sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

God bless America

Volta e meia eu me pego sentindo inveja dos americanos (norte-americanos ou estadunidenses, se você preferir). É estranho sentir inveja de alguém que você não conhece de perto, mas apenas de ouvir dizer. Eu sinto. Sinto inveja da história construída por meio de luta e do sentimento de nação dos americanos. Sinto inveja da história que cada estrela daquela bandeira traz em si.

Mas tem uma coisa que me desperta uma inveja ainda mais acentuada: a maturidade dos meios de comunicação norte-americanos, mais precisamente, a coragem que eles têm de serem parciais. Sim. Eles são parciais. E eu acho isso fantástico, porque eles não têm medo e nem vergonha de serem assim.

Já aqui, abaixo da Linha do Equador (ou do pecado), se uma emissora assume ser parcial, ela é praticamente "excomungada". Aqui, os meios de comunicação, sobretudo os de televisão, enchem a boca para dizer que são imparciais, como se ser parcial fosse um problema. A realidade, senhores, é que nossos meios de comunicação são tão ou até mais parciais do que os americanos, mas não assumem. É aí que reside a covardia, na minha opinião.

Ser um meio de comunicação parcial não é um problema quando o público tem conhecimento deste fato. Nos Estados Unidos é muito interessante ver como algumas emissoras de TV (como a Fox News), alguns programas, apresentadores e jornalistas se posicionam claramente em prol do Partido Democrata ou do Partido Republicano durante as eleições. E eles não sentem vergonha nenhuma disso. Todos sabem previamente que estão diante de uma emissora/programa/jornalista republicano ou democrata. Aliás, é até engraçado ver programas de humor fazendo campanha contra alguns candidatos. Acho isso lindo, porque representa o que de fato é a liberdade de imprensa.

Já aqui, há revistas, canais de televisão e jornalistas anti-governo e pró-governo que fingem que são imparciais e que não têm interesses políticos. Pelo amor de Deus! Por que fazem isso conosco? Por que não assumem de que lado estão? Não aguento esse papo de imparcialidade. Ninguém consegue ser imparcial de verdade. Não tenho prova científica, mas não acredito que somos capazes de agir imparcialmente em nada. A imparcialidade pode e deve ser uma meta (utópica, aliás) a ser observada para a prática de algumas condutas, mas não podemos nos iludir achando que somos capazes de atingi-la. Cada escolha que fazemos já traz em si um pouco de parcialidade, um pouco de nós mesmos, seres parciais por natureza.

E como é que um meio de comunicação, que, além de ser formado por pessoas de concepções de mundo das mais variadas, é alimentado por interesses de seus financiadores, pode se dizer imparcial? É uma piada. Mas não no Brasil. Aqui é um lugar meio estranho pra algumas coisas. Sei que não tem nada a ver, mas lembrei de uma frase de Tim Maia bem assim: "O Brasil é o único país em que além de puta gozar, cafetão sentir ciúmes e traficante ser viciado, o pobre é de direita." Faltou dizer que aqui a imprensa também é imparcial.

O que fazem com a gente é covardia. Por que não se assumem? Por que não dizem logo quem querem que seja o próximo presidente? Aí sou obrigado a ficar vendo William Waack abrindo 8 em cada 10 Jornal da Globo fazendo uma análise crítica (geralmente um breve comentário de uns 15 segundos) contra o governo federal antes de anunciar as manchetes do jornal. Porra! Assume logo. Tá chegando as eleições e já tá começando a campanha partidária disfarçada. No auge do processo eleitoral, os meios de comunicação vão dizer que "estão fazendo uma cobertura imparcial das eleições para ajudar o eleitor a conhecer todos os candidatos e fazer sua escolha democrática". Bla bla bla. E depois de acabar de falar isso, vão fazer coisas como o que fizeram com o candidato que liderava até então as pesquisas pra prefeitura de São Paulo em 2012 (coincidência ou não, ele liderava as pesquisas e depois nem foi pro 2º turno). Só pra constar, a ideia era dar ao candidato a oportunidade de, por alguns minutos, falar de suas propostas para a cidade...


Ser parcial não é um problema, desde que se assuma isso ao público. É um crime enganar os telespectadores dizendo-se imparcial. Eu, como telespectador, gostaria de saber quem apoia quem, porque pelo menos assim saberia ao assistir ao canal "X" que ele está inclinado a favorecer "A" ao invés de "B". Ou seja, eu saberia previamente o que esperar de cada meio de comunicação. Ora, por que a revista Veja não se assume? É pecado dizer que apóia PSDB e DEM e que não gosta do PT? Não é pecado ter um lado, mas é uma tremenda covardia fingir e negar de pé junto que não tem.

