sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ela está linda

Acharam que eu ia deixar acabar a Copa do Mundo sem escrever nada sobre ela? De jeito nenhum! Acho que em 2010 escrevi mais sobre a Copa porque não havia bom futebol para assistir. Lembra da mulher bonita que acordou toda zuada em 2010, toda descabelada e feia? http://meuspensamentosabstratos.blogspot.com.br/2010/07/acho-que-acabou-ne-odeio-despedidas.html

Pois então! Aquela mulher acordou feia em 2010, mas está linda em 2014. Que grata surpresa é 2014. Gols, gols e mais gols. Até agora, como viciado em futebol, não tenho o que reclamar. O retorno do bom futebol depois de uma Copa do Mundo de bosta como em 2010 é realmente algo para se comemorar.

Aliás, a eliminação precoce da Espanha é um reflexo disso. Já em 2010 (vide link acima) eu tinha alertado que o futebol da então campeã mundial era uma fraude. Tiki-Taka para mim sempre foi sinônimo de não-futebol, de enrolação, de falta de objetividade e de, acima de tudo, falta de gols. Meus filhos, futebol é bola na rede, não há nada no futebol como o grito de GOL. Que os deuses do futebol permitam que esse Tiki-Taka, Titi-Caca, Titica, ou sei lá o quê, nunca mais dê as cartas em uma Copa do Mundo.


Neste exato momento estou escrevendo este texto em um caderno enquanto assisto a Costa Rica vencendo a Itália e cravando uma inesperada classificação para a segunda fase da Copa do Mundo em um grupo no qual todos os experts diziam, antes de a Copa começar, que a briga da Costa Rica seria para não ser goleada por muitos gols pelas três seleções campeãs mundiais de seu grupo (Inglaterra, Itália e Uruguai). Quem esperava por uma Costa Rica tão atrevida? Aposto que nem eles mesmos.

Nesta Copa do Mundo haverá surpresas, senhores! Graças a Deus! Os grupos ficaram muito desequilibrados em razão de times sem muita tradição como Bélgica, Suíça e Colômbia terem sido colocadas como cabeças de chave e de os sorteios terem propiciado a formação de alguns grupos só com seleções medianas e fracas. Isto é o futebol! Talvez o esporte mais imprevisível de todos.

Estou com pouco tempo e escrevendo no puro ímpeto, sem ideias fixas e organizadas. No puro coração! Mas mesmo nessa correria preciso dizer algumas coisas pontuais: 

Que orgulho saber que ninguém lembrará da nossa Copa como aquela em que bolas entraram e o juiz não viu. Já era hora de haver um sistema inteligente gol/não gol. O gol é o que há de mais importante no esporte mais popular do planeta, era uma indecência times serem eliminados ou perderem títulos mundiais (como a Alemanha em 1966) porque não havia tecnologia para dizer se uma bola cruzou a linha do gol ou não.


Um ponto negativo desta Copa, no entanto, são as contusões que tiraram dela jogadores como Ribéry e Falcao García. Outro ponto negativo são os pavorosos jogos de 13 horas! Quem foi o gênio? Futebol às 13 horas em Recife/PE. É brincadeira... Pode ter certeza que vai ter time europeu eliminado "antes da hora" que vai querer reclamar disso - em parte com razão, penso eu.

Mas aí, os ingleses tinham que se fuder mesmo. Povo estranho. A imprensa deles reclamou tanto de Manaus, falando mal da temperatura, da umidade, da distância, do gramado, dos perigos da violência e das doenças... Como se fosse um paraíso aquela ilha eternamente chuvosa e fria, de gente gelada, onde torcedores bêbados se matavam até meados dos anos 1980 sem qualquer motivo e onde um eletricista estrangeiro é confundido com terrorista e morto pela polícia...

Parabéns, ingleses! Desde 1966 vocês não chegam nem em final de Copa do Mundo, seja em solo "civilizado" ou na "selva". Desde 1966 vocês não assustam ninguém, sendo que nos últimos 15 anos suas esperanças se resumiam sobretudo ao futebol de um jogador mais conhecido pela beleza do que pelo futebol. Vocês reclamaram muito em 2014 e esqueceram de jogar futebol.

