segunda-feira, 28 de abril de 2014

The Champion of the World


Hurricane

Pistol shots ring out in the ballroom night
Enter Patty Valentine from the upper hall
She sees the bartender in a pool of blood
Cries out, "My God, they've killed them all! "
Here comes the story of the Hurricane
The man the authorities came to blame
For somethin' that he never done
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world

Three bodies lyin' there does Patty see
And another man named Bello, movin' around mysteriously
"I didn't do it, " he says, and he throws up his hands
"I was only robbin' the register, I hope you understand
I saw them leavin', " he says, and he stops
"One of us had better call up the cops. "
And so Patty calls the cops
And they arrive on the scene with their red lights flashin'
In the hot New Jersey night

Meanwhile, far away in another part of town
Rubin Carter and a couple of friends are drivin' around
Number one contender for the middleweight crown
Had no idea what kinda shit was about to go down
When a cop pulled him over to the side of the road
Just like the time before and the time before that
In Paterson that's just the way things go
If you're black you might as well not show up on the street
'Less you wanna draw the heat

Alfred Bello had a partner
and he had a rap for the cops
Him and Arthur Dexter Bradley were just out prowlin' around
He said, "I saw two men runnin' out
they looked likemiddleweights
They jumped into a white car with out-of-state plates. "
And Miss Patty Valentine just nodded her head
Cop said, "Wait a minute, boys, this one's not dead"
So they took him to the infirmary
And though this man could hardly see
They told him that he could identify the guilty men

Four in the mornin' and they haul Rubin in
Take him to the hospital and they bring him upstairs
The wounded man looks up through his one dyin' eye
Says, "Wha'd you bring him in here for? He ain't the guy! "
Yes, here's the story of the Hurricane
The man the authorities came to blame
For somethin' that he never done
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world

Four months later, the ghettos are in flame
Rubin's in South America, fightin' for his name
While Arthur Dexter Bradley's still in the robbery game
And the cops are puttin' the screws to him
lookin' for somebody to blame
"Remember that murder that happened in a bar? "
"Remember you said you saw the getaway car? "
"You think you'd like to play ball with the law? "
"Think it might-a been that fighter
that you saw runnin' that night? "
"Don't forget that you are white. "

Arthur Dexter Bradley said, "I'm really not sure. "
Cops said, "A poor boy like you could use a break
We got you for the motel job
and we're talkin' to your friend Bello
Now you don't wanta have to go back to jail
be a nice fellow
You'll be doin' society a favor
That sonofabitch is brave and gettin' braver
We want to put his ass in stir
We want to pin this triple murder on him
He ain't no Gentleman Jim. "

Rubin could take a man out with just one punch
But he never did like to talk about it all that much
It's my work, he'd say, and I do it for pay
And when it's over I'd just as soon go on my way
Up to some paradise
Where the trout streams flow and the air is nice
And ride a horse along a trail
But then they took him to the jail house
Where they try to turn a man into a mouse

All of Rubin's cards were marked in advance
The trial was a pig-circus, he never had a chance
The judge made Rubin's witnesses
drunkards from the slums
To the white folks who watched
he was a revolutionary bum
And to the black folks he was just a crazy nigger
No one doubted that he pulled the trigger
And though they could not produce the gun
The D. A. said he was the one who did the deed
And the all-white jury agreed

Rubin Carter was falsely tried
The crime was murder "one, " guess who testified?
Bello and Bradley and they both baldly lied
And the newspapers, they all went along for the ride
How can the life of such a man
Be in the palm of some fool's hand?
To see him obviously framed
Couldn't help but make me feel ashamed to live in a land
Where justice is a game

Now all the criminals in their coats and their ties
Are free to drink martinis and watch the sun rise
While Rubin sits like Buddha in a ten-foot cell
An innocent man in a living hell
That's the story of the Hurricane
But it won't be over till they clear his name
And give him back the time he's done
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world
(fonte: http://www.vagalume.com.br/bob-dylan/hurricane-traducao.html)


Foi assim que Bob Dylan cantou uma das histórias mais dramáticas que alguém já pôde ter vivido neste mundão de meu Deus. A letra da música, por si só, já conta tudo (aliás, Bob Dylan, mais uma vez, deu aula e mostrou que sim, é possível escrever música em inglês com sentido). Por isso, não quero usar este espaço para contar a história toda, até porque há milhares de sites na internet que trazem versões bem completas dela. O que eu quero é fazer uma homenagem a Rubin "Hurricane" Carter, o homem, o negro, o atleta, que ficou 19 anos preso pela prática de um homicídio que não cometeu.