Ano que vem vai começar tudo de novo. A mesma historinha de imparcialidade/democracia. Vai começar a festa da hipocrisia. Acabou a ditadura, meus filhos. Democracia requer meios de comunicação livres para serem o que quiserem, inclusive parciais politicamente. Na democracia ninguém precisa fingir nada. Pra mim, mais importante do que se dizer imparcial, um meio de comunicação precisa ter transparência, deixar claro quais são suas verdadeiras convicções.

Mas fazendo um meia culpa. Será que nós, brasileiros, já temos maturidade suficiente para lidar com meios de comunicação assumidamente parciais como nos EUA? Será que não somos nós que de alguma forma ainda preferimos acreditar em imparcialidade e exigimos isso dos meios de comunicação? Você já viu a reação que muitas pessoas têm quando alguém fala daquela revista chamada Carta Capital? Dizem coisas do tipo "Ah, aquela revista é de esquerda, não dá pra dar credibilidade ao que ela diz do governo". Ora, melhor ler sabendo que ela é assumidamente de "esquerda" do que ler achando que ela é imparcial. Pelo menos eu penso assim. Mas às vezes tenho dúvidas se de fato as pessoas preferem isso. Enfim, falei demais.

Por Don Quasímodo, um apoiador assumido dos Sans Culottes.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

[Dando Uma] Cisne Negro

Aprendi muitas coisas com os blogs que sigo, sobretudo sobre a liberdade de postar o que der na telha, sem compromisso de seguir sempre uma mesma temática e um jeito de escrever. Sinto falta de alguns blogs "inativos", como o Polvo. Por isso, gostaria de neste momento "dar uma" de Polvo, postando sobre algo que muito gostava de ver por lá, textos sobre filmes. Me perdoem a homenagem mal feita e sem conhecimento técnico de cinema.

Inicialmente, é preciso que se fique claro que entendo tanto de cinema quanto uma mulher comumente entende de futebol. Não entendo nada sobre a fotografia de um filme, por exemplo, e tenho dificuldades até mesmo para entender porque um diretor consegue ter tanto destaque se nem é ele que escreve o roteiro. Mas enfim... Vou falar sobre o que eu, leigo, senti de um filme que vi na calada da madrugada do último sábado/domingo (deixando claro que não era o filme "Emanuelle").


Na madrugada do último domingo me peguei vendo na Grobo um filme "feminino" e meio desatualizado: "Cisne Negro". Sim, demoro muito para ver filmes que fizeram sucesso, coisa em torno de anos. Queria entender porque este filme era tão falado. 

Dizem que ganhou Oscar, mas ainda não parei pra conferir no Google, porque vai contra o que me propus a fazer aqui: falar só o que eu acho, com a pureza das minhas próprias impressões. Não me proponho a fazer uma sinopse do filme, logo, me parece um texto para quem já viu o filme.

O que me atraiu na chamada do filme foi a palavra perfeição, a busca de uma pessoa pela perfeição. Me identifiquei com a obsessão da personagem em ser perfeita naquilo que fazia. Não entendo nada de balé e tampouco conhecia a tal história dos cisnes, mas me interessei muito pela história do filme. "Cisne Negro" desperta diferentes sensações, a maioria delas ruins, uma agonia tremenda com aquelas viagens da personagem. O tempo todo trafegando entre a linha da realidade e da imaginação, sem que fique claro qual hora você está vendo a Nina delirando ou no mundo real. Até agora não sei muito bem o que era realidade e o que era imaginação dela. Ainda me pergunto se ela realmente morreu no final. Aliás, que final, senhores! Pelo que entendi, na história dos cisnes há uma mulher aprisionada dentro de um cisne e quer se libertar e o filme conseguiu fazer o oposto, ou seja, um cisne querendo se libertar de dentro de uma mulher. Que sacação! Eu diria que genial!


E a atriz? Aquela que não sei o nome. Não vou no google! Nicole Portman? Algo assim. Sei lá. Perfeita. Antes de dizer que ela é uma gata, uma magra com belos seios, preciso dizer que ela é a personificação de uma garota frágil. Perfeita para a Nina. É simplesmente angustiante ver aquela garota tão frágil, inocente e frígida ir se transformando em alguém tão diferente, tão forte, tão viva e ao mesmo tempo...tão morta. Ela começou a morrer no momento em que começou a ser intensa. Foi tão intensa que perdeu o controle da própria vida.