Viva a Amazônia! Ela mereceu receber jogos de Copa. afinal, também é um pedaço (um dos mais importantes, diga-se de passagem) do Brasil, bem como é o pulmão do mundo. Uma Copa no Brasil sem a Amazônia não seria uma Copa legitimamente brasileira!

Viva a Costa Rica! Ela acabou de vencer outra seleção campeã do mundo e de se classificar para as Oitavas de Final mesmo estando no "grupo da morte". Ah, esse resultado acaba de eliminar em definitivo os ingleses.

Isso é o futebol, bebê!

sábado, 24 de maio de 2014

Desafio

Rimas
Pra você!
Aliás!
No usted.

Não começa com P.
Nem termina com A.
O que quero dizer?
Deixa pra lá...

Hoje eu rimo.
Ontem xinguei.
Agora só hino,
Coisa de rei.

Quando tudo é wild
Falta soñar.
É preciso ser humilde,
Puxar o ar.

Chega de arte!
Depois melhora.
Perdi a classe
Deu a hora!

Por quê?

Às vezes me pergunto
Por quê?
Mas sabe?
Melhor não responder.

Dá vergonha
Lembrar,
Pensar,
Explicar.

O que se faz
Não se comenta.
Talvez por reais
Vire uma sentença.

Antes do agora
Poderia ser o depois.
E o passado?
Reparte em dois.

Um pra levar.
Outro pra ficar.
Um pra lembrar.
Outro pra queimar.

Por quê?
Volte ao começo.
No passado
Era só texto.

domingo, 11 de maio de 2014

Farol


Quanto custa?
Não há como pagar.
Quanto pode?
Não quero incentivar.

Não há preço
Que paga o que se perdeu.
Nem tempo
Que apaga o que se vendeu.

A beleza?
Tem preço.
A alma?
Um adereço.

O corpo,
Você dá.
O espírito,
Como comprar?

Uma prece
Na tentação.
Uma penitência
Por perdão.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

The Champion of the World


Hurricane

Pistol shots ring out in the ballroom night
Enter Patty Valentine from the upper hall
She sees the bartender in a pool of blood
Cries out, "My God, they've killed them all! "
Here comes the story of the Hurricane
The man the authorities came to blame
For somethin' that he never done
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world

Three bodies lyin' there does Patty see
And another man named Bello, movin' around mysteriously
"I didn't do it, " he says, and he throws up his hands
"I was only robbin' the register, I hope you understand
I saw them leavin', " he says, and he stops
"One of us had better call up the cops. "
And so Patty calls the cops
And they arrive on the scene with their red lights flashin'
In the hot New Jersey night

Meanwhile, far away in another part of town
Rubin Carter and a couple of friends are drivin' around
Number one contender for the middleweight crown
Had no idea what kinda shit was about to go down
When a cop pulled him over to the side of the road
Just like the time before and the time before that
In Paterson that's just the way things go
If you're black you might as well not show up on the street
'Less you wanna draw the heat

Alfred Bello had a partner
and he had a rap for the cops
Him and Arthur Dexter Bradley were just out prowlin' around
He said, "I saw two men runnin' out
they looked likemiddleweights
They jumped into a white car with out-of-state plates. "
And Miss Patty Valentine just nodded her head
Cop said, "Wait a minute, boys, this one's not dead"
So they took him to the infirmary
And though this man could hardly see
They told him that he could identify the guilty men

Four in the mornin' and they haul Rubin in
Take him to the hospital and they bring him upstairs
The wounded man looks up through his one dyin' eye
Says, "Wha'd you bring him in here for? He ain't the guy! "
Yes, here's the story of the Hurricane
The man the authorities came to blame
For somethin' that he never done
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world

Four months later, the ghettos are in flame
Rubin's in South America, fightin' for his name
While Arthur Dexter Bradley's still in the robbery game
And the cops are puttin' the screws to him
lookin' for somebody to blame
"Remember that murder that happened in a bar? "
"Remember you said you saw the getaway car? "
"You think you'd like to play ball with the law? "
"Think it might-a been that fighter
that you saw runnin' that night? "
"Don't forget that you are white. "