Virou filme. "The Hurricane" ("Hurricane - O furacão", em português). Foi interpretado por Denzel Washington lá pelos idos dos anos 1990. Vi esse filme em uma noite de sábado no SBT, no auge dos meus 13 ou 14 anos, mas nunca mais esqueci desta história. Como um homem pode ficar preso por 19 anos por um crime que não cometeu? Mesmo sendo um talentoso boxeador que disputou um título mundial de boxe? Mais um negro vítima da racista sociedade americana dos anos 1960.

Rubin Carter não perdeu apenas anos de sua vida atrás das grades. Perdeu a chance de ser um grande campeão do boxe. Quem sabe a chance de ter sido um campeão do mundo. Mas mais do que isso, carregou o rótulo de assassino por anos atrás das grades, condenado por um sistema jurídico racista. Isso acaba com qualquer homem, com sua dignidade como pessoa. Mas ele venceu. A história da incrível injustiça sofrida por ele movimentou a opinião pública americana, gerou manifestações de apoio de celebridades e foi eternizada em uma música por Bob Dylan...

Em entrevista dada em 2011, Rubin Carter disse: "Eu não iria desistir. Não importa que eles me condenassem a três vidas na prisão, eu não iria desistir. Só porque um juri de 12 pessoas mal informadas me considera culpado, isso não significa que eu sou culpado. E porque eu não era culpado, eu me recusei a agir como um culpado." (http://oglobo.globo.com/esportes/morre-ex-lutador-de-boxe-rubin-carter-12250204#ixzz3091LmmZB)

Pra mim, ele foi um campeão do mundo, ele venceu o mundo, como um legítimo hurricane. Aliás, isso me lembra uma passagem da Bíblia bem assim: "Neste mundo vocês terão aflições, mas tenham coragem; eu venci o mundo." (Jo 16,33). Essa é a minha singela homenagem a Rubin "Hurricane" Carter, o homem que morreu de câncer de próstata em 20 de abril de 2014, aos 76 anos, mas que nunca deverá ser esquecido por aqueles que militam por sistemas jurídicos efetivamente justos, por igualdade racial e, acima de tudo, pela defesa da dignidade e da vida humana.


 hurricane... Como todos os fenômenos da natureza que se vão, você deixou suas marcas por onde passou.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Quantos mais?

Quantos mais precisarão vagar sem sul nem norte pelas ruas?
Quantos mais precisarão viver como mortos?
Quantos mais precisarão ser passageiros no próprio corpo?
Quantos mais precisarão acender cachimbos na escuridão?

CRACK

Quantos mais precisarão se tornar esqueletos de carne?
Quantos mais precisarão transformar fios de cobre em pedra?
Quantos mais precisarão fazer filhos sem ninguém para criar?
Quantos mais precisarão furtar para se viciar?

CRACK

Quantos mais precisarão se vender para fumar?
Quantos mais precisarão mexer no lixo para se alimentar?
Quantos mais precisarão ir para a cadeia para não mudar?
Quantos mais precisarão se internar para não se tratar?

CRACK

Quantos mais precisarão ter abstinência para pirar?
Quantos mais precisarão se agredir na madrugada para incomodar?
Quantos mais precisarão matar sem se lembrar?
Quantos mais precisarão morrer para se salvar?

CRACK

Quantos mais deixaremos?

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Que nesta páscoa possamos refletir sobre a vida, sobre quantas estamos dispostos a salvar com nossas próprias vidas, sobre quantos "mortos" estamos dispostos a ressuscitar.

domingo, 16 de março de 2014

Por aí

E aí? Ainda tem alguém aí? Tem. Eu sei que sempre tem. Mas se não tiver eu finjo que tem e escrevo assim mesmo. Quem não escreve desaparece. Escrevo por vocês de quem não tenho mais notícias.

Hoje eu tô escrevendo só pra fazer hora até as 03 da manhã, horário do GP da Austrália. Sim, eu tenho alguns vícios; alguns bem estranhos por sinal, como a tal Fórmula 1. Resquício dos tempos em que uma das minhas poucas diversões era ver TV. Aprendi muitas coisas na TV (inúteis e úteis) e em grande parte por causa dela sou capaz de conversar com alguma desenvoltura sobre quase tudo, sem passar vergonha. Viciei em quase tudo que passa na TV, mas aos poucos fui desviciando em algumas coisas, mas a tal da Fórmula 1 eu nunca consegui. Adoro essa relação "homem-super máquinas" no limite entre o erro e o acerto. Mas não é disso que quero escrever aqui.