Outra coisa. Não entendo nada de balé, teatro, cinema e afins, mas que agonia que deu sentir que um/uma artista de qualidade pode precisar se "prostituir" para ter uma chance de brilhar; precisar puxar saco, se deixar assediar sexualmente por um diretor ou sei lá o quê. De alguma forma parecia que Nina não sabia dessa realidade, mas quando soube também não fez nada para evitar, se ofereceu ao jogo, embora em muitos momentos pareça estranhar e sentir nojo dessa realidade, se recusando a ceder de alguma forma. Nina é contraditória neste aspecto. Aliás, o que são aquelas cenas da Nina se masturbando e tendo uma relação sexual com sua "rival"? Como é bom ser homem e ver a Nicole (vou chamar ela de Nicole mesmo) fazendo caras e bocas nesta situação. Sem mais. Uma magra muito sensual!

Meu tempo tá acabando, mas preciso destacar que me identifiquei na busca da Nina pela perfeição. Me reconheci na Nina pré mudanças, na Nina disciplinada, mas frígida. Pude perceber que pouco vale ser disciplinado e não sentir o que está fazendo. Há pessoas que são tão boas que conseguem ser perfeitas sem disciplina excessiva, conseguem fazer com naturalidade o que sabem, como a rival da Nina na imaginação dela. E há outras que não são boas, mas que são tão disciplinadas em aprender algo que alguma hora se tornam boas. Apesar disso, de tanta disciplina esses obstinados não conseguem fazer o que aprenderam com naturalidade. A Nina, a meu ver, estava nessa segunda categoria, mas conseguiu chegar ao lado de lá, ingressar no lado dos naturalmente talentosos. É lindo vê-la passar de um lado para o outro gradativamente (junto com o cisne que vai saindo de dentro dela) e chegar à perfeição, mas é triste ver o preço que ela precisou pagar para ser perfeita e mudar de lado.

Amo a perfeição e, infelizmente, acho que ela existe. Acho que a perfeição é alcançada, por aqueles que são disciplinados e sem talento inato, sempre que eles agem no limite, entre o racionalmente possível para a maioria e a linha do até onde estão dispostos a ir por ela. Por isso acho tão bela e desafiante a perfeição, pois as pessoas "comuns" só chegam a ela quando arriscam ir além do que a maioria considera ser seguro ir. Mas o que é a perfeição? Não seria algo muito subjetivo? Pois então, Nina alcançou aquilo que seu diretor julgava ser perfeito. Esse é o risco de se amar a perfeição. O que cada um considera perfeito não é o que todos consideram. Algumas modelos acham que ficam mais próximas da perfeição quando param de comer. Para alcança-la elas acham que precisam ir além da linha do racionalmente possível, ou seja, do que é saudável.

Nadia Comaneci e o 10 perfeito. 
Detalhe que o placar não estava preparado para marcar uma nota 10
De alguma forma, Nina começou a morrer quando foi se aproximando da perfeição, indo além daquilo que poderia conquistar só tendo disciplina. Mas repito, o que é a perfeição? Para mim, leigo em balé, Nina era perfeita desde quando ainda era só uma bailarina normal. Mas para o diretor dela ela não era. Vale a pena ser perfeito? Alcançar a perfeição deve ser como usar crack, deve ser uma sensação boa muito rápida, que logo passa. Vale a pena buscar a perfeição? Se isto for o que te manter vivo, essa busca insana por limites a serem quebrados, talvez valha. Mas de que vale ir morrendo aos poucos para buscá-la? Será que não é melhor ser imperfeito, porém ser uma pessoa viva?

Senna pagou com a vida sua busca pela volta perfeita
Tudo em 1 hora ou nada. Uma dentro e nada mais.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Falando merda

Espero depois deste texto dar um tempo nos textos de temática boiola e voltar a falar de coisa séria, que foi o que me consagrou junto aos meus leitores fictícios.

Vou falar de tudo que tá aí, só não sei se com muito nexo. Tampe os olhos se não quiser ler! Tampe os ouvidos também, porque vou falar merda como nunca antes.