Arthur Dexter Bradley said, "I'm really not sure. "
Cops said, "A poor boy like you could use a break
We got you for the motel job
and we're talkin' to your friend Bello
Now you don't wanta have to go back to jail
be a nice fellow
You'll be doin' society a favor
That sonofabitch is brave and gettin' braver
We want to put his ass in stir
We want to pin this triple murder on him
He ain't no Gentleman Jim. "

Rubin could take a man out with just one punch
But he never did like to talk about it all that much
It's my work, he'd say, and I do it for pay
And when it's over I'd just as soon go on my way
Up to some paradise
Where the trout streams flow and the air is nice
And ride a horse along a trail
But then they took him to the jail house
Where they try to turn a man into a mouse

All of Rubin's cards were marked in advance
The trial was a pig-circus, he never had a chance
The judge made Rubin's witnesses
drunkards from the slums
To the white folks who watched
he was a revolutionary bum
And to the black folks he was just a crazy nigger
No one doubted that he pulled the trigger
And though they could not produce the gun
The D. A. said he was the one who did the deed
And the all-white jury agreed

Rubin Carter was falsely tried
The crime was murder "one, " guess who testified?
Bello and Bradley and they both baldly lied
And the newspapers, they all went along for the ride
How can the life of such a man
Be in the palm of some fool's hand?
To see him obviously framed
Couldn't help but make me feel ashamed to live in a land
Where justice is a game

Now all the criminals in their coats and their ties
Are free to drink martinis and watch the sun rise
While Rubin sits like Buddha in a ten-foot cell
An innocent man in a living hell
That's the story of the Hurricane
But it won't be over till they clear his name
And give him back the time he's done
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world
(fonte: http://www.vagalume.com.br/bob-dylan/hurricane-traducao.html)


Foi assim que Bob Dylan cantou uma das histórias mais dramáticas que alguém já pôde ter vivido neste mundão de meu Deus. A letra da música, por si só, já conta tudo (aliás, Bob Dylan, mais uma vez, deu aula e mostrou que sim, é possível escrever música em inglês com sentido). Por isso, não quero usar este espaço para contar a história toda, até porque há milhares de sites na internet que trazem versões bem completas dela. O que eu quero é fazer uma homenagem a Rubin "Hurricane" Carter, o homem, o negro, o atleta, que ficou 19 anos preso pela prática de um homicídio que não cometeu.

Virou filme. "The Hurricane" ("Hurricane - O furacão", em português). Foi interpretado por Denzel Washington lá pelos idos dos anos 1990. Vi esse filme em uma noite de sábado no SBT, no auge dos meus 13 ou 14 anos, mas nunca mais esqueci desta história. Como um homem pode ficar preso por 19 anos por um crime que não cometeu? Mesmo sendo um talentoso boxeador que disputou um título mundial de boxe? Mais um negro vítima da racista sociedade americana dos anos 1960.

Rubin Carter não perdeu apenas anos de sua vida atrás das grades. Perdeu a chance de ser um grande campeão do boxe. Quem sabe a chance de ter sido um campeão do mundo. Mas mais do que isso, carregou o rótulo de assassino por anos atrás das grades, condenado por um sistema jurídico racista. Isso acaba com qualquer homem, com sua dignidade como pessoa. Mas ele venceu. A história da incrível injustiça sofrida por ele movimentou a opinião pública americana, gerou manifestações de apoio de celebridades e foi eternizada em uma música por Bob Dylan...

Em entrevista dada em 2011, Rubin Carter disse: "Eu não iria desistir. Não importa que eles me condenassem a três vidas na prisão, eu não iria desistir. Só porque um juri de 12 pessoas mal informadas me considera culpado, isso não significa que eu sou culpado. E porque eu não era culpado, eu me recusei a agir como um culpado." (http://oglobo.globo.com/esportes/morre-ex-lutador-de-boxe-rubin-carter-12250204#ixzz3091LmmZB)

Pra mim, ele foi um campeão do mundo, ele venceu o mundo, como um legítimo hurricane. Aliás, isso me lembra uma passagem da Bíblia bem assim: "Neste mundo vocês terão aflições, mas tenham coragem; eu venci o mundo." (Jo 16,33). Essa é a minha singela homenagem a Rubin "Hurricane" Carter, o homem que morreu de câncer de próstata em 20 de abril de 2014, aos 76 anos, mas que nunca deverá ser esquecido por aqueles que militam por sistemas jurídicos efetivamente justos, por igualdade racial e, acima de tudo, pela defesa da dignidade e da vida humana.