Eu tenho uma certa atração pela morte. Não tenho vontade de morrer ou algo assim. Tenho uma relação de curiosidade, aquela que temos quando criança em relação a coisas que os adultos não gostam de falar na nossa presença. Talvez o que me atrai nela é saber que ninguém tem uma resposta inequívoca para o que acontece depois dela. É justamente por isso que não consigo conceber que cientistas digam que religião é algo sem pé nem cabeça quando nem a dona ciência (dona da verdade) sabe dizer o que acontece depois da morte. Teorias por teorias, tenho direito de escolher a teoria religiosa e não a científica.

Mas voltando. No meu trabalho tenho a oportunidade de ver em fotos, com alguma frequência, gente morta violentamente. Em geral não tenho problemas com sangue, pedaços de corpo etc (sinto um pouco de agonia só com corpos em decomposição). Pra falar a verdade, sinto um pouco de curiosidade em ver essas fotos; não se trata de sadismo ou prazer, mas curiosidade, vontade de entender como foi e porque ficou daquele jeito; algo meio clínico.

Mas essa semana vi fotos de um caso que me marcou muito. Fotos de um cara de 21 anos morto, enquanto estava trabalhando em um estabelecimento, por um disparo de arma de fogo dado por um moleque de 14 anos. Não. Não vou falar sobre redução da maioridade penal. Não sou a favor dessa redução, pois essa alteração legal, caso aprovada, seria algo que só serviria pra enxugar gelo, como nossa legislação já faz com muitas outras questões. Mas isso é tema pra outra postagem.

Ver as fotografias daquele cara de 21 anos cercado por uma enorme poça de sangue me fez sentir pena. Muita pena daquele cara. Um jovem como eu, como você, que teve a vida roubada em segundos. Um cara que tinha uma aliança de compromisso em um dos dedos e o sonho de estudar para ter seu próprio negócio (segundo familiares). Quanta coisa aquele jovem poderia ter feito na vida, poderia ter vivido. Enquanto via aquelas fotos eu não conseguia parar de pensar nisso. Nunca antes tinha ficado tão envolvido com a vítima de uma foto.

Somos passageiros neste mundo. Nada é mais incerto do que viver. Uma esquina virada na hora errada, uma pessoa mal intencionada do outro lado e tudo o que você fez por anos pode sumir em uma poça de sangue. Mais rápido do que a leitura deste parágrafo.


Que morte besta, meu Deus! Um moleque de 14 anos aprendiz de Zé Pequeno "sem nada a perder" (na cabeça dele) e um cara de 21 anos cheio de sonhos na mesma cena. O diretor não deveria permitir. Mas aconteceu e continuará acontecendo muitas outras vezes. Uma cena de improvisação, sem roteiro pré-definido. E o pior, quem mata, em boa parte das vezes, não tem a menor consciência do que isso significa. Matar. Eliminar sumariamente do jogo, sem explicações e chance de retorno. Infelizmente, muitas vezes quem mata não entende a gravidade do que está fazendo e nunca sequer parou para refletir sobre as consequências desse ato para quem sofre. Dada a naturalidade com que matam, devem acreditar em reencarnação, só pode. Devem ter a certeza de que a vida recomeça em outro corpo. Não tem outra explicação para agirem com tamanha naturalidade.

E o pior é que castigar o criminoso levando-o à cadeia não tem, na maioria das vezes, a capacidade de despertar qualquer consciência nesse sentido. Acho que matar alguém deve ser um caminho sem volta. Depois de matar o primeiro, acho pouco provável que quem matou vá sentir algum remorso nas próximas mortes que causar. Deve ser algo como "já tô no inferno, então vou abraçar o capeta, foda-se. Já que matei um, se precisar posso matar de novo." Imagino que algum tipo de peso de consciência deve existir só no começo, depois a coisa flui naturalmente.

Não acho que levar à cadeia como punição vá mudar a cabeça do moleque de 14 anos, franzino, de meio metro, que matou o jovem de 21 anos. Pra mim, é preciso "tratamento de choque". Penas criativas. Por exemplo, condenar o menor autor do crime a assistir, na presença de policiais, durante meses, os primeiros socorros de feridos a bala na emergência de hospitais, ter que frequentar o IML durante perícias em mortos, assistir a enterros, assistir a julgamentos de homicídios por jurados para entender as consequências penais do ato. Quem se sente pronto para matar, tem que estar pronto para ver as múltiplas consequências do que fez sob vários ângulos. Mandar direto para a cadeia não ensina nada. É preciso fazer ver com os próprios olhos, fazer o adolescente sentir o peso da responsabilidade que a vida lhe atribui por seus atos, e se ele, ainda assim, achar normal matar alguém, aí, não é mais caso de só prisão, pois, por certo, ele tem algum distúrbio psicológico.