Cara, que mundo egoísta é esse nosso. De gente mesquinha, que briga por centavos. Servidores públicos cobram aumento porque outra categoria ganhou, como aquele irmão que não aceita o outro ganhar dos pais um presente um pouco melhor. Tocam marcha fúnebre em frente a casa do povo (Assembleia Legislativa do Estado do Espírito Santo) porque os deputados não querem dar aumento salarial pra eles. Acham que a população tem que se solidarizar com vocês? E vocês? Tão dispostos a tocar marcha fúnebre e fazer greve pelo pai de família comum que ganha um salário mínimo e vai se aposentar no INSS pra ganhar um salário mínimo? Filhos da puta! Vocês têm mais privilégios que qualquer trabalhador comum da iniciativa privada, que trabalha aos sábados, não tem estabilidade no emprego, não tem nem a terça parte dos auxílios que vocês ganham mensalmente. "Ah, mas eu estudei e conquistei esse direito" Então é isso? Você pode porque teve condições de estudar, mas o trabalhador comum não pode porque estudou menos que você. Legal essa lógica. Então, já que você pode e ele não, deixa todos os agricultores fazerem greve por um mês porque vão se rasgar no sol pra se aposentar pra ganhar 1 salário mínimo que eu quero ver quem vai fazer mais falta pra sociedade. Se você ficar sem comida pra comprar com o seu dinheiro, coma o seu diploma. Não é nada pessoal, mas sinceramente, falta semancol pra quem já ganha tão acima da realidade nacional e acha que merece ainda mais. Acho que o povo comum não quer pagar suas férias na Europa só porque você ocupa um cargo público de nível superior. O problema não é você ganhar 10 mil, 5 mil. O problema é o povo que paga o seu salário ter que viver com 700 reais em um mês e você achar isso normal. Tão normal que você acha que tem direito a ter, por exemplo, um mísero aumento de uns 700 reais. O sindicato dos motoristas de ônibus param a cidade e todos os setores da economia e da vida social quando acontece uma briga entre um passageiro e um cobrador em uma linha de ônibus lá do fim do mundo, mas não aceitam aderir a uma greve de professores em solidariedade a essa outra categoria profissional. Isso aconteceu em Vitória/ES no mês passado. Coletividades individualizadas. São isso que são os sindicatos! Minha categoria primeiro. Todos por um e ninguém por todos.

Tem gente neste país morrendo de cólera! Puta que pariu! Cólera! C-Ó-L-E-R-A. Sabe o século XXI? Sabe o Iphone? Pois é. Tem gente que morre de cólera por não ter água potável pra beber no Brasil. E você em depressão porque tá vivendo uma incerteza em seu relacionamento. Você tem direito a querer se preocupar com isso. Claro que tem. Mas morrer de amor não dá. Me perdoe. Desce do palco, Xuxa! Drama do caralho!

Bando de gente louca e egoísta. As pessoas tão surtando nas suas individualidades. Casais não querem ter filhos para não perderam a privacidade e terem que gastar dinheiro e tempo criando filhos na melhor fase de suas vidas. Tem gente desesperada que só quer ser ouvida por alguém. E não é pouca gente não. Gente que só quer falar; coisa tão rara hoje em dia pra quem tem menos de 30 anos, nessa época de tudo ao toque dos dedos. Ainda não sei o que é whatsapp. Talvez por isso ainda me procuram pra conversar. Na miséria eu não fico. Vou psicologiar sem licença daqui a pouco. As pessoas estão perdidas em si mesmas e cada vez mais isoladas. Sucesso profissional? Enfia no rabo. Trabalham iguais doidos pra conquistar dinheiro pra curtir dois dias de prazer na semana. Bela matemática. Trabalha 5 ou 6 pra aproveitar 2 ou 1. Presos trabalham 3 dias pra conquistar 1 dia a menos de pena, sabia? É sério. E você trabalha 5 ou 6 por 2 ou 1 dias de "liberdade". Tá todo mundo louco dentro da sua própria ilha!

Relações amorosas só de prazer. Você se satisfaz me satisfazendo. Relações de puro egoísmo. Eu gozo e a mulher não. Problema dela. Ela quis dar sabendo que não ia gozar. A propósito, se você quiser dar eu como. Call me, baby. Por falar nisso, como tem mulher burra nesse nosso mundo egoísta. Burra não no sentido intelectual, mas sentimental. Mulher se rastejando por qualquer fração de apreço, mesmo que seja um apreço bandido, daqueles violentos e infiéis. Mulheres que não se sentem seduzidas por caras "comuns"; esses as burras gostam de ter como meros amigos. Elas preferem os caras que podem ter a ilusão de poder mudar. Mas também há mulheres que só se rastejam se houver um preço. Uma contrapartida. Você nunca mais me ligou, por falar nisso. Afeto se retribui (ou não), sabia?

Queremos que as pessoas sejam como nós queremos que sejam. Queremos que façam o que queremos que façam, sem querer saber se elas realmente querem ou sabem. Ninguém quer ensinar, mas todo mundo quer sugar. Vai tomar no cu! Queremos escravos. Dia desses eu tava pensando: Se o homem chegar a um planeta onde houver vida e encontrar seres corpóreos como nós, mas menos evoluídos, será que não tentaremos escravizá-los por não serem humanos? Tudo que queremos é ter alguém para podermos exercer poder sobre. Até relações sexuais se assemelham a relações de poder. Todos mimadinhos pelas modernidades. Tudo ajustável do jeito que eu quero e gosto. Tudo personalizável. Feito pra conseguir agradar a individualidade de cada um. Tamos virando um bando de frescos. Nem o Merthiolate arde mais! Se Darwin tiver certo sobre a evolução natural, em breve surgirão humanos com membros atrofiados pelo desuso em razão da tecnologia. Egoístas frescos. Tudo é vaidade, já dizia a Bíblia, livro que ninguém mais lê, mas acha que pode criticar pelo que ouviu falar. Ficamos putinhos quando as coisas não são do jeito que queremos que sejam, quando as verdades não são como queremos que fossem. Como se algo tivesse que acontecer naturalmente só porque queremos. Existem verdades absolutas, mas é melhor achar que elas não existem, porque relativizando tudo podemos nos sentir certos mesmo quando agimos em desacordo com essas verdades.