Vá hurricane... Como todos os fenômenos da natureza que se vão, você deixou suas marcas por onde passou.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Quantos mais?

Quantos mais precisarão vagar sem sul nem norte pelas ruas?
Quantos mais precisarão viver como mortos?
Quantos mais precisarão ser passageiros no próprio corpo?
Quantos mais precisarão acender cachimbos na escuridão?

CRACK

Quantos mais precisarão se tornar esqueletos de carne?
Quantos mais precisarão transformar fios de cobre em pedra?
Quantos mais precisarão fazer filhos sem ninguém para criar?
Quantos mais precisarão furtar para se viciar?

CRACK

Quantos mais precisarão se vender para fumar?
Quantos mais precisarão mexer no lixo para se alimentar?
Quantos mais precisarão ir para a cadeia para não mudar?
Quantos mais precisarão se internar para não se tratar?

CRACK

Quantos mais precisarão ter abstinência para pirar?
Quantos mais precisarão se agredir na madrugada para incomodar?
Quantos mais precisarão matar sem se lembrar?
Quantos mais precisarão morrer para se salvar?

CRACK

Quantos mais deixaremos?

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Que nesta páscoa possamos refletir sobre a vida, sobre quantas estamos dispostos a salvar com nossas próprias vidas, sobre quantos "mortos" estamos dispostos a ressuscitar.

domingo, 16 de março de 2014

Por aí

E aí? Ainda tem alguém aí? Tem. Eu sei que sempre tem. Mas se não tiver eu finjo que tem e escrevo assim mesmo. Quem não escreve desaparece. Escrevo por vocês de quem não tenho mais notícias.

Hoje eu tô escrevendo só pra fazer hora até as 03 da manhã, horário do GP da Austrália. Sim, eu tenho alguns vícios; alguns bem estranhos por sinal, como a tal Fórmula 1. Resquício dos tempos em que uma das minhas poucas diversões era ver TV. Aprendi muitas coisas na TV (inúteis e úteis) e em grande parte por causa dela sou capaz de conversar com alguma desenvoltura sobre quase tudo, sem passar vergonha. Viciei em quase tudo que passa na TV, mas aos poucos fui desviciando em algumas coisas, mas a tal da Fórmula 1 eu nunca consegui. Adoro essa relação "homem-super máquinas" no limite entre o erro e o acerto. Mas não é disso que quero escrever aqui.


Eu tenho uma certa atração pela morte. Não tenho vontade de morrer ou algo assim. Tenho uma relação de curiosidade, aquela que temos quando criança em relação a coisas que os adultos não gostam de falar na nossa presença. Talvez o que me atrai nela é saber que ninguém tem uma resposta inequívoca para o que acontece depois dela. É justamente por isso que não consigo conceber que cientistas digam que religião é algo sem pé nem cabeça quando nem a dona ciência (dona da verdade) sabe dizer o que acontece depois da morte. Teorias por teorias, tenho direito de escolher a teoria religiosa e não a científica.

Mas voltando. No meu trabalho tenho a oportunidade de ver em fotos, com alguma frequência, gente morta violentamente. Em geral não tenho problemas com sangue, pedaços de corpo etc (sinto um pouco de agonia só com corpos em decomposição). Pra falar a verdade, sinto um pouco de curiosidade em ver essas fotos; não se trata de sadismo ou prazer, mas curiosidade, vontade de entender como foi e porque ficou daquele jeito; algo meio clínico.