A vida me fez cruzar com aquelas fotos em uma manhã de março e me fez perceber, mais uma vez, que sou um sortudo por tê-la. Ninguém sabe com certeza o que há pro lado de lá do muro. Céu, inferno, outro corpo esperando para ser ocupado, virar nada... Cabe a cada um escolher a teoria que lhe convencer melhor. A vida é incerta nas suas nuances, porém é uma certeza quando se está vivo. Já a morte é dúvida. Apesar disso, paradoxalmente, a única certeza que temos é a de que vamos um dia morrer.

Então, que saibamos viver, porque nunca estamos prontos para morrer.

domingo, 26 de janeiro de 2014

[Dando Uma] Serra Pelada

Mais uma crítica irresponsável de cinema.

Hoje quero dar pitaco sobre um dos poucos filmes que vi no cinema no ano de 2013: "Serra Pelada". Desde o dia que eu vi esse filme eu quis fazer uma postagem sobre ele, mas a certeza de que nem 5% dos leitores incertos deste blog teriam assistido ao mesmo me fez desistir da ideia. Então eis que a Rede Globo, para meu espanto, resolveu exibir esse filme como uma espécie de minissérie no começo deste ano, fato que renovou minha esperança de ter público para esta postagem.

Pois então. É sempre bom reforçar, sobretudo para os navegantes de 1ª viagem neste blog, que eu sei tanto de cinema quanto a maioria das pessoas sabe sobre as regras do golfe, a ponto de eu sequer saber ao certo o que faz um diretor. Ah, mais uma vez, essa não é uma sinopse de filme, logo não se destina a resumir a história, portanto, a leitura será mais proveitosa para quem já tiver assistido ao longa metragem. Na realidade, acho que vou falar mais da verdadeira Serra Pelada do que do filme... Mas enfim, vamos lá!


Não precisa ser um expert em cinema pra perceber que "Serra Pelada" foi uma produção bem pobre financeiramente. Elenco principal pequeno, poucos atores medalhões, poucos cenários etc. Mas o que mais me intrigou não foi isso, e sim o fato de terem explorado tão porcamente uma história tão rica. Serra Pelada é a história de um Eldorado em pleno século XX, no meio do nada e em meio aos perigos da floresta amazônica; a história de milhares de homens vindos de diferentes pontos do Brasil que largaram tudo para perseguir um incerto sonho dourado, o sonho de enriquecer achando ouro, mesmo sem nunca na vida terem sequer garimpado. Em síntese, como dito no próprio filme, é a história da maior concentração de trabalho humano desde a construção das pirâmides do Egito.


Pelo menos esse aspecto geral o filme conseguiu demonstrar. Conseguiu mostrar como esse sonho dourado foi capaz de contaminar tanta gente - dos mais variados tipos, diga-se de passagem. Os protagonistas do filme são um espelho disso: duas pessoas que deixaram São Paulo em direção a um garimpo desconhecido no interior do Pará, de onde corria Brasil afora a notícia de haver muito ouro a ser extraído. Aliás, até que a história dos protagonistas é interessante, consegue prender a atenção, mas ainda assim, os verdadeiros personagens de Serra Pelada mereciam um pouco mais.


É claro que "Serra Pelada" é um filme de ficção, e não um documentário, mas explorar tão pouco alguns detalhes da Serra Pelada verdadeira foi um pecado. Falaram tão pouco das loucuras feitas pelos bamburrados, das visitas ilustres de mulheres como Rita Cadillac em um ambiente no qual elas eram as únicas mulheres em um raio de quilômetros, assim como das dificuldades de se viver no interior do Pará - no meio da floresta amazônica, em meio à malária e outras sérias doenças, em meio ao calor infernal etc. Digo isso mal acostumado por histórias de filmes bem feitos como "Carandiru", que mesmo em meio a tantos detalhes a serem explorados, conseguem contar satisfatoriamente a história de muitos personagens simultaneamente. Mas pensando bem, não se pode exigir muito de um filme financeiramente pobre...

[Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre a verdadeira Serra Pelada, recomendo esta reportagem especial feita pela Rede Record, dividida em duas partes: Parte 1 e Parte 2. O que mais me intriga nessa reportagem são as histórias do bamburrado que bancou um voo exclusivo de Belém pro Rio de Janeiro, sozinho em um avião no qual cabia mais de 100 pessoas e pagando mais de cem mil reais (em dinheiro atualizado), e do cara que depois de ser milionário hoje vive miseravelmente e mesmo assim diz que se pudesse voltar no tempo gastaria tudo de novo! São essas coisas que me atraem tanto na história de Serra Pelada]

Enfim. Serra Pelada é muita história para um filme de pouco orçamento. De qualquer forma, valeu a tentativa. Algumas coisas são extremamente boas no filme, como, por exemplo, a trilha sonora, sobretudo das cenas passadas no "30"; músicas que se encaixam muito bem com o contexto regional e social. Gamei nesta música aqui, de um artista falecido que descobri se chamar Frankito Lopes (também conhecido como "o índio apaixonado"):



O filme também consegue tratar muito bem a questão da violência naquele cenário amazônico onde sobrava testosterona. São cenas muito boas de corre-corre, tiros e gritaria. E a Sophia Charlotte (acho que é assim que se escreve, não vou pesquisar)? Pessoalmente não acho ela uma grande atriz e muito menos uma das mais bonitas. Pensei que ela seria muito europeia pra fazer o papel que lhe deram no filme. Mas vou te dizer, no final das contas ela é a cereja do bolo no filme. Acho que como era o primeiro filme dela ela tava topando fazer tudo. Sem rodeios, ela mostrou ser bem gostosa. Belos peitos! Sobre a atuação dela? Sei lá. Acho que nem reparei. Como é que você vai reparar em interpretação numa hora dessas?

 

Se é pra falar de verdade sobre interpretação, posso dizer que mais uma vez Wagner Moura deu show. Um personagem pitoresco, cheio de trejeitos e de cenas inesquecíveis. Uma pena que talvez a melhor cena desse personagem não foi mostrada na minissérie da globo. Aliás, lamentável essa minissérie... O filme em si já é de enredo meio pobre, e com cenas cortadas então, virou quase uma sequência de fotografias. Creio que quem viu o filme só na Globo teve a sensação de que o filme era pior do que realmente era. Uma pena...

Um aspecto que me chamou a atenção no dia que vi o filme no cinema era a monotonia da história em razão dos poucos personagens e cenários. No entanto, isso tem um aspecto interessante, pois o filme consegue, ainda que involuntariamente, passar a quem o assiste a mesma monotonia que devia marcar a vida dos homens que viviam naquele garimpo amazônico, no meio do nada. Entende? É como se a pobreza de enredo fosse justamente para reproduzir a monotonia daquela vida de poucos cenários que aqueles homens tinham.

É um filme pobre cuja maior qualidade é a história de fundo: a história do garimpo de Serra Pelada. Foi justamente essa a motivação que me fez ir ao cinema ver esse filme. Eu nem sabia qual era a história dos personagens do filme e tampouco conhecia direito o elenco. Meu negócio mesmo era ver aquela loucura de 100 mil homens fervendo no meio da floresta em busca de um sonho tão incerto. Nesse aspecto, o filme merece uma menção honrosa, pois conseguiu mostrar bem como a busca pelo ouro era insana, como mexia com os valores daqueles homens, a ponto deles mesmo depois de conseguirem dinheiro suficiente para voltar para casa preferirem ficar lá para tentar conseguir ainda mais. É um ciclo vicioso. Nunca chega a hora de voltar, até que você perca todas as suas fichas. Serra Pelada se mostra como uma droga, como o vício em jogo, no qual após ganhar uma quantia significativa o jogador prefere reinvestir tudo o que ganhou para tentar ganhar mais.


Os protagonistas do filme vivem essa realidade. Acham ouro, mas preferem reinvestir para achar mais, tornando-se, assim, donos de barranco. Joaquim (vulgo "professor"), mesmo vendo, através de fotos, sua única filha crescer sem ele em São Paulo, resiste por anos em retornar para casa. Aquilo que era só uma aventura - ir, achar ouro e voltar - se torna algo viciante. Não há outra palavra além de "ganância" que seja capaz de explicar a escolha dos personagens em se deixar ficar voluntariamente naquele fim de mundo.

Sobre esse aspecto a reportagem da Record destacada anteriormente é um primor. Mostra a história de homens que nunca mais voltaram para suas terras depois de pisar em Serra Pelada. Homens que vivem há décadas naquela região ainda na esperança de poder pegar o ouro que talvez ainda exista abaixo daquela terra. Homens que não sabem mais como viver se não for sonhando com o ouro de Serra Pelada, que seriam incapazes de voltar "pra casa" depois de tantos anos. Homens para os quais Serra Pelada se tornou casa e continuará sendo mesmo se ainda conseguirem bamburrar numa improvável última garimpagem no local.