É engraçado como ninguém gosta de sentar ao lado de alguém quando há dois bancos livres no ônibus. Eu tento não ser egoísta e deixar os dois bancos pra alguma dupla de amigos que entrar no ônibus poder conversar sem que um deles precise quebrar o pescoço para falar com o outro por estarem em bancos separados, mas em geral as pessoas estranham você sentar ao lado delas havendo lugares livres. As pessoas querem apenas poderem gastar dinheiro consigo mesmas. Chiquinho Scarpa disse que ia enterrar um carro que vale 1 milhão de reais no jardim da mansão dele porque achou legal esse costume dos faraós egípcios de enterrar suas riquezas nas pirâmides. Alegou que o carro e o dinheiro são dele e que ele pode fazer o que quiser, mas isso incomoda o mundo todo. Mas e se ele "só" quisesse se enterrar vivo no jardim? Ia incomodar tanto? O dinheiro dele vale mais do que a vida dele, por certo. Vou ver se ele já enterrou o carro. Podem respirar que acabei de ler no G1 que ele não enterrou o carro. Disse ele, aliás: “Eu fui julgado por querer enterrar uma Bentley, mas a verdade é que a grande maioria das pessoas enterra coisas muito mais valiosas que meu carro. Elas enterram corações, rins, fígados, pulmões, olhos. Isso sim que é um absurdo. Com tanta gente esperando por um transplante, você ser enterrado com seus órgãos saudáveis que poderiam salvar a vida de várias pessoas, é o mais desperdício do mundo. O meu Bentley não vale nada perto disso. Nenhuma riqueza, por maior que seja, é mais valiosa que um único órgão, porque nada é mais valioso do que uma vida"  - Se ele queria verdadeiramente passar essa mensagem desde o início ele foi foda!

Tô cansado de falar merda. Acho que já deu. Mas tem dia que é assim. Queremos só um espaço pra falar coisas que queremos dizer.

Pronto. Falei.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Cheio de graça

É muita desgraça.
Não quero nem de graça.
Isso tem graça?
Como é sua graça?
Te amo, Graça!
Pela graça divina.
Ela é uma graça...
Graças a Deus!
Conquistei uma graça.
Você tem graça no caminhar.
Nossa Senhora das Graças.
Ainda não caí nas suas graças.

Porque a vida é uma graça.

domingo, 18 de agosto de 2013

Metalinguagem esquecida

Chegamos ao ponto.
À indiferença.
Um texto bom ou ruim
Sem qualquer audiência.

Saias curtas em meio a carroceiros,
Posso dizer e você não verá.
Então irei escrever,
Mas você não vai escutar.

A porta bate,
O último que sair apague a luz!
Não apagaram
Então fiquei de voyeur.

Eu ainda falo
Pra quem quiser ouvir,
Mas só tem eu aqui.
Assim é ruim.

A rima é pobre,
Mas nunca foi rica.
Agora é mais flagrante
Que preto não é sua cor favorita.

A história foi escrita.
Venceu quem faz dela sua vida.
Agiu. Levou.
Respeite quem pode chegar onde a gente não chegou...

Faltou poesia,
Sobrou prosa.
Faltou ação.
Não teve paixão.

Agora dá!
Mas não pode mais.
Perdi o voo.
Sobraram navios.

Viva Rio!
Rio de Piracicaba.
Como um menino
Indo pra Pindamonhangaba.

Bom é assim:
Plateia vazia;
Caneta livre.
Só eu li.

Àquele campeão que disse que as melhores corridas dele foram aquelas que ninguém viu.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

É lá! É lá!

É lá que eu deveria estar!

Foi essa a sensação que tive no histórico dia 20 de junho de 2013; dia no qual cerca de 100 mil capixabas foram às ruas da Grande Vitória protestar contra "isto tudo que tá aí". Neste dia eu fui liberado do trabalho às 15 horas, tempo de sobra para me juntar aos manifestantes que iriam sair às 18 horas do campus da UFES. Era lá que meu coração dizia que eu deveria estar. Meu coração. Não minha razão.

