoas têm de brilho e buscamos avidamente pelo o que elas têm de trevas e de menos notável. Talvez por um senso de sobrevivência, de busca por proteger-se do outro, ou então, também pode ser um reflexo de nossa necessidade de, ainda que implicitamente, buscarmos nos afirmarmos como superiores em uma sociedade onde tudo é cada vez mais concorrido e sujeito a likes e dislikes.

Costumo dizer que a história é escrita pelos "vilões" e pelos "malvados" e que os homens "bons" não marcam a história. O que as pessoas apresentam e fazem de ruim parece ter um impacto muito maior sobre nós do que aquilo que elas fazem e são de melhor. As lembranças e a história, assim como o noticiário, tendem a buscar as coisas ruins em detrimento das coisas boas; assim, ficamos sempre com a sensação de que as pessoas e o mundo são mais ruins do que bons. 

Ora, a mesma humanidade que produziu armas de destruição em massa foi a humanidade que encontrou diversas curas para salvar mais vidas do que as armas são capazes de ceifar diariamente. A mesma humanidade produziu Jesus Cristo e Adolf Hitler. Cabe a nós escolher qual lado estaremos mais dispostos a enxergar.

Uma vez, em um rápido papo de viagem de ônibus, perguntei a um colega de trabalho como ele percebeu e decidiu, de certa forma, que a esposa dele era a mulher com quem ele queria construir uma vida a dois e ter filhos. Em resposta, ele me disse, em suma, que todas as pessoas têm muitas qualidades e defeitos e que a esposa dele foi a pessoa com quem ele se relacionou cujos defeitos menos lhe incomodaram e mais eram toleráveis. 

Ou seja, ele escolheu sua esposa, em alguma medida, sopesando o quanto os defeitos dela eram menores do que os de outras pessoas, segundo o padrão estabelecido pela régua pessoal dele. Achei este ponto de vista intrigante. Óbvio que ele avaliou as qualidades dela, mas os defeitos tiveram um papel primordial no processo de escolha. 

Para entender este raciocínio, cheguei à conclusão de que, no fim das contas, ele relativizou os defeitos dela a ponto de eles tornarem-se pouco relevantes e as qualidades se sobressaírem. E aí tudo fez sentido para mim e corroborou minha ideia de que para ver as qualidades não precisamos ignorar os defeitos, mas não deixar que eles ofusquem o que as pessoas podem guardar de melhor.

É preciso escolher um referencial: enxergar com mais interesse o que as pessoas apresentam de melhor ou aquilo que elas apresentam de pior.

O relevante é o ponto de encontro entre tudo aquilo que somos e aquilo que efetivamente interessa às pessoas. Então, se aquilo que interessa ao outro é o que temos de defeitos, o que nos tornará relevante ao outro será aquilo que somos de ruim, e não todo o resto que temos de bom. Daí a importância de percebermos, o quanto antes, qual referencial temos buscado nas pessoas, para que saibamos o que tornamos relevante nas relações humanas e possamos mudar o referencial adotado.

No fim, somos todos imperfeitos e falhos. Somente quando nos damos conta disto é que passamos a dar valor e a respeitar as virtudes alheias.

O mundo é bão e as pessoas também.