É o poder dos sonhos. Muitas vezes aquilo que era sonho se torna ilusão, mas não conseguimos perceber ou relutamos em aceitar.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Hero

Um dia me senti herói.
Herói da espada de pau
Ou seria um herói perna de pau?
Mas fui herói.

Um herói daqueles que vivem em cavernas,
Sem janelas.
Prontos a sair para salvar o mundo
E a voltar para casa no escuro.

Já cantava Bowie:
We can be Heroes
Just for one day.
Eu fui um hero,
Just for one day...

Ganhei o beijo da minha Mary Jane,
Os louros da vitória,
Os créditos,
E a realização.

Depois,
Descobri que não fui herói
Que pouco resolvi
Talvez nada fiz.

Se foi a glória.
Minha Mary Jane?
Desde esse dia nunca mais a vi.
Deve estar por aí.

Voltei à caverna;
Aquela sem janelas,
Numa sobreloja
Com goteiras sem fim.

É Bowie...
Just for one day
We can be heroes
Eu pude sentir.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

God bless America

Volta e meia eu me pego sentindo inveja dos americanos (norte-americanos ou estadunidenses, se você preferir). É estranho sentir inveja de alguém que você não conhece de perto, mas apenas de ouvir dizer. Eu sinto. Sinto inveja da história construída por meio de luta e do sentimento de nação dos americanos. Sinto inveja da história que cada estrela daquela bandeira traz em si.

Mas tem uma coisa que me desperta uma inveja ainda mais acentuada: a maturidade dos meios de comunicação norte-americanos, mais precisamente, a coragem que eles têm de serem parciais. Sim. Eles são parciais. E eu acho isso fantástico, porque eles não têm medo e nem vergonha de serem assim.

Já aqui, abaixo da Linha do Equador (ou do pecado), se uma emissora assume ser parcial, ela é praticamente "excomungada". Aqui, os meios de comunicação, sobretudo os de televisão, enchem a boca para dizer que são imparciais, como se ser parcial fosse um problema. A realidade, senhores, é que nossos meios de comunicação são tão ou até mais parciais do que os americanos, mas não assumem. É aí que reside a covardia, na minha opinião.

Ser um meio de comunicação parcial não é um problema quando o público tem conhecimento deste fato. Nos Estados Unidos é muito interessante ver como algumas emissoras de TV (como a Fox News), alguns programas, apresentadores e jornalistas se posicionam claramente em prol do Partido Democrata ou do Partido Republicano durante as eleições. E eles não sentem vergonha nenhuma disso. Todos sabem previamente que estão diante de uma emissora/programa/jornalista republicano ou democrata. Aliás, é até engraçado ver programas de humor fazendo campanha contra alguns candidatos. Acho isso lindo, porque representa o que de fato é a liberdade de imprensa.

Já aqui, há revistas, canais de televisão e jornalistas anti-governo e pró-governo que fingem que são imparciais e que não têm interesses políticos. Pelo amor de Deus! Por que fazem isso conosco? Por que não assumem de que lado estão? Não aguento esse papo de imparcialidade. Ninguém consegue ser imparcial de verdade. Não tenho prova científica, mas não acredito que somos capazes de agir imparcialmente em nada. A imparcialidade pode e deve ser uma meta (utópica, aliás) a ser observada para a prática de algumas condutas, mas não podemos nos iludir achando que somos capazes de atingi-la. Cada escolha que fazemos já traz em si um pouco de parcialidade, um pouco de nós mesmos, seres parciais por natureza.

E como é que um meio de comunicação, que, além de ser formado por pessoas de concepções de mundo das mais variadas, é alimentado por interesses de seus financiadores, pode se dizer imparcial? É uma piada. Mas não no Brasil. Aqui é um lugar meio estranho pra algumas coisas. Sei que não tem nada a ver, mas lembrei de uma frase de Tim Maia bem assim: "O Brasil é o único país em que além de puta gozar, cafetão sentir ciúmes e traficante ser viciado, o pobre é de direita." Faltou dizer que aqui a imprensa também é imparcial.

O que fazem com a gente é covardia. Por que não se assumem? Por que não dizem logo quem querem que seja o próximo presidente? Aí sou obrigado a ficar vendo William Waack abrindo 8 em cada 10 Jornal da Globo fazendo uma análise crítica (geralmente um breve comentário de uns 15 segundos) contra o governo federal antes de anunciar as manchetes do jornal. Porra! Assume logo. Tá chegando as eleições e já tá começando a campanha partidária disfarçada. No auge do processo eleitoral, os meios de comunicação vão dizer que "estão fazendo uma cobertura imparcial das eleições para ajudar o eleitor a conhecer todos os candidatos e fazer sua escolha democrática". Bla bla bla. E depois de acabar de falar isso, vão fazer coisas como o que fizeram com o candidato que liderava até então as pesquisas pra prefeitura de São Paulo em 2012 (coincidência ou não, ele liderava as pesquisas e depois nem foi pro 2º turno). Só pra constar, a ideia era dar ao candidato a oportunidade de, por alguns minutos, falar de suas propostas para a cidade...