Era o dia do "Basta". O dia de mostrar a cara, de dizer ao mundo, àqueles que sabemos quem, que não dá mais e que uma parte considerável dos brasileiros não está tolerando mais "isto tudo que tá aí." Eu estava envolvido emocionalmente e iria me manifestar por ímpeto, por amor à nação, por orgulho ferido como brasileiro. Eu iria por uma questão de pele, visceral. Eu iria só pra poder gritar com o povo que existimos e precisamos ser vistos. Eu iria, mas não fui...

Como sempre, quando coloco minha razão para funcionar, eu me torno um cara de atos lentos. Quando penso demais ajo com delay. Dou respostas lentas. E foi isso que aconteceu. Pensei demais e acabei dentro de um ônibus indo pra Vila Velha às 15 e qualquer coisa da tarde. Comecei a pensar quais resultados concretos ir às ruas traria para a população e aí eu não fui mais. Não fui por falta de coração. Ou será que por excesso de suposta racionalidade?

Pensei que enquanto o povo marchava nas ruas às 20 horas os deputados estavam em suas casas rindo da cara da população, pensando em como o povo é tolo e voltará a votar errado em 2014. Pensei que ir à Assembleia Legislativa quando os representantes do povo não mais lá estivessem seria como que ir a um puteiro sabendo que todas as meninas foram pra casa. É como fazer greve à meia-noite. Vai surtir que efeito? Pensei que ir às ruas tem um valor imenso sob o aspecto de resgatar um pouco do comprometimento do brasileiro com o rumo das coisas e pode efetivamente surtir efeito quando se tem uma bandeira bem definida. Pensei que o povo ter ido às ruas com o rosto pintado pressionando o congresso a derrubar o Collor, bem como anos antes ter ido às ruas exigindo "Diretas Já" só surtiu algum efeito porque as manifestações populares tiveram metas bem traçadas. Pensei que as manifestações dos estudantes do ES em 2005 só conseguiram abaixar as tarifas de ônibus e o passe livre porque a razão das manifestações era clara. Pensei que ir às ruas gritar "basta" contra tudo não tem muito efeito. É simbólico, sem dúvidas, mas pouco efetivo. Pensei que ir às ruas exige um mínimo de bandeira de luta. Metas claras. Pensei que não basta ir às ruas com cartazes de "chega de corrupção" e não pressionar os órgãos públicos responsáveis por combatê-la, por exemplo.

Talvez ter estudado direito me fez ver as coisas sob um prisma mais sistêmico. Explico. Sou um defensor do "sistema". Um defensor do uso dos meios de luta propiciadas pelo sistema. Conhecer um pouco das leis brasileiras me fez entender que, na maioria das vezes, mais faz um cidadão que faz uma denúncia anônima no Ministério Público requerendo investigação e apuração de uma situação de aparente mau uso de dinheiro público do que 1 milhão de pessoas que vão às ruas gritar "Chega de corrupção", mas nem sabem a quem denunciá-la. Não é que uma manifestação não tenha valor. Não é isso. O que quero dizer é que a população faz mais quando denuncia os fatos de que toma conhecimento aos órgãos competentes para apurá-los e se organiza em associações civis para cobrar medidas eficazes junto a esses órgãos. Felizmente temos instrumentos fornecidos pelo próprio sistema para lutar contra a corrupção e outros males que milhares foram às ruas gritar contra. O que falta é fazer uso desses instrumentos de controle social. Saber que há corrupção todos sabemos, o que falta é fazermos uso dos meios existentes para combatê-la. Quantos sequer sabem a que órgão dirigir uma denúncia de irregularidades na atuação de um deputado? Não falta lei e nem sistema pra combater a corrupção. Por isso, acho que ajudo mais ensinando as pessoas sobre as competências de cada órgão público, a quem se dirigir, do que indo pra rua gritar "basta".

Ano que vem voltaremos a eleger corruptos. Elegeremos corruptos que ficaram rindo, do alto de suas coberturas na praia, das 100 mil pessoas que foram às 20 horas protestar/gritar/pedir "pelo amor de Deus" diante de uma assembleia legislativa vazia. Isso fará com que muitos digam que tudo foi em vão. Mas eu que não fui às ruas digo que aqueles que foram não agiram em vão. Ir às ruas é sinal de força, embora não mude muita coisa quando as bandeiras de luta não são bem delimitadas. Direi que perdemos uma boa chance dia 20 de junho de 2013; uma chance de ter abraçado uma grande bandeira que é capaz de mudar profundamente "tudo que tá aí". Poderíamos ter ido às ruas lutando só por "reforma política já". Algo assim é realmente capaz de mexer com o espírito dos corruptos. Tudo que um corrupto não quer é ir contra a opinião popular. Pressionar o Congresso a votar a reforma política com manifestações diárias Brasil afora, como foram os protestos por "Diretas Já" e pela queda do Collor, dá resultado prático. Vide a votação da PEC 37 nesta semana. Vários deputados que eram a favor dela mudaram repentinamente de ideia porque houve pressão popular de todos os lados. É preciso ter racionalidade ao levantar uma bandeira nas ruas. É preciso saber jogar o jogo. Saber "chantagear" os corruptos que fazem tudo para não contrariarem a opinião pública de milhões que foram às ruas. As manifestações populares têm esse poder. Os representantes do Legislativo sabem que nós sabemos o que eles fazem e se valem de nossa falta de organização para continuar fazendo o que fazem.