Mas essa semana vi fotos de um caso que me marcou muito. Fotos de um cara de 21 anos morto, enquanto estava trabalhando em um estabelecimento, por um disparo de arma de fogo dado por um moleque de 14 anos. Não. Não vou falar sobre redução da maioridade penal. Não sou a favor dessa redução, pois essa alteração legal, caso aprovada, seria algo que só serviria pra enxugar gelo, como nossa legislação já faz com muitas outras questões. Mas isso é tema pra outra postagem.

Ver as fotografias daquele cara de 21 anos cercado por uma enorme poça de sangue me fez sentir pena. Muita pena daquele cara. Um jovem como eu, como você, que teve a vida roubada em segundos. Um cara que tinha uma aliança de compromisso em um dos dedos e o sonho de estudar para ter seu próprio negócio (segundo familiares). Quanta coisa aquele jovem poderia ter feito na vida, poderia ter vivido. Enquanto via aquelas fotos eu não conseguia parar de pensar nisso. Nunca antes tinha ficado tão envolvido com a vítima de uma foto.

Somos passageiros neste mundo. Nada é mais incerto do que viver. Uma esquina virada na hora errada, uma pessoa mal intencionada do outro lado e tudo o que você fez por anos pode sumir em uma poça de sangue. Mais rápido do que a leitura deste parágrafo.


Que morte besta, meu Deus! Um moleque de 14 anos aprendiz de Zé Pequeno "sem nada a perder" (na cabeça dele) e um cara de 21 anos cheio de sonhos na mesma cena. O diretor não deveria permitir. Mas aconteceu e continuará acontecendo muitas outras vezes. Uma cena de improvisação, sem roteiro pré-definido. E o pior, quem mata, em boa parte das vezes, não tem a menor consciência do que isso significa. Matar. Eliminar sumariamente do jogo, sem explicações e chance de retorno. Infelizmente, muitas vezes quem mata não entende a gravidade do que está fazendo e nunca sequer parou para refletir sobre as consequências desse ato para quem sofre. Dada a naturalidade com que matam, devem acreditar em reencarnação, só pode. Devem ter a certeza de que a vida recomeça em outro corpo. Não tem outra explicação para agirem com tamanha naturalidade.

E o pior é que castigar o criminoso levando-o à cadeia não tem, na maioria das vezes, a capacidade de despertar qualquer consciência nesse sentido. Acho que matar alguém deve ser um caminho sem volta. Depois de matar o primeiro, acho pouco provável que quem matou vá sentir algum remorso nas próximas mortes que causar. Deve ser algo como "já tô no inferno, então vou abraçar o capeta, foda-se. Já que matei um, se precisar posso matar de novo." Imagino que algum tipo de peso de consciência deve existir só no começo, depois a coisa flui naturalmente.

Não acho que levar à cadeia como punição vá mudar a cabeça do moleque de 14 anos, franzino, de meio metro, que matou o jovem de 21 anos. Pra mim, é preciso "tratamento de choque". Penas criativas. Por exemplo, condenar o menor autor do crime a assistir, na presença de policiais, durante meses, os primeiros socorros de feridos a bala na emergência de hospitais, ter que frequentar o IML durante perícias em mortos, assistir a enterros, assistir a julgamentos de homicídios por jurados para entender as consequências penais do ato. Quem se sente pronto para matar, tem que estar pronto para ver as múltiplas consequências do que fez sob vários ângulos. Mandar direto para a cadeia não ensina nada. É preciso fazer ver com os próprios olhos, fazer o adolescente sentir o peso da responsabilidade que a vida lhe atribui por seus atos, e se ele, ainda assim, achar normal matar alguém, aí, não é mais caso de só prisão, pois, por certo, ele tem algum distúrbio psicológico.

A vida me fez cruzar com aquelas fotos em uma manhã de março e me fez perceber, mais uma vez, que sou um sortudo por tê-la. Ninguém sabe com certeza o que há pro lado de lá do muro. Céu, inferno, outro corpo esperando para ser ocupado, virar nada... Cabe a cada um escolher a teoria que lhe convencer melhor. A vida é incerta nas suas nuances, porém é uma certeza quando se está vivo. Já a morte é dúvida. Apesar disso, paradoxalmente, a única certeza que temos é a de que vamos um dia morrer.

Então, que saibamos viver, porque nunca estamos prontos para morrer.