Ser parcial não é um problema, desde que se assuma isso ao público. É um crime enganar os telespectadores dizendo-se imparcial. Eu, como telespectador, gostaria de saber quem apoia quem, porque pelo menos assim saberia ao assistir ao canal "X" que ele está inclinado a favorecer "A" ao invés de "B". Ou seja, eu saberia previamente o que esperar de cada meio de comunicação. Ora, por que a revista Veja não se assume? É pecado dizer que apóia PSDB e DEM e que não gosta do PT? Não é pecado ter um lado, mas é uma tremenda covardia fingir e negar de pé junto que não tem.

Ano que vem vai começar tudo de novo. A mesma historinha de imparcialidade/democracia. Vai começar a festa da hipocrisia. Acabou a ditadura, meus filhos. Democracia requer meios de comunicação livres para serem o que quiserem, inclusive parciais politicamente. Na democracia ninguém precisa fingir nada. Pra mim, mais importante do que se dizer imparcial, um meio de comunicação precisa ter transparência, deixar claro quais são suas verdadeiras convicções.

Mas fazendo um meia culpa. Será que nós, brasileiros, já temos maturidade suficiente para lidar com meios de comunicação assumidamente parciais como nos EUA? Será que não somos nós que de alguma forma ainda preferimos acreditar em imparcialidade e exigimos isso dos meios de comunicação? Você já viu a reação que muitas pessoas têm quando alguém fala daquela revista chamada Carta Capital? Dizem coisas do tipo "Ah, aquela revista é de esquerda, não dá pra dar credibilidade ao que ela diz do governo". Ora, melhor ler sabendo que ela é assumidamente de "esquerda" do que ler achando que ela é imparcial. Pelo menos eu penso assim. Mas às vezes tenho dúvidas se de fato as pessoas preferem isso. Enfim, falei demais.

Por Don Quasímodo, um apoiador assumido dos Sans Culottes.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

[Dando Uma] Cisne Negro

Aprendi muitas coisas com os blogs que sigo, sobretudo sobre a liberdade de postar o que der na telha, sem compromisso de seguir sempre uma mesma temática e um jeito de escrever. Sinto falta de alguns blogs "inativos", como o Polvo. Por isso, gostaria de neste momento "dar uma" de Polvo, postando sobre algo que muito gostava de ver por lá, textos sobre filmes. Me perdoem a homenagem mal feita e sem conhecimento técnico de cinema.

Inicialmente, é preciso que se fique claro que entendo tanto de cinema quanto uma mulher comumente entende de futebol. Não entendo nada sobre a fotografia de um filme, por exemplo, e tenho dificuldades até mesmo para entender porque um diretor consegue ter tanto destaque se nem é ele que escreve o roteiro. Mas enfim... Vou falar sobre o que eu, leigo, senti de um filme que vi na calada da madrugada do último sábado/domingo (deixando claro que não era o filme "Emanuelle").


Na madrugada do último domingo me peguei vendo na Grobo um filme "feminino" e meio desatualizado: "Cisne Negro". Sim, demoro muito para ver filmes que fizeram sucesso, coisa em torno de anos. Queria entender porque este filme era tão falado. 

Dizem que ganhou Oscar, mas ainda não parei pra conferir no Google, porque vai contra o que me propus a fazer aqui: falar só o que eu acho, com a pureza das minhas próprias impressões. Não me proponho a fazer uma sinopse do filme, logo, me parece um texto para quem já viu o filme.

O que me atraiu na chamada do filme foi a palavra perfeição, a busca de uma pessoa pela perfeição. Me identifiquei com a obsessão da personagem em ser perfeita naquilo que fazia. Não entendo nada de balé e tampouco conhecia a tal história dos cisnes, mas me interessei muito pela história do filme. "Cisne Negro" desperta diferentes sensações, a maioria delas ruins, uma agonia tremenda com aquelas viagens da personagem. O tempo todo trafegando entre a linha da realidade e da imaginação, sem que fique claro qual hora você está vendo a Nina delirando ou no mundo real. Até agora não sei muito bem o que era realidade e o que era imaginação dela. Ainda me pergunto se ela realmente morreu no final. Aliás, que final, senhores! Pelo que entendi, na história dos cisnes há uma mulher aprisionada dentro de um cisne e quer se libertar e o filme conseguiu fazer o oposto, ou seja, um cisne querendo se libertar de dentro de uma mulher. Que sacação! Eu diria que genial!