O povo foi às ruas no dia 20 de junho de 2013 apenas com o coração. Não dá pra ser só assim. Mas é perdoável, afinal, não dá pra todos levantarem uma mesma bandeira em uma manifestação que surgiu de forma tão espontânea. Eu também queria ter ido gritar, botar pra fora. Mas não dá pra ser sempre assim. O erro, a meu ver, é levar pra cada nova manifestação de grande mobilização popular nas ruas algo próximo de 10 a 20 reivindicações. Não dá. Quem tudo quer, nada tem. Melhor seria se todas as novas manifestações Brasil afora tivessem bandeiras nacionais em comum, mas isso é difícil de se pensar quando se fala em movimentos com milhares/milhões de pessoas. É preciso que nesse momento de rara união nacional saibamos lutar por aquelas questões que são mais urgentes aos interesses da população (reforma política, reforma tributária...). É preciso que não desperdicemos esse momento, porque o Congresso tá cagando pra gente e só cede quando é pressionado pela população de maneira reiterada em relação a um tema específico. Quando se luta por melhorias em tudo, corre-se o risco de cair no senso comum, de se perder a razão e não se alcançar nada.

Anote aí. Ano que vem muitos vão dizer que o "gigante voltou a dormir", que foi tudo em vão e voltarão a dizer que "este país não tem jeito", "só tem corrupto", que faltam recursos pra educação, saúde etc. Como disse, penso que 20 de junho de 2013 não terá sido em vão, mas ficará uma sensação de que poderia ter sido melhor aproveitado. Espero que isso motive novas manifestações populares, que possamos aprender com o erro do 20 de junho de 2013 e que a partir disso o brasileiro volte às ruas, só que agora com reivindicações mais claras e pontuais, porque se for pra gritar sempre contra "tudo que tá aí" não vai dar pra mudar muita coisa e vamos nos decepcionar.

In memoriam dos blogs falecidos que ainda sigo na esperança de que "acordem".

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Maldita sea la intolerancia

Século XXI...

Dizem que representa uma Era de Liberdade e Tolerância, na qual, a grosso modo, cada um pode ser aquilo que quiser e todos os demais são obrigados a tolerar.

Isso parece ser bom. Mas pra quem? 
Ora, pois! É bom para todos! Não?!
Não. É bom para todos, menos alguns.

Historicamente, minorias são alvo de toda forma de discriminação e precisam lutar muito mais do que as maiorias para poder gozar dos mesmos direitos. Hoje, felizmente, vemos um Brasil no qual cada vez mais as minorias têm voz, direito de se expressarem. Isso é bom? Não. isso é ótimo! O problema, a meu ver, é outro. A estranha sensação que tenho é a de que algumas minorias, quando conquistam voz, passam a fazer com maiorias aquilo que elas historicamente sofreram e lutaram contra. Trocando em miúdos, aqueles que antes lutavam por tolerância passam a agir com intolerância.

Sou católico e me sinto extremamente incomodado com a forma com que os evangélicos foram execrados nos últimos meses por causa do Pastor Feliciano e daquelas que seriam suas supostas ideias homofóbicas. É verdade que esse senhor fez algumas declarações infelizes? Sim. Mas, na minha opinião, isso não justifica a forma preconceituosa com que pessoas adeptas de outras religiões ou de nenhuma religião passaram a tratar os evangélicos, como se todos compartilhassem das mesmas visões de mundo do aludido pastor.

Fizeram com os evangélicos o que há alguns anos fizeram com os comunistas durante a ditadura brasileira. Só faltaram dizer que evangélicos comiam criancinhas (acho que não falaram isso porque preferem dizer que isso é coisa de padre católico). Sinceramente, o que alguns membros da minoria gay e adeptos de religiões não evangélicas fizeram com essas pessoas me soou tão intolerante quanto as ideias rotuladas de intolerantes do Feliciano.

É preciso que não se confundam as coisas: ideologia religiosa é diferente de discriminação.

Quero dizer o seguinte: eu posso, por questão de ideologia religiosa ser contra o casamento gay, mas não ser um cara preconceituoso. Esse é exatamente o meu caso. Vejamos: sou católico e, com fulcro nas ideias que sigo da minha igreja, não devo apoiar o casamento de pessoas do mesmo sexo. Por outro lado, como jurista, não vejo porque em um Estado laico e plural como o nosso esse tipo de casamento ser proibido. Em suma, no exercício de minha profissão jurídica e em respeito ao espírito igualitário de nossa Constituição Federal devo lutar pelo direito dos gays, sem preconceitos, não obstante eu tenha convicções pessoais contrárias a esse tipo de casamento. Ou seja, tendo em vista a liberdade de crença que me é assegurada pelo art. 5º, inciso VI, da Constituição Federal, tenho o DIREITO de ser contra o casamento gay por opção religiosa. Por outro lado, tendo em vista o caput do mesmo art. 5º da Constituição (para quem não é da área jurídica, o caput é a primeira frase que está do lado do art. 5º no link que eu coloquei, ou seja, antes do inciso I), eu tenho o DEVER de lutar por leis que assegurem a todos um tratamento igualitário. É meu dever como cidadão brasileiro.

Assim sendo, posso ser contra o casamento gay por convicção religiosa, mas não tenho o direito de discriminar quem seja gay (aliás, além de ser contra a lei, também seria contra a Bíblia eu discriminar alguém por ser gay. Pra quem não conhece a Bíblia, tem um trecho bem assim: "Deus não faz distinção de pessoas" Rm 2,11). Tenho o dever de tolerar a liberdade sexual, assim como quem não é católico tem o dever de tolerar a minha liberdade de crença religiosa. A senha do dia é: TOLERÂNCIA.

 Infelizmente, no entanto, a liberdade religiosa tem sido alvo de ataques ferrenhos nos últimos tempos. Se tornou quase que sinônimo de falta de inteligência seguir uma religião. Os evangélicos em especial são vistos como acéfalos por existir quem siga pastores como o Waldomiro ou o Feliciano. Se tornou "pecado" ter religião. É como se os evangélicos fossem os responsáveis pelo atraso das leis brasileiras por causa da bancada evangélica em Brasília. Eu te garanto que se hoje tivesse um plebiscito sobre o casamento gay e sobre a legalização da maconha, por exemplo, não seriam os evangélicos os responsáveis pela vitória do NÃO. A verdade é que a MAIORIA nos meios de comunicação e nas redes sociais (ou seja, a MAIORIA que tem espaços midiáticos para voz) que defende a legalização da maconha, a liberdade sexual, o ateísmo, o desarmamento etc é MINORIA entre a população como um todo. Somos um país atrasado não por causa de uma suposta mentalidade religiosa acrítica e sem racionalidade da MAIORIA, como uma MINORIA que se julga "iluminada" tenta alardear de modo intolerante. O nosso atraso deriva de diversos fatores, reduzi-lo à religião é simplismo demais.

Voltando à intolerância, poucas coisas me soaram tão intolerantes nos últimos tempos quanto esta foto:
 
Duas mulheres se beijam durante uma visita de Feliciano a uma igreja evangélica em Belém Foto: Facebook / Reprodução
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 Por quê? Porque essas duas garotas se beijaram durante um culto evangélico com o claro propósito de desafiar o pastor Feliciano que falava no palco. Pra mim, isso é um ato de intolerância religiosa, de intolerância com quem quer pensar diferente. Quer defender seu direito, utilize os espaços democráticos disponíveis para tanto, proteste na rua, entre na política, sei lá, só não viole um culto religioso, não seja intolerante.

Veja bem. Não estou apoiando as declarações de cunho racista ou homofóbico eventualmente feitas pelo pastor Feliciano, mas estou apoiando o direito que os adeptos da igreja dele têm de serem contrários ao comportamento homoafetivo. Ser contrário a algo e ser preconceituoso são coisas DIFERENTES. Como dizia Voltaire: "Discordo daquilo que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de o dizeres."

É uma pena que estejam plantando em um país de tradição pacífica como o nosso a semente da intolerância religiosa. Não penso que possamos chegar a ter uma guerra religiosa, sobretudo porque nosso "problema" religioso não se confunde com questões de diferenças étnicas, mas temo pelo discurso intolerante de minorias que se defendem da intolerância atacando com a intolerância. A matemática é simples: INTOLERÂNCIA RELIGIOSA + INTOLERÂNCIA SEXUAL = 2 INTOLERÂNCIAS

A luta das minorias deve sempre ser por tolerância e pelo respeito a seus direitos, e não pelo direito de serem intolerantes como as maiorias costumam ser.

Bendita sea la potencia de la tolerancia.