E a atriz? Aquela que não sei o nome. Não vou no google! Nicole Portman? Algo assim. Sei lá. Perfeita. Antes de dizer que ela é uma gata, uma magra com belos seios, preciso dizer que ela é a personificação de uma garota frágil. Perfeita para a Nina. É simplesmente angustiante ver aquela garota tão frágil, inocente e frígida ir se transformando em alguém tão diferente, tão forte, tão viva e ao mesmo tempo...tão morta. Ela começou a morrer no momento em que começou a ser intensa. Foi tão intensa que perdeu o controle da própria vida.


Outra coisa. Não entendo nada de balé, teatro, cinema e afins, mas que agonia que deu sentir que um/uma artista de qualidade pode precisar se "prostituir" para ter uma chance de brilhar; precisar puxar saco, se deixar assediar sexualmente por um diretor ou sei lá o quê. De alguma forma parecia que Nina não sabia dessa realidade, mas quando soube também não fez nada para evitar, se ofereceu ao jogo, embora em muitos momentos pareça estranhar e sentir nojo dessa realidade, se recusando a ceder de alguma forma. Nina é contraditória neste aspecto. Aliás, o que são aquelas cenas da Nina se masturbando e tendo uma relação sexual com sua "rival"? Como é bom ser homem e ver a Nicole (vou chamar ela de Nicole mesmo) fazendo caras e bocas nesta situação. Sem mais. Uma magra muito sensual!

Meu tempo tá acabando, mas preciso destacar que me identifiquei na busca da Nina pela perfeição. Me reconheci na Nina pré mudanças, na Nina disciplinada, mas frígida. Pude perceber que pouco vale ser disciplinado e não sentir o que está fazendo. Há pessoas que são tão boas que conseguem ser perfeitas sem disciplina excessiva, conseguem fazer com naturalidade o que sabem, como a rival da Nina na imaginação dela. E há outras que não são boas, mas que são tão disciplinadas em aprender algo que alguma hora se tornam boas. Apesar disso, de tanta disciplina esses obstinados não conseguem fazer o que aprenderam com naturalidade. A Nina, a meu ver, estava nessa segunda categoria, mas conseguiu chegar ao lado de lá, ingressar no lado dos naturalmente talentosos. É lindo vê-la passar de um lado para o outro gradativamente (junto com o cisne que vai saindo de dentro dela) e chegar à perfeição, mas é triste ver o preço que ela precisou pagar para ser perfeita e mudar de lado.

Amo a perfeição e, infelizmente, acho que ela existe. Acho que a perfeição é alcançada, por aqueles que são disciplinados e sem talento inato, sempre que eles agem no limite, entre o racionalmente possível para a maioria e a linha do até onde estão dispostos a ir por ela. Por isso acho tão bela e desafiante a perfeição, pois as pessoas "comuns" só chegam a ela quando arriscam ir além do que a maioria considera ser seguro ir. Mas o que é a perfeição? Não seria algo muito subjetivo? Pois então, Nina alcançou aquilo que seu diretor julgava ser perfeito. Esse é o risco de se amar a perfeição. O que cada um considera perfeito não é o que todos consideram. Algumas modelos acham que ficam mais próximas da perfeição quando param de comer. Para alcança-la elas acham que precisam ir além da linha do racionalmente possível, ou seja, do que é saudável.

Nadia Comaneci e o 10 perfeito. 
Detalhe que o placar não estava preparado para marcar uma nota 10
De alguma forma, Nina começou a morrer quando foi se aproximando da perfeição, indo além daquilo que poderia conquistar só tendo disciplina. Mas repito, o que é a perfeição? Para mim, leigo em balé, Nina era perfeita desde quando ainda era só uma bailarina normal. Mas para o diretor dela ela não era. Vale a pena ser perfeito? Alcançar a perfeição deve ser como usar crack, deve ser uma sensação boa muito rápida, que logo passa. Vale a pena buscar a perfeição? Se isto for o que te manter vivo, essa busca insana por limites a serem quebrados, talvez valha. Mas de que vale ir morrendo aos poucos para buscá-la? Será que não é melhor ser imperfeito, porém ser uma pessoa viva?

Senna pagou com a vida sua busca pela volta perfeita
Tudo em 1 hora ou nada. Uma dentro e nada mais.